quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Reintrodução de língua portuguesa: uma coincidência... feliz!

«A intenção de Timor, a partir de Janeiro, é [abrir] mais quatro escolas portuguesas distribuídas pelos distritos. As escolas seriam suportadas pelo orçamento de Estado de Timor, assim como [os encargos com os] professores portugueses contratados cá em Portugal para Timor serão [também] suportados pelo OE de Timor, com a excepção da gestão, [em que] o governo timorense demonstra algum interesse em que a gestão seja feita [assegurada] pela parte portuguesa.»

Embaixadora Natália Carrascalão na entrevista à Rádio Renascença (RR), 24/09/2009 (http://www.rr.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=92&did=72029)


Há um ano, escrevi, neste blogue, um artigo de opinião - publicado a 1/04/2008 e republicado a 5/07/2008 - sobre o ensino sustentável de língua portuguesa em Timor, após a proibição do seu uso no ensino e na administração pelo ocupante indonésio (1975 a 1999). Um ano depois, felizmente, o Estado timorense encontrou o mesmo caminho para o ensino e reintrodução de língua portuguesa em Timor. A cooperação portuguesa nunca acertou no público-alvo determinante para o florescimento e multiplicação de falantes do português. O que se fez foi tentar, teimosamente, fertilizar uma em menopausa... Há sempre um pedreiro a querer fazer projectos de instalação eléctrica numa moradia!


«A língua portuguesa ainda é falada por timorenses de mais de 35 anos escolarizados no sistema educativo português, antes de Dezembro de 1975.

O objectivo, agora, é voltar a introduzir o português como língua de ensino, cultura e administração do Estado timorense, e desenvolvê-lo no território para que se torne não só o instrumento de trabalho dos timorenses, como também uma janela para o mundo e uma mais valia económica para o país. Pois, através da língua chega-se à economia de um vasto mercado de mais de 200 milhões de pessoas nos cinco continentes, que tiveram ligação histórica com Portugal.

O esforço da cooperação é louvável neste campo, mas não acertou na 'mouche'. Os professores destacados no território estão a formar docentes timorenses, logo gente adulta escolarizada no sistema educativo indonésio, logo não dominam minimamente o português, logo haverá alguma ou mesmo muita dificuldade em transmitir os conhecimentos adquiridos aos seus alunos timorenses em português. É deitar dinheiro dos contribuintes portugueses pelo cano da sanita.

Então qual a alternativa?

1. Abrir uma escola exclusivamente ministrada em língua portuguesa, começando logo no 1º ciclo (ensino primário) e gradualmente estender-se-ia ao pré-secundário e secundário (acompanhando a progressão dos alunos que começaram no primário), em cada um dos treze distritos, tendo como docentes, de preferência todos profissionalizados, recrutados em Portugal, Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde.

2. Portugal poderia recrutar, num primeiro momento [numa primeira fase], professores do 1º ciclo (ensino primário), posteriormente do 2º, 3ºciclos e do ensino secundário para cada uma das treze escolas.

3. O Estado timorense poderia abrir concurso para o recrutamento de professores para docentes brasileiros, angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos. São professores mais baratos, em termos de salário, que os portugueses. Por isso, é suportável pelo orçamento de estado timorense.

4. E recrutar-se-iam igualmente docentes timorenses, falantes de português e profissionalizados, com o mesmo salário dos restantes docentes contratados, excepto portugueses (estes naturalmente mais caros).

5. Numa mesma escola, coexistiriam docentes de várias proveniências.

6. Aos docentes estrangeiros o Estado timorense disponibilizaria alojamento adequado nos distritos onde iriam leccionar.

6. As restantes escolas da rede pública timorense continuariam a ser asseguradas por professores timorenses até se chegar a uma altura (15 anos depois) em que os alunos saídos das treze escolas propostas assegurariam por sua vez a docência nas restantes escolas referidas.

Estes são um apanhado de ideias para ajudar a fazer crescer a língua portuguesa, na terra do crocodilo.»

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Moção de censura da Fretilin ao Governo discutida e votada na próxima semana

Vai ser agendada, possivelmente, para a semana a discussão e votação da moção de censura da Fretilin ao Governo, subscrita também pela coligação Aliança Democrática-KOTA/PPT (de Manuel Tilman e Jacob Xavier).

Mas vai ser um esforço inglório para Mari Alkatiri, porque a moção não vai passar no Parlamento. Para passar é necessária uma maioria absoluta, isto é, são necessários 33 votos para conseguir passar a moção de censura: coisa impossível para Alkatiri. Ora façamos as contas: somando 21 deputados da Fretilin com 2 de AD-KOTA/PPT (subscritores da moção) mais 3 deputados do PUN da Fernanda Borges dá 26 no total. Não dá, camaradas! Só se, por absurdo, ou por ambição, ou por uma agenda qualquer a nós desconhecida, o líder de um dos partidos da coligação governamental que não o CNRT - porque o do CNRT é o próprio Xanana - der instruções aos seus deputados para votarem a favor. Aí sim, poderão ter a maioria absoluta necessária de 33 votos. Um parêntesis: já há quem se mexa, demarcando-se do PM Xanana no caso Bere!

Nesta legislatura, a distribuição dos lugares no Parlamento é a seguinte: Fretilin - 21, CNRT - 18, Coligação ASDT/PSD - 11, PD - 8, PUN - 3, AD-KOTA/PPT - 2, UNDERTIM - 2. Um total de 65 lugares.

E a coligação governamental AMP é constituída por CNRT com 18 mais a Coligação ASDT/PSD 11 deputados (distribuídos por ASDT 5 e PSD 6) mais PD com 8 deputados. Totalizam 37 lugares.

sábado, 12 de setembro de 2009

Caso Bere: Horta chantageou Xanana

Ramos Horta chantageou Xanana para mandar soltar o criminoso de guerra Martenus Bere, líder da milícia pró-autonomia que cometeu uma das maiores atrocidades em Timor, massacrando centenas de timorenses refugiados na Igreja de Suai na sequência da divulgação dos resultados do Referendo de 30/8/1999 - favoráveis à independência - pensando que estariam seguros, que os seus assassinos não se atreveriam a profanar um templo religioso.

O Presidente Horta queria a viva força mandar soltar nas comemorações de 30 de Agosto o criminoso Martenus Bere, como sinal de amizade e boa vontade à Indonésia, mas encontrou oposição do Primeiro-ministro Xanana.

Para levar avante tal medida, Ramos Horta impôs a Xanana a soltura de Bere: libertá-lo sem demora, ou Horta - enquanto Presidente da República - não iria presidir às cerimónias da comemoração do 10º aniversário do Referendo, deixando mal Xanana e o seu governo perante os convidados internacionais.

E para ter a certeza absoluta que a sua vontade de soltar Bere é concretizada pelo Governo, atrasou-se até ao limite às comemorações, comparecendo, só, depois de receber a garantia de Xanana de que a sua vontade será cumprida, dada em pleno palanque, com todos os convidados intenacionais já presentes, enquanto se aguardava a chegada do Presidente Horta para se iniciar as cerimónias.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Alkatiri vota a favor da revogação do impedimento a PR Horta

Mari Alkatiri deu instruções aos deputados da bancada da Fretilin para votarem a favor do levantamento da proibição de sair do país do Presidente da República para visita oficial ao estrangeiro, com receio da realização de eleições presidenciais, dentro de noventa dias, caso Horta cumprir a ameaça de resignação ao cargo.

Ramos-Horta chantageia Parlamento Nacional

17:00 horas (9:00 h de Portugal), de hoje, dia 9/9, é o prazo imposto pelo Presidente da República aos deputados para reconsiderarem a sua posição relativamente à proibição decretada pelo Parlamento Nacional de o Presidente viajar para o estrangeiro em visita oficial. E findo o prazo estipulado, caso o Parlamento Nacional não revogar a decisão ontem tomada em plenário, o Presidente Horta solicitará ao Parlamento Nacional a sua resignação do cargo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

De Ataúro

Belloi, Timor-Leste. - A ilha de Ataúro, última porção de Timor-Leste sob domínio português até poucos dias antes da invasão indonésia em 1975, tem os contornos de uma gota de água e talvez a área da ilha Graciosa, nos Açores. Vivem aqui cerca de nove mil pessoas, que falam tétum e uma outra língua local, nas montanhas, com vários dialectos.

Vivem aqui duas missionárias brasileiras protestantes, uma baptista que fala tétum com sotaque de Minas Gera, a outra calvinista e oriunda da Paraíba. Faço a esta uma pergunta com rasteira: como decidiu vir para aqui? A missionária, que acredita na doutrina da predestinação, não se deixa enganar: não decidu vir, diz-me, orou e Deus permitiu que ela viesse.

Uma minidelegação da Assembleia da República de Portugal, chefiada por Jaime Gama, e acompanhada pelo embaixador de Portugal em Díli, veio a Ataúro numa brevíssima visita. Eu fiz-me convidado para vir também. Eles tiveram a simpatia de me aceitar.

As águas límpidas e, em torno da ilha permitem ver os corais a poucos metros de profundidade. Do outro lado do canal, vê-se a ilha principal de Timor-Leste, onde a variedade de paisagens é quase tão grande como a diversidade linguística. Montanhas rochosas; prados de aparência alpina com cavalos semi-selvagens; densas florestas equatoriais; arrozais em socalco com búfalos pastando; manguezais com possíveis crocodilos; praias de areia branca com coqueiros. O potencial turístico é evidente; às vezes é até levemente assustador. Oxalá venham a beneficiar dele estas pessoas, cujos rostos foram outro motivo de interesse nos últimos dias: alguns parecem polinésios, muitos assemelham-se a malaios ou indonésios, outros sugerem aborígenes da Austrália ou da Papua; alguns até poderiam ser chineses da Formosa, japoneses de Okinawa, portugueses de qualquer lugar.

Quem esteve neste país em 1999 diz que já não se consegue imaginar o grau de destruição deixado pelas milícias e pelas tropas indonésias. Ainda se vão vendo edifícios queimados dessa época, tal como se vê, claramente, que este é ainda um país muito pobre. A população vai crescendo a um ritmo acelerado; não demorará muitos anos até que atinja milhão e meio e não é impossível que chegue aos dois milhões.

Nesta parte do globo, quando as coisas começam a mudar, não nos dão muito tempo para reagir. E as potências aqui no terreno, da Austrália à China, não estão propriamente a coçar a cabeça para decidir o que fazer. Entre os portugueses de cá, em funções oficiais ou privadas, sente-se alguma ansiedade por conseguir explicar Timor aos portugueses daí. Quando Timor-Leste fizer parte de ASEAN, dizem-me, será uma base permanente numa das regiões mais dinâmicas do mundo. A partir daqui pode planear-se o trabalho sistemático de recolher a migalha um tesouro diplomático que Portugal tem disperso por esta região, e que é constituído por vestígios históricos, ou por vezes comunidades vivas, de regiões luso-influenciadas ou onde vivem luso-descendentes. Acima de tudo, este pode ser um ponto de partida para conhecer bem uma região do mundo que hoje conhecemos mal, e transitar do fim colonialismo para o início do cosmopolitismo.

Rui Tavares
Historiador. Deputado eleito para o Parlamento Europeu pelo Bloco de Esquerda (www.ruitavares.net)

PÚBLICO - 2 Setembro 2009

O desepero do 'animal feroz'

"Farei tudo ao meu alcance para restaurar a confiança com os professores." (Sócrates, RTP1-1/9)

A 27 de Setembro, os prof vão lançar o 'menino de oiro' pela borda fora.

Os professores, magistrados, médicos, enfermeiros, polícias, militares e funcionários públicos e seus familiares não vão esquecer, a 27 de Setembro, o trato de polé a que foram sujeitos por esta governação socratinesca durante estes quatro anos.

Votemos à direita ou à esquerda, mas nunca no PS de Sócrates.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Perfil de Sócrates, por António Barreto

'Sócrates, o ditador'

Único senhor a bordo tem um mestre e uma inspiração. Com Guterres, o primeiro-ministro aprendeu a ambição pessoal, mas, contra ele, percebeu que a indecisão pode ser fatal, ao ponto de, com zelo, se exceder. Prefere decidir mal, mas rapidamente, do que adiar para estudar. Em Cavaco, colheu o desdém pelo seu partido. Com os dois e com a sua própria intuição autoritária, compreendeu que se pode governar sem políticos.

Onde estão os políticos socialistas ?

Aqueles que conhecemos, cujas ideias pesaram alguma coisa e que são responsáveis pelo seu passado? Uns saneados, outros afastados. Uns reformaram-se da política, outros foram encostados. Uns foram promovidos ao céu, outros mudaram de profissão. Uns foram viajar, outros ganhar dinheiro. Uns desapareceram sem deixar vestígios, outros estão empregados nas empresas que dependem do Governo. Manuel Alegre resiste, mas já não conta. Medeiros Ferreira ensina e escreve. Jaime Gama preside sem poderes. João Cravinho emigrou. Jorge Coelho está a milhas de distância e vai dizendo, sem convicção, que o socialismo ainda existe. António Vitorino, eterno desejado, exerce a sua profissão. Almeida Santos justifica tudo. Freitas do Amaral, "ofereceu-se, vendeu-se" e reformou-se! Alberto Martins apagou-se. Mário Soares ocupa-se da globalização. Carlos César limitou-se definitivamente aos Açores. João Soares espera. Helena Roseta foi à sua vida independente. Os grandes autarcas do partido estão reduzidos à insignificância. O Grupo Parlamentar parece um jardim-escola sedado. Os sindicalistas quase não existem. O actual pensamento dos socialistas resume-se a uma lengalenga pragmática, justificativa e repetitiva sobre a inevitabilidade do governo e da luta contra o défice. O ideário contemporâneo dos socialistas portugueses é mais silencioso do que a meditação budista.

Ainda por cima, Sócrates percebeu depressa que nunca o sentimento público esteve, como hoje, tão adverso e tão farto da política e dos políticos. Sem hesitar, apanhou a onda.

Desengane-se quem pensa que as gafes dos ministros incomodam Sócrates. Não mais do que picadas de mosquito. As gafes entretêm a opinião, mobilizam a imprensa, distraem a oposição e ocupam o Parlamento. Mas nada de essencial está em causa.

Os disparates de Manuel Pinho fazem rir toda a gente. As tontarias e a prestidigitação estatística de Mário Lino são pura diversão. Não se pense que a irrelevância da maior parte dos ministros, que nada têm a dizer para além dos seus assuntos técnicos, perturba o primeiro-ministro. É assim que ele os quer, como se fossem directores-gerais.

Só o problema da Universidade Independente e dos seus diplomas o incomodou realmente. Mas tratava-se, politicamente, de uma questão menor. Percebeu que as suas fragilidades podiam ser expostas e que nem tudo estava sob controlo. Mas nada de semelhante se repetirá.

O estilo de Sócrates consolida-se. Autoritário. Crispado. Despótico. Irritado. Enervado. Detesta ser contrariado. Não admite perguntas que não estavam previstas ou antes combinadas. Pretende saber, sobre as pessoas, o que há para saber. Tem os seus sermões preparados todos os dias. Só ele faz política, ajudado por uma máquina poderosa de recolha de informações, de manipulação da imprensa, de propaganda e de encenação. O verdadeiro Sócrates está presente nos novos bilhetes de identidade, nas tentativas de Augusto Santos Silva de tutelar a imprensa livre, na teimosia descabelada de Mário Lino, na concentração das polícias sob seu mando e no processo que o Ministério da Educação abriu contra um funcionário que se exprimiu em privado. O estilo de Sócrates está vivo, por inteiro, no ambiente que se vive, feito já de medo e apreensão. A austeridade administrativa e orçamental ameaça a tranquilidade de cidadãos que sentem que a sua liberdade de expressão pode ser onerosa. A imprensa sabe o que tem de pagar para aceder à informação. As empresas conhecem as iras do Governo e fazem as contas ao que têm de fazer para ter acesso aos fundos e às autorizações. Sem partido que o incomode, sem ministros politicamente competentes e sem oposição à altura, Sócrates trata de si. Rodeado de adjuntos dispostos a tudo e com a benevolência de alguns interesses económicos, Sócrates governa. Com uma maioria dócil, uma oposição desorientada e um rol de secretários de Estado zelosos, ocupa eficientemente, como nunca nas últimas décadas, a Administração Pública e os cargos dirigentes do Estado. Nomeia e saneia a bel-prazer.

Há quem diga que o vamos ter durante mais uns anos.

É possível.

Mas não é boa notícia. É sinal da impotência da oposição. De incompetência da sociedade. De fraqueza das organizações. E da falta de carinho dos portugueses pela liberdade.

António Barreto

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Num país mais do que viável

Díli, Timor-Leste. - Os pessimistas estão sempre em vantagem. Se as coisas correm mal, ganham porque tiveram razão. Se as coisas correm bem, ninguém se lembra que eles erraram; todos sentem que ganharam, e eles ganham também. Os optimistas estão sempre em desvantagem. Se as coisas correm mal, perdem mais ainda por terem tido a imprevidência de ser optimista. Se as coisas correm bem - bem, então nesse caso toda a gente se esquece que eles acertaram, ninguém pensa mais no assunto, toda a gente sente que ganhou - e os optimistas, no máximo, empatam.

Aqui em Timor-Leste, as pessoas dão-se ao luxo de estar optimistas, dos yuppies engravatados das embaixadas aos hippies desgrenhados das ONG, todos me dizem que "Timor-Leste não está nem sequer perto de ser um Estado falhado". Acima de tudo, são os próprios timorenses de todos os tipos, do Governo à oposição e da universidade ao campo, que nos fazem pensar que Timor-Leste esta bastante melhor do que simplesmente não ser um Estado falhado.

A cada momento, contudo, a gente dá por nós a pensar: como é que explico isto em Portugal? É esta a perversidade da relação bipolar que os portugueses têm com Timor; as más notícias são aceites à partida e as boas parece que têm de se provar constantemente. Façamos então todas as reservas - sim, o desemprego é muito alto, principalmente entre os jovens, o que é perigoso; talvez esta calma dominante esconda uma violência latente à espera de uma oportunidade; a estrutura de ensino é voluntariosa mas incipiente, e a precisar de mais ambição - para dizer que há de facto uma calma dominante a partir do momento em que os veteranos da resistência ou as suas viúvas passaram a receber modestas mas justíssimas pensões; que o Orçamento do Estado, de défice zero, aumentou seis vezes nos últimos anos; que a própria economia cresceu doze por cento, claro que a partir de uma base baixíssima; que o Governo e a oposição têm os seus defeitos mas, enfim, que aqui há um governo e uma oposição que desempenham os respectivos papéis. Reparem: já ninguém aqui se pergunta se Timor-Leste é viável; o que as pessoas aqui se perguntam, dando respostas diferentes, é qual é a forma mais interessante de Timor-Leste ser viável.

A sobrecarga informativa que levo de uma semana em Timor-Leste, com viagens de Díli ao enclave de Oecussi-Ambeno, e de Díli a Baucau e ao monte Venilale, é impossível de resumir nas duas crónicas que tenho esta semana. O que se aprende aqui leva tempo a sedimentar, e pede talvez explicações mais longas e narrações mais detalhadas noutro texto.

Mas no culminar desta semana, vejo milhares de pessoas festejar nas ruas. Os timorenses têm um justificado orgulho na sua diversidade cultural, nas suas 36 línguas, nos grupos dos vários distritos que representam os rituais deste país pequeno - mas não tão pequeno quanto se imagina aí em Portugal. Têm também orgulho no que fizeram durante a resistência e, com grande elevação, têm conseguido fechar o ciclo às coisas de que sabem não poder orgulhar-se. Outros tentam fazer o mesmo; até a estrela pop indonésia, que vem abrilhantar a festa, aprendeu a cantar em tétum e português, e dá os parabéns pela libertação com um "Viva Timor-Leste".

A questão é mesmo onde estão os portugueses; souberam angustiar-se e sofrer com Timor-Leste. Mas parece que não sabem o que fazer agora.

Rui Tavares
Historiador. Deputado eleito para o Parlamento Europeu pelo Bloco de Esquerda (http://www.ruitavares.net/)

PÚBLICO - 31 Agosto 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

Décimo Aniversário do Referendo de 30 de Agosto

Os timorenses iletrados do Timor profundo orgulham-se de terem expulso o Exército indonésio com um simples prego e uma folha de papel (alusão ao facto de terem utilizado um prego para furar o quadrado do logotipo do CNRT nos boletins do voto, em 30 de Agosto de 1999, para assinalar a sua opção política).

Referendo à la Mari

Daqui a menos de uma hora comemora-se o décimo aniversário da libertação de Timor, dia em que os timorenses foram chamados a pronunciar-se em Referendo promovido pelas Nações Unidas sobre o seu futuro: independência ou uma autonomia dentro da Indonésia.

Hoje, 29/8, quiça para comemorar (também?!) o décimo aniversário do Referendo libertador da opressão e ocupação indonésia, Mari Alkatiri dá uma entrevista a Francisco Pedro, difundida pelo Sapo Notícias (29/8/2009), em que defende um 'referendo' para auscultar a opinião dos timorenses sobre se querem ou não 'eleições antecipadas'. Cá para mim, ou Alkatiri está tão desesperado, tal qual uma criança que perdeu o seu brinquedo preferido, deixando de ter a noção de razoabilidade política e não sabe o que diz, ou Alkatiri está apenas a entreter os seus fiéis seguidores, a fazer de conta que ainda lidera o seu moribundo grupo maputano, preparando o terreno para as eleições internas da Fretilin que já se avizinham a passos largos em 2010, continuando a enganar os ceguinhos maputanos para ser novamente reeleito com o 'sovaco no ar', empestando o ambiente com o catinga, tornando uma vez mais o ar político irrespirável como há três anos.

Quando o jornalista pretende saber os motivos do porquê da proposta sua das 'eleições antecipadas', Alkatiri responde o seguinte:

«Lancei um repto para um referendo para saber se a maioria das pessoas quer ou não eleições antecipadas. Consultar as pessoas para evitar que se cansem e achem que podem descer às ruas e derrubar o governo. Há um problema de legitimidade: as pessoas que estão no poder são quem esteve por trás da crise de 2006, quem entendeu começar com a violência e dividiu a polícia e as forcas armadas. Foi um golpe semi-constitucional.»

Acham isto lucidez?!

José Ramos-Horta

O Presidente da República de Timor sabe que a Justiça e a História nem sempre caminham lado a lado. Sabe ainda que é perigoso reabrir feridas como a que a ocupação indonésia deixou em Timor. Por isso, Ramos-Horta insurge-se contra os que querem julgar os indonésios. Porque tem a certeza de que a paz é o capital mais precioso para o futuro do seu país.

Público (29 Agosto 2009)

Os timorenses não estão interessados na justiça face à Indonésia, diz Ramos-Horta

Presidente de Timor-Leste afirma que os indonésios é que eventualmente virão a julgar os crimes contra os direitos humanos durante o regime de Suharto.

O Presidente da República, José Ramos-Horta, manifestou-se ontem ressentido com um comunicado da Amnistia Internacional a solicitar que o Conselho de Segurança das Nações Unidas estabeleça um Tribunal Criminal com jurisdição sobre as violações cometidas por altura do referendo em que a população de Timor-Leste optou pela independência.

"Na devida altura, os indonésios, com a sua própria agenda, julgarão eventualmente os que são responsáveis por crimes", disse o chefe de Estado, citado pela Radio Australia. Na linha do que muitas vezes já afirmou, Ramos-Horta declarou não apoiar nenhuma investigação internacional sobre o que se passou no seu país.

"Os indonésios fizeram um tremendo progresso nos últimos dez anos, afastando-se da ditadura e da impunidade, para uma democracia mais robusta", disse ainda o Presidente, citado desta vez por outro órgão australiano, a televisão ABC.

"Se fossem comigo por todo o país, como tenho feito durante tantos, tantos meses, ao encontro das pessoas de pé descalço, milhares delas, nem uma só falou de se julgar os indonésios", insistiu Ramos-Horta.

"Tudo o que me perguntam, a toda a hora, é quando é que vão ter electricidade, quando é que vão ter uma rede telefónica", afirmou o Presidente. Segundo o governante, existe apenas um pequeno número de activistas dos direitos humanos que continua a pedir um tribunal internacional para as atrocidades que foram cometidas.

Dentro do espírito de boa vizinhança entre Jacarta e Díli, o ministro indonésio dos Negócios Estrangeiros, Hassan Wirajuda, é aguardado em Timor-Leste a 30 de Agosto, para as cerimónias do décimo aniversário do Referendo.

PÚBLICO (Sábado 29 Agosto 2009)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O quê? Não ouvi bem.

«Só como cerejas quando a minha empregada tira os caroços por mim. E uvas sem grainhas.»

Carolina Patrocínio,
Mandatária da Juventude do PS
(CM, 15.08.2009)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Visita da delegação do PN a Portugal

Há vícios instalados na embaixada timorense de Lisboa, que persistem mesmo com a mudança de embaixador, que devem urgentemente ser erradicados para melhor servir o país e os timorenses radicados em Portugal.

Mais uma vez os serviços da embaixada mostraram a sua incompetência ao não preparar o terreno para a visita (de 24/07 a 14/08) da delegação parlamentar a Portugal, liderada pelo próprio Vice-Presidente do Parlamento Nacional, Vicente Guterres, para estudar o funcionamento dos municípios portugueses a fim de encontrar o melhor modelo para o poder local a adoptar em Timor. Antes da vinda da delegação, o Parlamento Nacional enviou ao Ministério dos Negócios Estrangeiros um memorando sobre os contactos que os deputados pretendiam efectuar em Portugal: audiência com o Presidente da Assembleia da República, visita de trabalho à Câmara Municipal de Torres Novas e à Presidência do Governo Regional dos Açores, entre outros. Seguindo o protocolo, o MNE deve informar a Embaixada de Lisboa da vinda dos parlamentares e os procedimentos a efectuar. Mas, chegada a delegação nenhum contacto solicitado fora realizado pelos serviços da embaixada, nem dispôs um motorista para os transportar nas suas deslocações. A própria delegação fez os contactos anteriomente solicitados ao MNE e teve de contratar o seu próprio motorista para conduzir a viatura da Embaixada.

Ainda neste período de visita dos parlamentares, um diplomata teve a ousadia de convocar o próprio Vice-Presidente do Parlamento Nacional para a recepção ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, invertendo (por ignorância?) a hierarquia do Estado, porque o Governo é subordinado ao Parlamento Nacional e o Ministro dos Negócios Estrangeiros está hierarquicamente abaixo do Vice-Presidente do PN.

Quando uma embaixada que não serve os interesses dos seus cidadãos imigrantes em Portugal, não recebe condignamente representantes de órgãos de soberania em visita a Portugal, nem consegue contratar um motorista, e os funcionários administrativos mandam nos diplomatas, encerra-se. Ou faz-se uma limpeza à casa.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

PNTL assume maior responsabilidade

Declaração do Porta-voz do IV Governo Constitucional,
Secretário de Estado do Conselho de Ministros

O Porta-voz do IV Governo Constitucional e Secretário de Estado do Conselho de Ministros, Ágio Pereira, anunciou que a PNTL (Polícia Nacional de Timor-Leste) tem vindo a fazer avanços significativos ao nível da capacitação e da profissionalização dos efectivos de polícia, fomentando deste modo a confiança junto das comunidades de Timor-Leste.

Os avanços são evidentes em Lautém, Oecussi-Ambeno e Manatuto, três dos treze distritos de Timor-Leste, nos quais a PNTL retomou da polícia das Nações Unidas as responsabilidades primárias de policiamento. Manatuto é o mais recente distrito em que a PNTL reassume as responsabilidades de policiamento, mais concretamente no passado dia 25 de Julho de 2009.

A transição faz parte de um esforço concentrado entre o Governo de Timor-Leste e a UNMIT com o intuito de transferir gradualmente as responsabilidades de policiamento para a Polícia Nacional de Timor-Leste. Para que tal fosse possível implementou-se uma formação coordenada visando melhorar a capacidade e o profissionalismo dos efectivos da PNTL.

Ágio Pereira afirmou: “Entrámos numa nova era de paz. A estabilização da Nação foi resultado do esforço de colaboração entre o Governo e as forças conjuntas, apoiado pelas reformas bem-sucedidas que o Governo de Xanana Gusmão implementou com vista a reconstruir as nossas forças de segurança. Encaramos as transições em termos de aceitação de responsabilidades primárias de policiamento como um passo muito significativo rumo a tornarmo-nos uma Nação autosustentável. Mais importante ainda, consideramos que estes avanços são um sinal de que a nossa Nação está a sarar as suas feridas e que a população volta a confiar nas nossas Instituições.”

O Governo de Xanana Gusmão fez da segurança nacional uma prioridade em 2008/2009, dando ênfase ao estabelecimento de condições de trabalho justas e equitativas para os agentes de polícia, implementando um sistema nacional de classificações e atribuindo aumentos salariais comensuráveis, condição que os agentes não haviam obtido desde que a Nação conquistou a sua soberania.

Os agentes receberam também formação intensiva em policiamento, com alguns agentes de topo a serem enviados para programas de liderança a nível internacional com a finalidade de aprenderem melhores práticas de policiamento. A despolitização da PNTL foi um factor essencial no sucesso das reformas.

Ágio Pereira terminou afirmando “Estamos orgulhosos dos feitos da PNTL. As nossas comunidades voltaram a confiar na sua polícia e a PNTL atingiu um novo nível de orgulho, sentido de missão e profissionalismo nas suas tarefas, respondendo ao apelo da nossa Nação e do nosso Povo para servir de forma justa e imparcial.” FIM

Díli, 31 de Julho de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Tese australiana da execução de Reinado

A Polícia Federal Australiana (AFP) defende a tese de execução de Alfredo Reinado na residência do Presidente Horta. O relatório da polícia australiana, a quem foi solicitada perícia balística pelo Ministério Público timorense, diz, de acordo com um jornal de Sydney (de maior circulação nesta cidade australiana, segundo Jorge Heitor - http://heitor-omximo.blogspot.com/), que a arma com a qual o soldado Marçal disse ter disparado contra Reinado não é a mesma que o matou, assim como o seu guarda-costa Exposto.

Não entendo esta informação do pseudo-relatório da AFP, se é que existe um relatório com este teor, e não ter sido facultado às autoridades timorenses que solicitaram a peritagem balística para ajudar a encontrar a verdade de tudo o que aconteceu em 11 de Fevereiro de 2008.

Agora, não percebo (e não entendo mesmo) como é que o blogue http://timorlorosaenacao.blogspot.com/ (TLN) - que sempre disse cobras e lagartos dos australianos - vem servir-se de porta-voz da política expansionista da Austrália. Não nos iludamos: Austrália sempre quis e continua a querer transformar Timor no seu quintal das traseiras, como está a fazer em relação à Nova Guiné Papua (independente?), Fiji, Salomão e Vanuatu. Mas, a Austrália sabe também que connosco, com os timorenses, dificilmente conseguirá os seus intentos... Mas vai desestabilizando politicamente Timor a fim de poder explorar sem resistência os nossos recursos petrolíferos do Mar de Timor, com a ajuda de alguns fretilinos maputanos e sua legião estrangeira de escribas, durante os cinquenta anos concedidos de mão-beijada pelo então Primeiro-ministro Mari Alkatiri (2002).

A propósito do artigo de Jorge Heitor, republicado no blogue TLN (2/08/2009), sobre a hipotética execução de Reinado nas instalações da residência do PR Horta, um anónimo deixou um comentário na caixa de comentário.

«Anónimo disse...

As autoridades timorenses pediram a Policia Federal Australiana (AFP) para fazerem um teste de balistica, por falta de recursos e facilidades em Timor, mas nao contentes com o simples pedido, a AFP achou que tinha que oferecer tambem teses especulativas sobre a POSSIBILIDADE de politicos terem feito uma cilada a Reinado.

Ate podiam ter sido extra-terrestes de marte se isso convencesse os timorenses a causarem de novo instabilidade que a AFP ficaria contente.

Esta e' que e' hein!!

Mas quais sao os interesses do governo Australiano em Timor? Eles estao interessados num Timor estavel e prospero? Claro que nao!!

E quando e' que as autoridades Australianas se apercebem que Timor ja nao descamba em instabilidade so porque ales assim o querem?

E desde quando e' que o TLN passou a acreditar nas autoridades Australianas a ponto de agora ate darem relevo e destaque as suas teorias. Teorias sim porque nao passam de teorias e especulacoes. Isso e' que foi uma grande reviravolta de fe por parte do TLN. Ou sera so conveniencia? Hehehehe

Gostaria de saber o que o Dr Haneef pensa sobre a AFP visto que eles ate fabricaram 'evidencias' para tentar incrimina-lo nos actos terroristas em Londres. O que valeu ao Dr Haneef foi que a sociedade civil Australiana nao vai nas suas cantigas nem mesmo da sua Policia Federal e depois de uma investigacao interna a AFP foi forcada a liberta-lo porque as 'provas' que eles tinham contra o homem eram fabricadas.

Deixem os tribunais timorenses fazerem o seu trabalho e chega com as interferencias externas.

Timor ja nao se vai descambar em violencia so para beneficiar os interesses Australianos sobre o petroleo no Mar de Timor.

Ponto Final!!

4 de Agosto de 2009 15:39»
in Caixa de comentário do TLN

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Viriato da Cruz: NAMORO

Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à Avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficámos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"- Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Poema lindíssimo do poeta angolano Viriato da Cruz, musicado e cantado por Sérgio Godinho, 'glosado' no texto de Ferreira Fernandes sobre o NÃO de Joana Amaral Dias ao convite do PS para integrar a lista de deputados nas próximas eleições legislativas de 27 de Setembro.

Campanha com boa música

Joana Amaral Dias nasceu em Luanda, de onde escrevo. Acabo de saber que o PS lhe mandou uma carta em papel perfumado. Com letra bonita, ele disse que ela tinha um sorriso luminoso tão triste e gaiato. Mas a essa carta ela disse que não. O PS tipografou um cartão: Por ti sofre o meu coração. Nos cantos pôs sim e não. E ela o canto do não dobrou. O PS mandou-lhe um recado pela Zefa do Sete, pedindo, rogando. Mas ela disse que não. O PS pediu a Avó Chica, quimbanda de fama, que fizesse um feitiço. E o feitiço falhou. O PS prometeu-lhe um colar, deu doces. E ela disse que não...

Na verdade, eu não sei bem se o pedido e a insistência do PS foram mesmo assim, mas foi assim que Joana Amaral Dias os badalou. Quando o PS, triste, foi ao baile do São Janurio [Januário?], ela lá estava num canto a rir, contando o seu caso às moças mais lindas do Bairro Operário. Não sei, repito, se tudo se passou assim. Mas gosto de uma campanha eleitoral cantada por Sérgio Godinho e, sobreuto, com letra do luandense Viriato da Cruz (O Namoro, também conhecido como Aí, Benjamim). E outra coisa: no fim (noutra campanha?), ela disse que sim.

Ferreira Fernandes
DN - Diário de Notícias, 3 Agosto 2009

Gabo

Os escritores dividem-se (imaginado que aceitem ser assim divididos...) em dois grupos: o mais reduzido, daqueles que foram capazes de rasgar à literatura novos caminhos, o mais numeroso, o dos que vão atrás e se servem desses caminhos para a sua própria viagem. É assim desde o princípio do planeta e a (legítima?) vaidade dos autores nada pode contra as claridades da evidência. Gabriel García Márques usou o seu engenho para abrir e consolidar a estrada do depois mal chamado "realismo mágico" por onde logo avançaram multidões de seguidores e, como sempre acontece, os detractores de turno. O primeiro livro seu que me veio às mãos foi Cem Anos de Solidão e o choque que me causou foi tal que tive de parar de ler ao fim de 50 páginas. Necessitava de pôr alguma ordem na cabeça, alguma disciplina no coração, e, sobretudo, aprender a manejar a bússola com que tinha a esperança de me orientar nas veredas do mundo novo que se apresentava aos meus olhos. Na minha vida de leitor, foram pouquíssimas as ocasiões em que uma experiência como esta se produziu. Se a palavra traumatismo pudesse ter um significado positivo, de bom grado a aplicaria ao caso. Mas, já que foi escrita, aí a deixo ficar. Espero que se entenda.

José Saramago
http://caderno.josesaramago.org

DN-Diário de Notícias, 3 Agosto 2009

domingo, 2 de agosto de 2009

Dando voz aos comentaristas (6)

Não resisto de puxar para a página principal a réplica de um anónimo relativa ao comentário de Malai Azul 2 (30 de Julho, 17:22) sobre à postagem «Dando voz aos comentaristas (5)».

Que tristeza? Grande triste são todas as tentativas de desestabilização, mentiras e calúnias que fazem parte da propaganda fretilinista propalada pelos blogs como o TLN e o Timor Online.

O Malai Azul2 devia era ter vergonha na cara antes de fazer comentários destes.

Mas do sucessor do Malai Azul (1) não podíamos esperar outra coisa. Claro que não!!

Pois continuem com as vossas caboiadas de tentar derrubar o governo da AMP que Timor e os timorenses continuam a olhar para a frente, para um futuro sentido e visivelmente bem mais próspero e estável do que aquilo que se viu do governo da Fretilin (leia-se MAlkatiri).

Nao bastou terem criado/ignorado todos os problemas que resultaram na crise de 2006, e agora ainda andam com palermices de criar mais instabilidade para derrubar o atual governo da AMP.

O vosso azar e' que os timorenses estão cagar-se para vocês e as vossas opiniões e não querem nada com as vossas marchas e sei la mais o que para derrubar Xanana Gusmao ou o seu governo. O povo gosta deste governo e quanto mais vocês atacam mais se enterram na poia.

As eleições de 2012 vão tirar-vos todas as dúvidas. Hoje a Fretilin Maputo tem 29%, uma descida de practicamente metade dos resultados de 67% em 2001, e em 2012 vão descer ainda mais.

Não acreditam? Esperem e logo verão!!!

Mari Alkatiri agora até quer fazer coligações com o CNRT... Hahahahahahahaha

1 de Agosto de 2009 12:33

sábado, 1 de agosto de 2009

O Cheque-Boi

No Brasil, há uma expressão alternativa para cheque careca. Diz-se cheque-boi porque, quando se recebe um desses papelinhos e se desconfia da cobrança pensa-se, qual bovino,"Mmmm", que é como quem diz "aqui há gato". A proposta do PS de oferecer 200 euros a cada recém-nascido não é um cheque-bebé. É um cheque-boi. Espanha, por exemplo, atribui 2500 euros e muitos países europeus superam esse valor. Estes 200 euros, que não dariam nem para fraldas, ficarão no banco até o jovem ter 18 anos (aí receberá 500 euros), como se a preocupação dos pais não fosse no pós-parto mas quando a criança atinge a maioridade. É com este bom senso que o PS prefere esse cheque à melhoria da rede pública de infantários ou um abono de família mensal de nível europeu (150 euros).

Já a banca arrecada 200 euros por cada nascimento. Anualmente, corresponde a 150 milhões. Ao fim de dezoito anos, os zeros da quantia não cabem nesta crónica. O que parecia uma política social é, afinal, um financiamento encapotado à banca. O PS defende que a proposta é um incentivo à poupança. Mas esquece-se de dizer de quem. O amealhar é dos bancos, embora a crise não lhes faça mossa. As quatro maiores instituições bancárias privadas portuguesas ganharam mais 17, 4% neste primeiro semestre do que em 2008. Quatro milhões de euros de lucros por dia. Mmmmm.

JOANA AMARAL DIAS
Correio da Manhã, 1 Agosto 2009

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Conselho de Ministros - 29 Julho 2009

Recebido via mail.

REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DE TIMOR-LESTE
IV Governo Constitucional
SECRETARIA DE ESTADO DO CONSELHO DE MINISTROS

COMUNICADO À IMPRENSA

Reunião do Conselho de Ministros de 29 de Julho de 2009

O Conselho de Ministros reuniu-se esta Quarta-feira, 29 de Julho de 2009, na Sala de Reuniões do Conselho de Ministros, no Palácio do Governo, em Díli, e aprovou:

1. Acordo Quadro entre o Governo da República Democrática de Timor-Leste e o Governo da República de África do Sul sobre Cooperação Técnica

Visando fortalecer e intensificar os laços de amizade e cooperação entre ambos os povos e países e reconhecendo a importância da cooperação técnica como uma das formas mais eficazes para se enfrentar os desafios dos países em desenvolvimento, o Conselho de Ministros aprovou este Acordo. Os Governos de Timor-Leste e de África do Sul acordaram a cooperação nas seguintes áreas que consideraram prioritárias: formação de recursos humanos (especialmente no âmbito da Função Pública e sobretudo no sistema judicial); reforma do sector da segurança; desenvolvimento de infra-estruturas; educação (particularmente educação terciária); formação de aptidões; desenvolvimento da juventude e outras áreas que possam vir a ser acordadas pelas Partes.

O Conselho de Ministros analisou também:

1. Plano de Comemorações dos 10 Anos da Consulta Popular

Na Reunião de hoje foi abordado o plano de programação da RTTL para o dia da comemoração do 30 de Agosto, dia da Consulta Popular. A par da breve apresentação que foi feita pela RTTL, os membros do Conselho de Ministros fizeram as suas sugestões contribuindo para o enriquecimento histórico da programação prevista para esse dia.

2. Apresentação sobre a Política de Telecomunicações

Os membros do Conselho de Ministros, conscientes da importância das telecomunicações para o futuro do desenvolvimento de Timor-Leste, debruçaram-se hoje sobre a sua política. Foram alvo de análise os níveis de acesso ao telefone móvel, a cobertura geográfica e o acesso dos distritos rurais a este serviço, os serviços de internet e a qualidade do serviço, transversal ao serviço de telefones e internet.

O Governo preocupa-se em poder proporcionar a todos um maior acesso a estes serviços que considera serem imprescindíveis para distribuir o desenvolvimento económico.

3. Apresentação da Política da Formação Profissional

A Política da Formação Profissional, apresentada hoje pela Secretaria de Estado da Formação Profissional e Emprego, relaciona uma visão para um sistema de formação de Timor-Leste que responda ao desenvolvimento das competências que contribuem para o emprego. De acordo com o Programa do Governo, esta política é um conjunto de princípios orientadores que conduzem ao investimento no desenvolvimento das competências das mulheres e homens timorenses. O Governo entende que estas podem contribuir substancialmente para a criação de postos de trabalho e gerar emprego.

Os objectivos da Política da Formação Profissional são: o estabelecimento das prioridades das competências necessárias para um crescimento consistente; a melhoria da qualidade e relevância das entidades de formação e da forma de ministrar essa formação; a promoção de formação de boa qualidade nos locais de trabalho; a promoção do emprego e formas de vida sustentáveis através do desenvolvimento de competências e também a ajuda a grupos vulneráveis a participar em trabalhos essenciais, no ensino integrado e em programas que lhes permita a entrada no mercado de trabalho e emprego por conta própria.

4. Apresentação da Estratégia Nacional para o Emprego

A Estratégia Nacional para o Emprego (ENE), que a Secretaria de Estado da Formação Profissional e Emprego apresentou aos membros do Conselho de Ministros, tem como principal objectivo dar resposta à necessidade de melhoria da empregabilidade da juventude e dos grupos mais desfavorecidos. A melhoria da empregabilidade e do emprego deve ser baseada também na melhoria dos recursos humanos, enquadrando-se assim nas prioridades definidas pelo IV Governo Constitucional.

A ENE foi desenvolvida conjuntamente com a Política Nacional para o Sistema de Formação Profissional em Timor-Leste e visa a criação de emprego e a redução da pobreza. Esta Estratégia identifica as áreas e sectores que poderão ser essenciais para iniciar o crescimento económico e criar emprego: agricultura, zonas rurais, projectos de infra-estruturas e obras públicas, habitação, indústria transformadora, comércio interno, turismo, emprego emigrante e sector do petróleo, gás e minerais.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Dando voz aos comentaristas (5)

Puxei para a página principal a opinião de um anónimo na caixa de comentário da postagem anterior «Frustrações alkatiristas». Apenas dei um título ao texto e coloquei os acentos às palavras e o cedilha.

Delírio alkatirista

As frustrações já há muito que passaram a desespero e até loucura.

Ficou noticiado no 'Timor News Line' que Alkatiri terá dito durante mais um dos seus episódios de delírio/tentativa de enganar a quem quer ser enganado, que Xanana Gusmão iria reingressar na Fretilin e voltar a ser da Fretilin como nos tempos idos da resistência.

Algum tempo depois Alkatiri anuncia que a Fretilin está pronta a coligar-se com o CNRT para governar Timor, como se pode ler no blog Forum Haksesuk.

Há os que dizem que estas manobras são uma tentativa demasiado infantil (ele pensa que o povo ainda e' ignorante) de tentar semear as sementes da desconfiança e discórdia entre os partidos da AMP.

Outros também dizem que e' sem margens para dúvida uma demonstração, ainda que não intencional, de admissão de derrota antecipada por parte de Mari Alkatiri.

Mari Alkatiri e o seu grupinho de seguidores ja tentou tudo e mais alguma coisa sem qualquer sucesso para aliciar o povo a juntar-se a eles e derrubar Xanana e o governo da AMP.

Ja viram que não estão em condições para fazer frente a Xanana Gusmão e os partidos da AMP, e que cada vez mais vão perdendo a confianca do povo.

"Não os consegues vencer junta-te a eles" parece ser a nova linha da debilitada Fretilin maputo.

Se e' uma estratégia para criar desconfiança e divisão entre a AMP então o Alkatiri e' mesmo ingénuo ao pensar que hoje em dia alguém jamais poderia cair numa dessas.

Se e' uma tentativa de verdadeira aproximação mas em pé de igualdade com os partidos da AMP entao e' preciso que esses partidos assim o queiram mas parece-me que isso está muito longe de ser o caso.

Agora as suas declarações ja demonstram mais claramente o grau de desespero que lhes aflige e o que eles estão preparados a fazer/dizer para ganhar alguma migalha de poder.

Só resta agora Alkatiri oferecer-se para de joelhos lamber as botas de Xanana Gusmão.

Ao que o homemzinho chegou...

29 de Julho de 2009 14:52

terça-feira, 28 de julho de 2009

Frustrações alkatirianas

Alkatiri e os seus compagnons de la route estavam muito esperançados que o PR Horta lhes desse uma ajudinha para criar instabilidade política com críticas infundadas à acção governativa do Primeiro-ministro Xanana, a fim de encontrar pretensas razões objectivas para dissolver o Parlamento, possibilitando assim a tão desejada realização das “eleições antecipadas” para apear Xanana do poder e fazer sentar Alkatiri na cadeira de primeiro-ministro – que já foi sua durante quatro anos e um mês. Esta expectativa alkatiriana cresceu com a nomeação de Ana Pessoa – membro do Comité Central da Fretilin e pertencente ao círculo restrito da entourage do chefe Alkatiri – para Procuradora Geral da República. Mas, o tiro saiu pela culatra e ficaram chamuscados com a pólvora, turvando-lhes a visão… e já não dizem “coisa com coisa”!

Nem Horta lhes fez a vontade, nem a Ana Pessoa (penso eu, até se ver), que está a tornar-se magistrada, metendo a sua condição de política na gaveta.

De Ana Pessoa esperavam, enquanto Procuradora Geral da República, que desse seguimento às acusações a Primeiro-ministro Xanana de corrupção por Bano, Teixeira e Alkatiri; e que retirasse a acusação de conspiração contra a segurança do Estado a Angelita Pires e quiçá também a Salsinha! Porque a verdade está para chegar, via Angelita e Salsinha. No tribunal. E não querem que se chegue à verdade. E a verdade é que estavam por detrás do Reinado para decapitar o Estado timorense, para serem reis e senhores de Timor. Porque se tivesse tido êxito o 11 de Fevereiro, desaparecido o PR e PM, adivinha-se quem, aproveitando-se da situação criada, poderia apoderar-se do poder e tornar-se o todo poderoso de Timor.

Por isso, parem de carpir e deixem-se de queixumes. As vossas acusações a Presidente da República (tratando-o depreciativamente por José Manuel) de, supostamente, ter influenciado ou mesmo pressionado Gastão Salsinha para não dizer a verdade à Justiça são areia para os olhos daqueles que desconhecem a aliança com Alfredo Reinado, pouco antes do atentado. E o videozinho de Reinado a acusar Xanana, produzido a mando de quem toda a gente sabe, vem testemunhar este casamento, de conveniência. Aguardemos pelo final do julgamento.

terça-feira, 21 de julho de 2009

PUGILISMO: Mari Alkatiri VS Cristiano Costa

Contaram-me – quem assistiu, no aeroporto de Díli, em 2000, ao pugilato – que Mari Alkatiri e Cristiano Costa andaram à pancada por razões de diferença de opinião relativa à condução do seu partido comum - Fretilin.

Cristiano dirigiu-se a Mari e desferiu-lhe uma valente bofetada, que lhe provocou desequilíbrio, que se não tivesse sido amparado pelos seus camaradas cairia estatelado no chão cimentado da sala de espera do aeroporto. Cristiano Costa foi logo imobilizado pelos presentes. Alkatiri viu na imobilização de Cristiano oportunidade para a revanche. Mal se refez dos efeitos da bofetada, Mari – confessou mais tarde que até viu estrelas tal era a força do impacto do ‘soco’ (mas, Cristiano defende-se e diz que “não era um soco, era apenas uma bofetada, porque se lhe tivesse dado um soco teria partido a mandíbula a Alkatiri”) – desferiu um valente pontapé no baixo-ventre de Cristiano. E este, reclamando para um árbitro invisível pela “falta” cometida por Mari, gritou a pleno pulmões: “Isto não vale! Isto não vale! Isto não vale!”, enquanto tentava libertar-se do garrote de seis braços.

Bom, esta cena alimentou, durante algum tempo, conversas nos círculos políticos de Díli. E Cristiano apenas dizia: “Temos de criar factos políticos!”.

Neste momento, Mari é deputado do partido da oposição Fretilin; Cristiano vice-ministro da Economia do Governo da AMP.

Sistema de ensino ultrafacilitista

Diga-se o que se disser, se a objectividade da Escola cai por terra com ela cai também a verdadeira promoção humana dos alunos sócio-familiarmente desafortunados. As excepções alertam-nos para a regra geral em vigor e em vigor redobradamente feroz com esta Comissão Liquidatária do ME. A regra geral é o facilitismo, é a burocracia justificatória do insucesso dos alunos que impende desumana e desalentadora sobre os docentes. Sempre que a Escola se converte numa Misericórdia, ganha-se em porreirismo social, mas enfraquece-se o cerne. O cerne da escola deveria estimular à excelência, gratificar o mérito (ainda que o mérito e a excelência sejam muitas vezes um nicho pré-determinado, fechado, para privilegiados à partida, filhos das pessoas certas, dos privilegiados locais, dentro e fora do estabelecimento de ensino). A Escola fazer tudo ao seu alcance terá de ser pelo lado certo de fazer tudo ao seu alcance e não pelo lado assistencialista e misericordioso cujo efeito pode em última análise ser pernicioso. O meu avô queixava-se do caos no Ensino logo a seguir à implantação da República e que muito o penalizou. Tal caos ditou ter ele transitado no Ensino Primário, mas quase sem aulas, quase sem professor e sem quaisquer competências consolidadas as quais só muitíssimo mais tarde como autodidacta corrigiu: «Negativa a Língua Portuguesa, a História e a Matemática. Negativa também a Geografia, a Físico-Química, a Educação Visual... Feitas as contas, José, chamemos-lhe assim, teve nove negativas em 14 "cadeiras". Tem 15 anos, está no 8.º ano do ensino básico. E a escola passou-o.»
http://joshuaquim7.blogspot.com/2009/07/sistema-de-ensino-ultrafacilitista.html

terça-feira, 14 de julho de 2009

Ainda a PRIMA FOOD (2)

Mais um excerto da posição do CNRT sobre a acusação de corrupção a Xanana Gusmão feita pela Fretilin.

«Porque é que os deputados Arsénio Bano, José Teixeira e Mari Alkatiri (quando visitaram Oecusse) dirigiram acusações injustas a Xanana Gusmão, desta maneira?

Porque é que acusaram injustamente o nosso Irmão-mais-Velho, apoiando-se em informações [falsas] veiculadas pela média da Austrália, depois de o Tribunal de Recursos declarar que a reclamação [a queixa] da Fretilin sobre ANP - Autoridade Nacional do Petróleo não tem base legal nem provimento?

Por isso, concluímos que há uma grande conspiração de uma rede montada dentro de Timor que tem como objectivo pretender rebaixar a dignidade do grande Herói da Luta da Libertação, nosso irmão mais velho Xanana Gusmão.

Decidem atacar Xanana como pessoa, querendo atingir a sua honra e credibilidade pessoal, esquecendo-se que Xanana se sacrificou tanto, entregando inteiramente a sua vida pela causa da Independência desta nossa Terra para, hoje em dia, poderem usufruir da Liberdade conquistada e cacarejarem neste nosso Parlamento.

Esta conspiração faz parte de uma trama bem urdida para desestabilizar Timor-Leste, para depois justificar que Timor não é um país estável, por isso o pipeline do Greater Sunrise não pode ser canalizado para Timor-Leste.»

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Atentado de 11/02: começo do julgamento

Timor-Leste: Suspeitos do ataque a Ramos-Horta começam esta segunda-feira a ser julgados

Díli – Começou esta segunda-feira em Díli, o julgamento dos suspeitos da tentativa de assassinato do Presidente timorense, José Ramos-Horta, e do primeiro-ministro Xanana Gusmão, em Fevereiro de 2008.

Entre os arguidos, encontram-se essencialmente antigos soldados rebeldes e Angelita Pires, companheira de Alfredo Reinado, o oficial expulso das Forças Armadas timorenses e alegado líder do duplo atentado, no qual perdeu a vida. Angelita Pires, que tem dupla nacionalidade, timorense e australiana, é a única civil entre os 28 réus deste processo, que se arriscam a receber até 20 anos de cadeia por «tentativa de assassínio». A companheira de Alfredo Reinaldo é acusada de o ter incitado a procurar matar tanto o chefe do Estado como o primeiro-ministro Xanana Gusmão e arrisca-se por isso a uma pena de três anos, como cúmplice. «Vou bater-me pela memória de Alfredo Reinado. Vou exigir justiça», declarou Angelita Pires à entrada do tribunal.

No dia 11 de Fevereiro de 2008, Alfredo Reinado foi a casa de Ramos-Horta tendo os guardas abatido o antigo oficial das Forças Armadas timorenses. O Presidente ficou gravemente ferido, ainda em circunstâncias indefinidas, tendo sido retirado para a Austrália, onde ficou dois meses em recuperação. Nesse mesmo dia, Xanana Gusmão afirmou ter sido alvo de uma emboscada, à qual conseguiu escapar, mas existem dúvidas sobre a veracidade deste segundo incidente. Depois de ter regressado a casa, José Ramos-Horta falou com alguns dos suspeitos, entre os quais Gastão Salsinha, que assumiu a liderança da revolta depois da morte de Alfredo Reinado e que acabou por se entregar em Abril de 2008.

Os acusados foram levados em camiões desde a prisão até ao tribunal, mediante fortes medidas de segurança.

(c) PNN Portuguese News Network
Jornal Digital, 13/07/2009

domingo, 12 de julho de 2009

Catarina Furtado em Timor

RTP prepara segunda série de “Principes do Nada”

Catarina Furtado parte este domingo para Timor para gravar mais episódios da série documental "Príncipes do Nada".

Estreada em 2006, a série descreve o trabalho de voluntários portugueses e das Organizações Não Governamentais (ONG) que integram em vários pontos do Globo.

A RTP ainda não tem data de estreia prevista para os novos episódios cuja produção é assinada pela Até ao Fim do Mundo.

Jornal de Notícias (JN), 12/07/2009

Faleceu Manuel Carrascalão

Morreu o líder timorense Manuel Carrascalão

O político timorense, de 78 anos, morreu este sábado, em Díli, vítima de complicações de saúde na sequência de uma embolia cerebral. Manuel Carrascalão foi uma das principais personalidades associadas ao processo de consulta popular em 30 de Agosto 1999, que conduziu o território à independência, após 27 anos de ocupação pela Indonésia.

A morte de Manuel Carrascalão foi confirmada pela irmã, Gabriela Carrascalão. "O meu irmão morreu hoje, cerca das 14h30 em Lisboa, no hospital Guido Valadares, em Díli, rodeado de familiares e amigos", declarou à Lusa. Manuel Carrascalão estava doente há oito meses, quando sofreu uma embolia cerebral. Manuel Carrascalão fundou, ainda durante o período da ocupação indonésia, um movimento de resistência que reuniu quase todas as forças políticas timorenses que se opunham à ocupação.

Em Abril de 1999, perdeu o filho de 16 anos durante um ataque à sua casa pelas forças anti-independência. Na sua habitação estavam refugiadas dezenas de civis.

Foi uma das principais figuras associadas ao processo de consulta popular de Agosto de 1999. Mais tarde liderou o Conselho Nacional da Resistência Timorense, a coligação independentista timorense, sucedendo a Xanana Gusmão.

A morte de Manuel Carrascalão é uma "perda lamentável" para Timor-Leste, considera o primeiro-ministro da jovem nação. "Manuel Carrascalão está profundamente ligado à história de Timor, desde os tempos das administrações portuguesa e indonésia", disse Zacarias Costa.

O secretário de Estado português dos Negócios Estrangeiros evoca a "dignidade" com que o líder timorense Carrascalão reagiu à morte do filho. Sem uma intervenção tão visível quanto a dos irmãos João e Mário, era "uma figura incontornável da vida política de Timor-Leste ao longo destas últimas décadas", aponta João Gomes Cravinho.

A eurodeputada Ana Gomes, que privou com Manuel Carrascalão quando representava Portugal em Djacarta, lamentou a morte do amigo.

RTP, 11/07/2009

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Pipeline do Greater Sunrise

Petróleo do Mar de Timor: afinal quem melhor defende os interesses dos timorenses?

«Sabemos todos que há uns anos atrás a Fretilin cedeu às exigências da Austrália nas negociações sobre a delimitação da fronteira marítima, permitindo a este grande território açambarcar toda a riqueza do nosso mar. Sabemos todos também que há uns anos atrás a Fretilin “ofereceu” o pipeline do Bayu-Udan a Austrália. Agora, eles querem também entregar o pipeline do Greater Sunrise a Austrália. Nós, os timorenses, temos de abrir os olhos, temos de estar vigilantes, não podemos permitir que nos enganem continuamente.»

Mais um pequenino excerto da posição do CNRT relativa à acusação (injusta, sem qualquer suporte factual) de corrupção a Xanana feita pela Fretilin.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Ainda PRIMA FOOD (1)

Este excerto é a introdução da posição do CNRT relativa à acusação da Fretilin e da imprensa australiana (ABC) de corrupção a Xanana Gusmão, por alegadamente ter favorecido a sua filha no concurso para adjudicação de importação de arroz para fazer face à escassez deste produto, base de alimentação dos timorenses, na crise alimentar de 2008.

«Na semana passada, a média australiana acusou injustamente Sua Excelência Primeiro-ministro Xanana Gusmão, alegando que teria concedido um projecto a sua filha. Este jornal australiano praticou um “assalto político” contra a pessoa de Xanana Gusmão, sem ter a preocupação de confirmar a veracidade e a autenticidade das informações – e a seriedade da fonte – recolhidas que utilizaram para acusar injustamente o PM timorense.

O CNRT não ficou espantado com o timing destas acusações, porque este “assalto político” ocorreu depois de o Tribunal de Recursos de Timor-Leste emitir a sua decisão, rejeitando as pretensões do partido Fretilin relativa a uma sua reclamação ao tribunal para cancelar [encerrar] a instituição reguladora da riqueza do Mar de Timor – a Autoridade Nacional do Petróleo (ANP).

Com esta decisão do tribunal, a Austrália e alguns membros da Fretilin – que estiveram a trabalhar em consonância, nesta fase [das negociações], com as manobras da Austrália para canalizar o pipeline do Mar de Timor do Greater Sunrise para Darwin – perderam a oportunidade. O nosso irmão mais velho Xanana, o CNRT juntamente com toda a AMP não recuarão nem um centímetro sequer para trazer o pipeline de Greater Sunrise para Timor-Leste.

Como não conseguiram, via judicial, cancelar [encerrar] a Autoridade Nacional do Petróleo (ANP), a Fretilin i) recorre a este “assalto político”, neste Parlamento, para atacar o PM de Timor, enquanto pessoa, para rebaixar a sua dignidade; ii) provoca instabilidade e cria confusão no seio do Povo Timorense para assim poderem declarar que o pipeline só pode ser canalizado para Austrália porque Timor é instável.

Infelizmente, esta política colonial e conservadora vinda de fora armadilhou alguns timorenses da Fretilin, que caíram nesta conspiração. Deputados ou membros políticos da Fretilin e alguns jornalistas timorenses caíram dentro desta rede colonial moderna, que tem como objectivo desestabilizar Timor-Leste e provocar, por mais uma vez, sofrimento ao Povo. Porque não convém à Austrália a estabilidade de Timor, pois pode vir a perder muito; por isso, provocam conflito entre timorenses para eles poderem tirar toda a nossa riqueza do mar.

Sabemos também que alguns timorenses, neste momento, escondendo-se sob a capa da democracia e da transparência, sempre a procura de informações para facilitar à média internacional, sobretudo da Austrália, com a intenção de rebaixar a dignidade das nossas autoridades e instituições democráticas.

Fazem parte de uma grande rede de conspiração internacional para desestabilizar Timor-Leste. Já não se trata apenas de política, mas envolve também a ética e quiçá também crime organizado contra o Estado. Eles [dirigentes da Fretilin] esquecem-se de que se forem governo, no futuro, estes malfeitores hão-de tentar destruí-los, também, porque somos todos filhos de Timor.»

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Ainda PRIMA FOOD

Mais um pequeno excerto da posição do CNRT relativa à acusação da Fretilin a Xanana Gusmão de alegadamente ter favorecido sua filha no concurso para adjudicação de importação de arroz para fazer face à crise alimentar de 2008.

«Desde que a Fretilin perdeu a confiança do Povo, em 2007, para governar, os seus dirigentes empreenderam uma guerra sem quartel para derrubar o Governo AMP e o nosso irmão mais velho Xanana Gusmão, utilizando todas as formas de estratégias e truques, recorrendo inclusive a média internacional e a manobras da Austrália.

Esta política baixa e suja começa por atacar outros que não são da sua área político-ideológica, acusando-nos de autonomistas, mesmo sabendo que lutámos e votámos todos pela Independência [no Referendum de 30/08/1999], afirmando que foram eles que mais lutaram pela Independência, reclamando para si todo o património do Estado, mesmo sabendo que todo este património é fruto de trabalho e esforço de todos os Timorenses; e nem dão valor aos sacrifícios de outros – que também derramaram o seu sangue – para alcançarmos a nossa Independência, reclamando para si, também, a exclusividade de todo o protagonismo da História da Libertação. Esta sua postura demonstra arrogância e cinismo ao negar e reescrever a verdadeira História da nossa Luta pela Libertação Nacional.

Negam todas as práticas obscuras que protagonizaram desde 1975 até aos nossos dias, esquecendo que praticaram muitos erros [crimes] e lançaram uma nódoa negra nesta Terra, que nem vale a pena enumerá-los neste Parlamento.

Depois de atacar outros sem fundamento, aqueles que andaram pelo mundo fora – sem experimentar na pele e na carne fome e sede e dor – viraram-se assanhadamente contra o nosso irmão mais velho Xanana Gusmão, o bravo guerrilheiro, o Comando da Luta [da Libertação], o primeiro Presidente da República e actual Primeiro-ministro de Timor-Leste, com o objectivo último de atingir a sua honra e dignidade.

Neste Parlamento, deputados – como Arsénio Bano, Mari Alkatiri e José Teixeira e mais alguns – utilizam linguagem insidiosa e insultuosa para atacar o nosso irmão mais velho Xanana Gusmão e o Governo acusando-os de ladrões. É uma pena, pois o homem que tanto se sacrificou para conseguirmos esta nossa Independência é alvo de ataques e insultos de indivíduos cuja obra em prol da Independência não conhecemos! Isto é um insulto dirigido a todos os bravos guerreiros, é um insulto grave a nosso Irmão-mais-Velho, é um insulto a todos os que tombaram por esta Terra, e é um insulto a todos nós que nos sacrificámos, até com o risco da própria vida, para conseguir esta nossa Independência.

Estes (…) utilizam informações veiculadas pela média internacional – fornecidas por eles [pela Fretilin] – para acusar, sem fundamento, o nosso irmão mais velho Xanana Gusmão de conceder projectos [por acerto directo] a sua filha.

Ainda agora mesmo, neste Parlamento, mais uma vez, escutámos esta grave e sem fundamento acusação. Porquê?»

terça-feira, 7 de julho de 2009

Quem é quem na PRIMA FOOD

Pequeno excerto da posição do CNRT relativamente à acusação da Fretilin a Xanana Gusmão - enquanto Primeiro-ministro - de ter favorecido a filha na adjudicação de importação de arroz para fazer face à crise alimentar de 2008.

«No ano passado [2008], respondendo ao apelo do governo, algumas mulheres timorenses, incluindo algumas da Organização Popular da Mulher Timorense (OPMT), do partido Fretilin, fundaram a Associação Empresarial Mulher Timor (Dulce Alves, esposa de Óscar Lima, esposa de Júlio Alfaro, de entre outras).

Sim, é verdade, um dos seus membros é filha de Kay Rala Xanana Gusmão.

Esta empresa tem o nome de PRIMA FOOD, que tem como objectivo capacitar, estimular e desenvolver as competências necessárias das mulheres que se envolvem no desenvolvimento das áreas rurais.

Mas, no dia 1 de Setembro de 2008, a filha de Xanana, de nome Zenilda Gusmão, retira-se como membro desta empresa, enviando uma carta de renúncia ao
Conselho PRIMA FOOD, tendo recebido resposta de confirmação do seu pedido a 11 de Setembro de 2008. Assim, efectivamente, ela [a filha de Xanana] deixou de ser membro [accionista] desta empresa.

Assim sendo, quando a PRIMA FOOD requereu para se candidatar ao concurso de adjudicação para importação de arroz, Zenilda Gusmão já não era membro [accionista] desta empresa. A Presidente desta empresa é Maria Angélica Rangel, irmã mais nova de um ex-Secretário de Estado do governo da Fretilin.

PRIMA FOOD é uma das dezassete empresas timorenses convidadas e que tiveram a confiança do Governo [que passaram pelo crivo dos critérios estabelecidos] para a importação de arroz. Os resultados deste concurso saíram em Novembro de 2008, quando a filha de Xanana Gusmão já não era accionista da PRIMA FOOD.»

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Natália Carrascalão, embaixadora

Natália Carrascalão é a nova embaixadora timorense no posto diplomático importantíssimo de Lisboa. Antes de assumir este cargo, desempenhava as funções de chefe de gabinete do Presidente Ramos Horta. É substituída nestas funções por Gregório Sousa, ex-Secretário de Estado do Conselho de Ministros (dos três governos da Fretilin presididos respectivamente por Mari Alkatiri, Ramos Horta e Estanislau Silva). Um aparte: Por esta não esperava.... apenas sei que PR Horta foi eleito (2007) por votos de eleitores dos partidos da área da AMP, derrotando o candidato da Fretilin, Lu Olo.

A nova embaixadora foi durante uma ou duas legislaturas deputada do PSD português na Assembleia da República.

sábado, 27 de junho de 2009

"Eleições antecipadas": a frincha?!

A rádio australiana ABC parece ter encontrado uma frincha através da qual a Fretilin Maputo poderá meter o pé-de-cabra para forçar a realização de eleições antecipadas, oferecendo ao PR Horta argumentos “conluio, nepotismo e corrupção” (Bano dixit) para demitir o Governo presidido por Xanana Gusmão. Alegam a Fretilin Maputo e esta rádio australiana que Xanana teria favorecido uma empresa (Prima Food) – na qual sua filha seria uma das accionistas maioritárias – na adjudicação para fornecimento de arroz ao Estado!

Bano, o vice-presidente da Fretilin Maputo, terá de esclarecer muito bem a natureza dos três crimes imputados a Xanana Gusmão, enquanto Primeiro-ministro: "conluio", então quem o prejudicado na adjudicação; "nepotismo", então a alegada empresa favorecida do familiar é ou não merecedora de crédito e mérito para ganhar a adjudicação; "corrupção", então quem é o corruptor e quem é o corrompido nesta adjudicação. Uma vez decidido sobre a natureza dos crimes cometidos basta denunciar o alegado prevaricador ao Ministério Público para se proceder as investigações necessárias e apresentá-las ao tribunal para o julgamento. A PGR não se furtará de dar seguimento a queixa da Fretilin Maputo.

Com esta frincha oferecida pela referida rádio australiana, a Fretilin Maputo encontrou o argumento certo para desencadear a sua tão desejada e sempre adiada “Marcha de Paz” – para agitar e açular os seus seguidores – a fim de criar momentos de instabilidade social e política, oferecendo de bandeja aos australianos argumento para forçar a canalização do pipeline do Greater Sunrise para Darwin, privando aos timorenses milhares de empregos directos e indirectos e desenvolvimento material e humano daí decorrente, alegando ausência de segurança em Timor para técnicos e instalações petrolíferas.

Camaradas, quanto às eleições "antecipadas", aguardem por 2012!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Sonhar também é vindima

Da entrevista de Mari Alkatiri à Lusa (23/6) destacam-se quatro ideias-chave: i) inevitabilidade de eleições antecipadas (2010); ii) ida da Fretilin sozinha nestas pretensas eleições às urnas; iii) governação partilhada - mesmo detendo a maioria absoluta - com outros partidos qualquer que seja "a sua grandeza"; iv) disponibilidade de Alkatiri em integrar um governo liderado por uma outra força política.

1. Alkatiri continua a sonhar acordado com as sempre desejadas eleições antecipadas, invocando "desgovernação", "descontrolo" (em/de quê?!), "aumento de corrupção" e (pasmem-se com a bondade de Mari) a necessidade imperiosa de salvaguardar a figura de Xanana Gusmão "porque ele fez a resistência e ainda tem um papel de referência política e de referência moral em Timor-Leste".

2. É claro que a Fretilin Maputo irá às urnas sozinha, porque não vai conseguir encontrar nenhum aliado em outros partidos para uma coligação (a não ser o apoio do PPT de Jacob Xavier e/ou Kota de Manuel Tilman, seus aliados nas últimas presidenciais).

3. Mais uma mentira grossa de Mari Alkatiri ao prometer partilhar o poder / a governação com outros partidos, em caso de ganhar as eleições (mesmo com uma maioria absoluta).

4. É uma grande verdade a disponibilidade de Mari Alkatiri em integrar um excutivo de um qualquer outro partido - tal é o seu desespero por um cargozito ministerial - pois, recorde-se, chegou a namorar a pasta de petróleo do Governo AMP liderado por Xanana Gusmão.

Sócrates e uma mosca num estúdio de televisão

Se uma mosca tivesse irrompido pelos estúdios da SIC durante a entrevista a José Sócrates [com Ana Lourenço], será que o primeiro-ministro a teria despachado à pancada [como fez Obama durante uma entrevista] com um "toma lá, sacana" ou, pelo contrário, produziria uma ode à mãe natureza a louvar a diversidade dos seres vivos? Nesta altura do campeonato, eu aposto na ode. Infelizmente, como tão bem explica dr. House, as pessoas não mudam. Um lobo pode vestir a pele do cordeiro mas continua a gostar da carne. Da fama de autoritário e arrogante Sócrates já não se safa - e só mesmo com uma certa candura é que alguém pode achar que o seu principal problema é zangar-se muito e fazer cara de mau.

Eu até sou daqueles que acham que o carácter de um político é o seu mais valioso património. Mais depressa voto em alguém que entendo ter as capacidades e a personalidade certas para o desempenho do cargo de primeiro-ministro do que num qualquer programa eleitoral, por mais atinado e engenhoso que ele seja. Mas também não vale a pena exagerar na dedicação ao timoneiro. O País anda há uma semana a analisar o "novo Sócrates", com profundas reflexões sobre a queda dos decibéis, a milagrosa multiplicação da palavra "humildade" e o seu novo olhar de carneirinho mal morto. Mas mesmo que Sócrates pareça um daqueles homens cuja traição acabou de ser descoberta pela mulher e que agora está a fazer tudo para salvar o casamento, reduzir a discussão política a uma inflexão vocal é, digamos assim, um bocadinho redutor.

Quase todos os colunistas atribuíram a derrota de Scrates à crise e desvalorizaram o impacto dos sucessivos casos em que ele foi sendo envolvido. Não subscrevo tal tese. Parece-me evidente que o acumular de trapalhadas lhe provocou um enorme desgaste e que o caso Freeport foi a gota que fez transbordar o copo na cabeça de muita gente. A sua estratégia de vitimização e pontapé para o canto transformou aquilo que antes era encarado como uma qualidade (teimoso e autoritário porque convicto e persistente) num inabalável defeito (teimoso e autoritário porque arrogante e prepotente). Mais grave do que isso: Sócrates aceitou que uma suspeita pessoal fosse encarada como um ataque a todo o Governo, com vários dos seus ministros - Pedro Silva e Augusto Santos Silva à cabeça - a saírem em sua defesa de forma canina e completamente desproporcionada. A partir daí, claro, a arrogância já não era só de Sócrates - ele estendia-se a todo o Governo. E a sensação de estar apenas rodeado de
yes men acentuou-se. Como é evidente, isto é muito mais do que um problema de estilo. Isto é o coração da maneira socrática de fazer política. Mudar de cara, ainda vá. Mas de alma?

João Miguel Tavares, jornalista
(Diário de Notícias, 23/o6/2009)

sábado, 20 de junho de 2009

O delico-doce

Morangos com Açúcar

Serve o título de uma das mais longas séries juvenis da história da ficção portuguesa para ilustrar o que esta semana todos comentam. A mudança de estilo de José Sócrates. Que muitos esperam genuína mas tantos outros (sobretudo na oposição, mas também no PS quem suspeite) a atribuem ao que dizem ser o "o talento do primeiro-ministro para a sétima arte". Digno, portanto de actor.

E o recurso a esta série, por sinal da TVI, ocorre na sequência de um diálogo de sete minutos entre Sócrates e os jornalistas, à saída do debate da moção de censura. Podia ter acontecido naquela série. Tom pedagógico, paciente, disponível.

No início da semana, na comissão política do PS, os jornalistas já tinham dado pelo "doce" sabor da derrota. Falou à entrada para a reunião, decepcionado e humilde, quatro horas depois, novamente disponível: "Querem fazer perguntas? Façam favor..."

Confirmou-se ali, no Parlamento, que Sócrates quer passar essa imagem. À primeira pergunta, responde, outro jornalista interrompe para mudar de assunto. Calmo, calmíssimo: "Desculpe, deixa-me responder ao seu colega..." O assunto era o TGV. A seguir vieram os calendários eleitorais: "Eu compreendo a vossa curiosidade, mas o que posso dizer? Falarei com o Presidente. A posição do PS é conhecida..." Os erros da governação "Sr. primeiro-ministro, esclareça-me uma dúvida..." Sócrates interrompe: "Bom, se eu puder...". Mas e os erros, insistem os jornalistas: "Eu sou um político resignado comigo próprio. Acho que as medidas que tomei foram corajosas e patrióticas..." Algum erro??? "Mas querem um exemplo? Vamos ver. Vou dar. Terão notícia!" Breve silêncio "Nós deveríamos ter investido mais na cultura".

Pois! Foi mesmo por causa do orçamento da cultura que o PS viu agora o cartão amarelo.

Na série, nos Morangos com Açucar dava para esboçar um sorriso. Nem nas Produções Fictícias fariam melhor.

Um desabafo entre vários que se ouvem a socialistas: "A senhora da lavandaria onde vou já comentou comigo: 'O seu primeiro-ministro está muito doce.' Mas pareceu-me que o tom era sarcástico".

E, já agora, o que dirá Vitorino, António Vitorino, de novo coordenador para o programa de Governo do PS "Habituem-se"?!

Teresa Dias Mendes, TSF (Diário de Notícias, 20/06/2009)

O animal feroz ferido

O animal ferido


Depois das europeias e com a maioria em risco, o animal feroz é hoje um animal ferido. Basta olhar para a telenovela TGV. O projecto era fundamental para o futuro do País? Com certeza. Mas Sócrates não tenciona perturbar os portugueses nas vésperas das eleições. Depois das eleições, o novo Governo que decida. As palavras de Sócrates podem agradar à Oposição e ao Presidente da Repúbica. Podem até agradar ao próprio Sócrates, que assim acredita afastar o tema da campanha eleitoral. Tristes enganos. O gesto de Sócrates mostra apenas um político receoso, disposto a trocar as suas convicções pelas mais básicas ambições. E, ironia maior, revela também a inépcia estratégica do senhor: ao adiar o TGV para adiar um problema, Sócrates apenas o torna mais gritante. A partir de agora, votar Sócrates é votar no TGV. A campanha segue dentro de momentos.

JOÃO PEREIRA COUTINHO, colunista
do CORREIO DA MANHÃ (20/06/2009)

terça-feira, 16 de junho de 2009

"A morte de Malai Azul não é uma metáfora."

Micael Pereira, jornalista, autor do artigo «A melhor embaixadora de Xanana», publicado no último número do semanário EXPRESSO, que noticiou a "morte inesperada, em Março," de MALAI AZUL, enviou-me um mail a confirmar a morte desta personagem política nascida em Maio de 2006 na sequência dos acontecimentos político-militares de Abril/Junho - que por pouco não descambou em guerra civil - apoiando uma das partes em conflito (a Fretilin cujo Secretário-geral é Mari Alkatiri) e a diabolizar Xanana Gusmão.

A fazer fé no mail de Micael Pereira, então, Malai Azul não é um colectivo... É apenas uma única pessoa, uma senhora, que infelizmente nos deixou. Os meus pêsames.

sábado, 13 de junho de 2009

"Morte" de Malai Azul: será metáfora?

«A política de bastidores e de contra-informação em Díli [a favor da Fretilin Maputo] esmoreceu com a morte inesperada, em Março, de uma figura agitadora e apaixonada que alimentou a tese da conspiração australiana: uma portuguesa que mantinha um blogue chamado "Timor Online" e que usava o misterioso pseudónimo de Malai Azul. Era a maior - e praticamente a única - central de informação em português sobre Timor.»

Esta é a passagem do último parágrafo do artigo «A melhor embaixadora de Xanana», de Micael Pereira, publicado no semanário EXPRESSO, hoje, 13 de Junho, sobre a visita de Kirsty Sword-Gusmão a Portugal, na qual faz referência ao blogue http://timor-online.blogspot.com/ e da "morte inesperada, em Março," de Malai Azul, como motivo da não actualização do referido blogue.

Gostava de saber mais sobre este assunto!

7J - a data do atentado eleitoral contra o PS

«Se há coisa que ficou clara na derrota confrangedora do PS para baixo da barreira mítica do milhão de votos [946.318] foi que, mais do que políticas, José Sócrates tem de mudar a forma como as elege, como as comunica e a imagem do seu governo sempre que justifica. A governação para as estatísticas (na saúde, na educação, na segurança) e a governação show off (glosando medidas que valem por si, como o Magalhães) não valem em nada quando milhares perdem o emprego diariamente ou vêem as sua empresas fecharem. Sócrates devia ter dado ouvido a Cavaco e transmitido a verdade dos factos e da crise de forma clara, mandando calar os ministros que insistem em vender ilusões. O que os eleitores puniram acima de tudo nestas eleições europeias - que os portugueses continuarão a desvalorizar enquanto figuras como José Lello as considerarem "a feijões" (dixit, DN, 11 de Junho) - foi uma certa forma de fazer política. Foi a arrogância do ter sempre certezas sem admitir qualquer discussão (até na escolha de Vital [Moreira]), o quero, posso e mando sem dar ouvidos a quaisquer sugestões, a falta de humildade para arrepiar caminho da maioria dos ministros. E é por isso que boas reformas, boas decisões e opções estratégicas correm o risco de cair nestes três meses em que o Governo, já sem tempo para alterações profundas e acossado pelo aviso de 7 de Junho (7J) e pela pressão da oposição (à esquerda e à direita, com [Manuel] Alegre pelo meio), dificilmente deixará de ceder às tentações eleitoralistas.»

Filomena Martins, Directora-adjunta (DN - Diário de Notícias, 13/06/2009)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

As sondagens de treta

O PS e as empresas de sondagens foram os derrotados nestas eleições europeias. As sondagens colocavam invarialmente o PS de Sócrates como vencedor, com uma vantagem considerável, contra todas as evidências no terreno, com o único objectivo de condicionar o sentido de voto dos eleitores, convencidos de que os eleitores têm memória curta e se esquecem com facilidade da arrogância, prepotência e arbitrariedades deste Primeiro-ministro: ataque às classes profissionais (médicos, enfermeiros, professores, magistrados, polícias, militares e funcionários públicos), fecho de centros de saúde, maternidades e escolas. Sócrates devia estar convencido de que continuariam a votar nele mesmo depois de ele lhes cuspir na cara todos os dias nestes quatro anos do seu reinado. Provou-se nestas eleições que os eleitores não são masoquistas nem néscios.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Bloco de Esquerda ultrapassa PCP

O Bloco de Esquerda pode vir a eleger o seu terceiro deputado, nestas eleições. A contagem dos votos, por ora, aponta neste sentido.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Palanque do PS desmontado

Os socialistas desmontaram o palanque onde carpiram Vital e Sócrates copiosas lágrimas, cedo de mais, por volta das 22:30h, enquanto nas outras sedes de candidatura de outros partidos ainda havia enchentes de militantes para comemorar as respectivas vitórias (pois todos os partidos com assento parlamentar venceram excepto o PS de Sócrates).

Foi um gozo assistir pela televisão alguns ministros a abandonarem à pressa o hotel onde fora montado o palanque da entronização de Vital e Sócrates, como as cenas quase patéticas dos ministros Amado e Jamé que sorrateiramente se esgueiraram em direcção à rua parecendo envergonhar-se de aparecer junto de Sócrates num qualquer registo de comunicação social.

Os professores deram um empurrãozinho

O Partido Socialista perdeu 600.000 eleitores nestas europeias. Os professores contribuiram para o esvaziamento eleitoral do PS, passando de 44%, em 2004, para 26.5%. As três manifs do profs foram um empurrãozinho decisivo para a queda do "menino de ouro" e sua sinistra da deseducação.

Uma sugestão aos sindicatos: que tal uma manif em Setembro?

domingo, 7 de junho de 2009

Derrotada arrogância do PS

A arrogância e prepotência de Sócrates foram derrotadas nas urnas!

Todas as sondagens, até a véspera destas eleições, davam o PS de Sócrates como o vencedor. Davam-lhe uma percentagem que rondava os 36% para apenas conseguir nas urnas 26.6%. Há algo de errado nas sondagens. Não serão estas empresas de sondagens simples correias de transmissão do PS e de lóbis afectos a Sócrates?

PS de Sócrates sofre pesada derrota

PSD: 31.7 % (8 deputados)
PS: 26,6 % (7 deputados; 14 deputados, em 2004)
BE: 10.7% (2 deputados)
CDU: 10.7% (2 deputados)
CDS: 8.4% (2 deputados)

Nesta momento (22:30h), falta eleger 1 deputado.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Sou prof. Não voto PS

Recebido por mail.

O TEU FUTURO SÓ DEPENDE DE TI.

Para o caso de ainda teres alguma dúvida.

Assim chegará aos 700 000 funcionários públicos, que deixaram de o ser desde 1 de Janeiro de 2009 com a Lei 12-A/2008, de 27 de Fevereiro.

Sr. Primeiro Ministro

É verdade, se o PS não tivesse a maioria, o Governo nunca teria tido a coragem de insultar publicamente os funcionários públicos, de fazer tudo para colocar a população contra nós, de alterar os direitos adquiridos para a aposentação, nem de aprovar o novo regime de Vínculos Carreiras e Remunerações que acaba com as carreiras, as garantias que tínhamos e os direitos adquiridos que tínhamos , que é um insulto a quem presta tão nobre serviço à Nação.

Não tinha procedido a despedimentos, para de seguida contratar novos colegas, com quem simpatiza mais.

Não tinha criado o SIADAP desta forma, para promover e contemplar quem dá graxa aos chefes, e impedido a carreira a quase todos os funcionários. Não chega uma vida inteira para chegar ao meio da carreira em muitas situações.

Não tinha criado um sistema de escolha dos dirigentes que fazem o que lhe interessa, podendo até serem de fora do sistema, acabando com os concursos e com as oportunidades para os que são já funcionários públicos experientes e reconhecidos.

NÃO TINHA DESTRUÍDO A FUNÇÃO PUBLICA, DEIXANDO O VAZIO, POIS ATÉ NEM SABE O QUE É ESTA NOBRE FUNÇÃO DE SERVIR TODOS, INDEPENDENTE DAS RAÇAS, SITUAÇÃO SOCIAL E ASCENDÊNCIA FAMILIAR

As maiorias só favorecem os poderosos, as classes trabalhadoras que produzem riqueza saem sempre a perder. É fácil para quem tem vencimentos chorudos vir à televisão pedir para que apertemos o cinto.

Chegou o momento de ajustar contas com o PS. Se este partido tivesse menos de 1% dos votos expressos nas últimas eleições, não teria a maioria e nunca teria tido a coragem de promover todas estas enormes afrontas . Somos 700 000, o equivalente a 14% dos votos nacionais expressos. Se nas próximas eleições, que são dentro de 5 meses, grande parte dos funcionários votarem em massa em todos os partidos excepto no PS, este partido não só não terá mais a maioria mas perderá as próximas eleições e será a oportunidade soberana de devolver ao Sr. Sócrates as amêndoas amargas que ofereceu aos funcionários públicos.

Colegas, quem foi capaz de aguentar a perseguição, a desmotivação, a perda de horizontes para a sua vida, sentir que pode ser despedido a qualquer momento com os mapas anuais de pessoal, também consegue nas próximas legislativas dirigir-se à sua assembleia de voto e votar a derrota do PS.

Em Portugal há partidos para todos os gostos, quer à direita quer à esquerda do PS, é só escolher,maiorias nunca mais. Os funcionários públicos, para além de terem a capacidade de retirarem a maioria ao PS, têm a capacidade de o derrotar, basta para isso que convençam metade dos maridos ou mulheres, metade dos seus filhos maiores, metade dos seus pais e um vizinho a não votar PS, e já são mais de 1 000 000.

Os Funcionários Públicos deverão estar unidos, esta união deverá ser para continuar, e têm uma ferramenta poderosa ao seu alcance, a Internet, que nos põe em contacto permanente uns com os outros.

Façamos contas: Se esta mensagem vai ser enviada a 10 colegas. Se cada um dos colegas enviar a mais 10 dá 100. Se estes enviarem a mais 10 dá 1000. Se estes enviarem a mais 10 dá 10 000.Se estes enviarem a mais 10 dá 100 000. Se estes enviarem a mais 10 dá 1 000 000.

Assim se vê a nossa força. Não a menosprezes. Usa-a. Se não estarás cada vez pior como tens visto, sem esperares nenhuma alteração à situação que te foi criada.

Rapidamente todos os colegas e seus familiares ficarão a saber a informação que ela contém e a sua força.

O TEU FUTURO SÓ DEPENDE DE TI.

ESTÁ NAS TUAS MÃOS.

O FUTURO DE PORTUGAL DEPENDE DE TI.

Começou oficialmente a campanha eleitoral dos FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS contra o PS.

Não votes PS

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Medina Carreira: o estado da Educação

Vale a pena ler e analisar este excerto da entrevista de Medina Carreira, antigo Ministro das Finanças do PS, a Rádio Clube e Correio de Manhã, domingo, 3 de Maio, sobre a sua visão relativa a actual estado da Educação.

LC – Mas o principal factor, os salários baixos, não era o ideal.
- Mas o ideal do ponto de vista da mão-de-obra não é este que se prega aqui. Nós para termos uma mão-de-obra que ganhe bem temos de ter outra escola. Nós não podemos andar a formar analfabetos e depois dizermos para arranjarem empregos bons a esta gente. A gente tem de ir à escola.

ARF – Aumentar a escolaridade obrigatória nestas condições é uma ideia má?
- Teoricamente é uma boa medida. Como mexer na Justiça também seria uma boa medida.

LC – Mas é preciso que a escola seja boa.
- Agora mexer na escola e ficar tudo na mesma não interessa. Se os alunos estiverem lá e são tão bons os bons como são bons os maus, quer dizer, anda lá um número grande a atrapalhar o trânsito, em nome de uma coisa esquisitíssima e que eu não aceito que é a escola inclusiva. Ora, a escola é inclusiva se as pessoas estão lá para aprender. Se não estão para aprender têm de ir para outro sítio. Um estádio de futebol, põe-se lá toda a gente aos pontapés na bola. Agora, na escola só pode estar quem queira aprender. Mas isso tem de ser aferido. Nós temos todos os anos de verificar se eles aprenderam.

ARF – Têm de ter exames, não é?
- Fazer exames. Nós temos de ter programas decentes, feitos por intelectuais, por artistas, por técnicos. Nem sei quem é que os fez. São uns programas horríveis, os manuais são de fugir. E depois inverte-se tudo. Nós não podemos ter professores a ensinar bem se os alunos nem os ouvem. O senhor pode arranjar 200 mil catedráticos que não consegue ensinar esta gente. Porque eles não querem aprender. Oitenta por cento dos que estão lá não querem aprender. Bons são sempre bons. Quando nós éramos crianças também havia bons e havia maus. E havia uns médios e estes estudavam por causa dos exames.

LC – Seriam a maioria.
- Isso foi ontem, é hoje e será na próxima geração. Agora não. Temos os bons que eram bons e temos o resto. E como não há exames nunca chega a ocasião para estudar. Portanto isto é uma falsificação. O ensino em Portugal é uma intrujice. Uma intrujice cara. E depois inverte-se isto. Vamos avaliar os professores, nem sei quais são os critérios. No estado em que aquilo está parece-me uma tontice, mas não se avaliam os alunos. Isto tem pés e cabeça? Isto é de uma sociedade de gente com juízo?

ARF – Esta nossa escola é uma certa escola, que dura há anos e anos.
- É uma escolinha. Não é uma escola, é uma escolinha. É um grupo de gente que está a praticar um crime gravíssimo que vai liquidar uma geração. Se não mais. Mas a próxima geração maioritariamente está liquidada. As pessoas não aprendem a língua. Nós pensamos em português. Se a gente não sabe bem português não pensa bem. Nós não sabemos fazer contas, nós não sabemos geografia. Se perguntarem a um rapazito qualquer onde é que é Washington não faz ideia nenhuma, é capaz de dizer que é na Ásia.

LC – Acha que a geração que vai estar no mercado de trabalho daqui a dez , vinte anos vai ser pior?
- Vai ser cada vez pior. Porque está a enraizar-se esta decadência do ensino. O ensino está numa decadência profunda.

LC – E algum dia foi melhor? Nestes últimos 30 anos?
- Para os que podiam andar na escola foi muito melhor. Andavam eram poucos. Mas o problema não é esse.

LC – Estamos a falar de quando?
- Do tempo em que eu estudei. No século passado. E da minha filha, que andou na escola pública.

LC – Antes do 25 de Abril.
- Sim, muito antes.

LC – A escola era melhor antes do 25 de Abril do que é agora?
- Incomparavelmente. A diferença é que eram poucos. Eram para aí 30 por cento menos do que hoje.

LC – E preferia que fossem poucos?
- Não, não prefiro que sejam poucos. Eu prefiro é autenticidade, porque isto é uma vigarice. É que os pais dos que lá estão têm de ter a certeza de que estão a aprender. Não é serem poucos ou muitos. Não interessa nada produzir quantidade que é lixo. Nada.

LC – Mas a quantidade à partida diminui sempre a qualidade. A massificação do ensino diminui a qualidade, não acha?
- Mas não é diminuir até zero. Nós estamos a bater no chão. É diminuir um pouco. Agora isto não é nada. Um aluno sai dali e não sabe escrever. Eu ensinei muitos anos e acabei por me irritar com o ensino. Dava-lhes provas escritas e era dificílimo de entender o que escreviam. Cheias de erros, linha sim, linha não um erro, expunham pessimamente, tudo aquilo era um ver se te avias.

LC – Acha que no Ministério da Educação não sabem isso?
- O Ministério da Educação, como os outros Ministérios neste nosso regime, está ali para parecer, para apresentar uma estatísticas lá forjadas não sei como. Para vocês nas sondagens descobrirem que este Governo é um Governo muito próspero.