quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Reintrodução de língua portuguesa: uma coincidência... feliz!

«A intenção de Timor, a partir de Janeiro, é [abrir] mais quatro escolas portuguesas distribuídas pelos distritos. As escolas seriam suportadas pelo orçamento de Estado de Timor, assim como [os encargos com os] professores portugueses contratados cá em Portugal para Timor serão [também] suportados pelo OE de Timor, com a excepção da gestão, [em que] o governo timorense demonstra algum interesse em que a gestão seja feita [assegurada] pela parte portuguesa.»

Embaixadora Natália Carrascalão na entrevista à Rádio Renascença (RR), 24/09/2009 (http://www.rr.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=92&did=72029)


Há um ano, escrevi, neste blogue, um artigo de opinião - publicado a 1/04/2008 e republicado a 5/07/2008 - sobre o ensino sustentável de língua portuguesa em Timor, após a proibição do seu uso no ensino e na administração pelo ocupante indonésio (1975 a 1999). Um ano depois, felizmente, o Estado timorense encontrou o mesmo caminho para o ensino e reintrodução de língua portuguesa em Timor. A cooperação portuguesa nunca acertou no público-alvo determinante para o florescimento e multiplicação de falantes do português. O que se fez foi tentar, teimosamente, fertilizar uma em menopausa... Há sempre um pedreiro a querer fazer projectos de instalação eléctrica numa moradia!


«A língua portuguesa ainda é falada por timorenses de mais de 35 anos escolarizados no sistema educativo português, antes de Dezembro de 1975.

O objectivo, agora, é voltar a introduzir o português como língua de ensino, cultura e administração do Estado timorense, e desenvolvê-lo no território para que se torne não só o instrumento de trabalho dos timorenses, como também uma janela para o mundo e uma mais valia económica para o país. Pois, através da língua chega-se à economia de um vasto mercado de mais de 200 milhões de pessoas nos cinco continentes, que tiveram ligação histórica com Portugal.

O esforço da cooperação é louvável neste campo, mas não acertou na 'mouche'. Os professores destacados no território estão a formar docentes timorenses, logo gente adulta escolarizada no sistema educativo indonésio, logo não dominam minimamente o português, logo haverá alguma ou mesmo muita dificuldade em transmitir os conhecimentos adquiridos aos seus alunos timorenses em português. É deitar dinheiro dos contribuintes portugueses pelo cano da sanita.

Então qual a alternativa?

1. Abrir uma escola exclusivamente ministrada em língua portuguesa, começando logo no 1º ciclo (ensino primário) e gradualmente estender-se-ia ao pré-secundário e secundário (acompanhando a progressão dos alunos que começaram no primário), em cada um dos treze distritos, tendo como docentes, de preferência todos profissionalizados, recrutados em Portugal, Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde.

2. Portugal poderia recrutar, num primeiro momento [numa primeira fase], professores do 1º ciclo (ensino primário), posteriormente do 2º, 3ºciclos e do ensino secundário para cada uma das treze escolas.

3. O Estado timorense poderia abrir concurso para o recrutamento de professores para docentes brasileiros, angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos. São professores mais baratos, em termos de salário, que os portugueses. Por isso, é suportável pelo orçamento de estado timorense.

4. E recrutar-se-iam igualmente docentes timorenses, falantes de português e profissionalizados, com o mesmo salário dos restantes docentes contratados, excepto portugueses (estes naturalmente mais caros).

5. Numa mesma escola, coexistiriam docentes de várias proveniências.

6. Aos docentes estrangeiros o Estado timorense disponibilizaria alojamento adequado nos distritos onde iriam leccionar.

6. As restantes escolas da rede pública timorense continuariam a ser asseguradas por professores timorenses até se chegar a uma altura (15 anos depois) em que os alunos saídos das treze escolas propostas assegurariam por sua vez a docência nas restantes escolas referidas.

Estes são um apanhado de ideias para ajudar a fazer crescer a língua portuguesa, na terra do crocodilo.»

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Moção de censura da Fretilin ao Governo discutida e votada na próxima semana

Vai ser agendada, possivelmente, para a semana a discussão e votação da moção de censura da Fretilin ao Governo, subscrita também pela coligação Aliança Democrática-KOTA/PPT (de Manuel Tilman e Jacob Xavier).

Mas vai ser um esforço inglório para Mari Alkatiri, porque a moção não vai passar no Parlamento. Para passar é necessária uma maioria absoluta, isto é, são necessários 33 votos para conseguir passar a moção de censura: coisa impossível para Alkatiri. Ora façamos as contas: somando 21 deputados da Fretilin com 2 de AD-KOTA/PPT (subscritores da moção) mais 3 deputados do PUN da Fernanda Borges dá 26 no total. Não dá, camaradas! Só se, por absurdo, ou por ambição, ou por uma agenda qualquer a nós desconhecida, o líder de um dos partidos da coligação governamental que não o CNRT - porque o do CNRT é o próprio Xanana - der instruções aos seus deputados para votarem a favor. Aí sim, poderão ter a maioria absoluta necessária de 33 votos. Um parêntesis: já há quem se mexa, demarcando-se do PM Xanana no caso Bere!

Nesta legislatura, a distribuição dos lugares no Parlamento é a seguinte: Fretilin - 21, CNRT - 18, Coligação ASDT/PSD - 11, PD - 8, PUN - 3, AD-KOTA/PPT - 2, UNDERTIM - 2. Um total de 65 lugares.

E a coligação governamental AMP é constituída por CNRT com 18 mais a Coligação ASDT/PSD 11 deputados (distribuídos por ASDT 5 e PSD 6) mais PD com 8 deputados. Totalizam 37 lugares.

sábado, 12 de setembro de 2009

Caso Bere: Horta chantageou Xanana

Ramos Horta chantageou Xanana para mandar soltar o criminoso de guerra Martenus Bere, líder da milícia pró-autonomia que cometeu uma das maiores atrocidades em Timor, massacrando centenas de timorenses refugiados na Igreja de Suai na sequência da divulgação dos resultados do Referendo de 30/8/1999 - favoráveis à independência - pensando que estariam seguros, que os seus assassinos não se atreveriam a profanar um templo religioso.

O Presidente Horta queria a viva força mandar soltar nas comemorações de 30 de Agosto o criminoso Martenus Bere, como sinal de amizade e boa vontade à Indonésia, mas encontrou oposição do Primeiro-ministro Xanana.

Para levar avante tal medida, Ramos Horta impôs a Xanana a soltura de Bere: libertá-lo sem demora, ou Horta - enquanto Presidente da República - não iria presidir às cerimónias da comemoração do 10º aniversário do Referendo, deixando mal Xanana e o seu governo perante os convidados internacionais.

E para ter a certeza absoluta que a sua vontade de soltar Bere é concretizada pelo Governo, atrasou-se até ao limite às comemorações, comparecendo, só, depois de receber a garantia de Xanana de que a sua vontade será cumprida, dada em pleno palanque, com todos os convidados intenacionais já presentes, enquanto se aguardava a chegada do Presidente Horta para se iniciar as cerimónias.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Alkatiri vota a favor da revogação do impedimento a PR Horta

Mari Alkatiri deu instruções aos deputados da bancada da Fretilin para votarem a favor do levantamento da proibição de sair do país do Presidente da República para visita oficial ao estrangeiro, com receio da realização de eleições presidenciais, dentro de noventa dias, caso Horta cumprir a ameaça de resignação ao cargo.

Ramos-Horta chantageia Parlamento Nacional

17:00 horas (9:00 h de Portugal), de hoje, dia 9/9, é o prazo imposto pelo Presidente da República aos deputados para reconsiderarem a sua posição relativamente à proibição decretada pelo Parlamento Nacional de o Presidente viajar para o estrangeiro em visita oficial. E findo o prazo estipulado, caso o Parlamento Nacional não revogar a decisão ontem tomada em plenário, o Presidente Horta solicitará ao Parlamento Nacional a sua resignação do cargo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

De Ataúro

Belloi, Timor-Leste. - A ilha de Ataúro, última porção de Timor-Leste sob domínio português até poucos dias antes da invasão indonésia em 1975, tem os contornos de uma gota de água e talvez a área da ilha Graciosa, nos Açores. Vivem aqui cerca de nove mil pessoas, que falam tétum e uma outra língua local, nas montanhas, com vários dialectos.

Vivem aqui duas missionárias brasileiras protestantes, uma baptista que fala tétum com sotaque de Minas Gera, a outra calvinista e oriunda da Paraíba. Faço a esta uma pergunta com rasteira: como decidiu vir para aqui? A missionária, que acredita na doutrina da predestinação, não se deixa enganar: não decidu vir, diz-me, orou e Deus permitiu que ela viesse.

Uma minidelegação da Assembleia da República de Portugal, chefiada por Jaime Gama, e acompanhada pelo embaixador de Portugal em Díli, veio a Ataúro numa brevíssima visita. Eu fiz-me convidado para vir também. Eles tiveram a simpatia de me aceitar.

As águas límpidas e, em torno da ilha permitem ver os corais a poucos metros de profundidade. Do outro lado do canal, vê-se a ilha principal de Timor-Leste, onde a variedade de paisagens é quase tão grande como a diversidade linguística. Montanhas rochosas; prados de aparência alpina com cavalos semi-selvagens; densas florestas equatoriais; arrozais em socalco com búfalos pastando; manguezais com possíveis crocodilos; praias de areia branca com coqueiros. O potencial turístico é evidente; às vezes é até levemente assustador. Oxalá venham a beneficiar dele estas pessoas, cujos rostos foram outro motivo de interesse nos últimos dias: alguns parecem polinésios, muitos assemelham-se a malaios ou indonésios, outros sugerem aborígenes da Austrália ou da Papua; alguns até poderiam ser chineses da Formosa, japoneses de Okinawa, portugueses de qualquer lugar.

Quem esteve neste país em 1999 diz que já não se consegue imaginar o grau de destruição deixado pelas milícias e pelas tropas indonésias. Ainda se vão vendo edifícios queimados dessa época, tal como se vê, claramente, que este é ainda um país muito pobre. A população vai crescendo a um ritmo acelerado; não demorará muitos anos até que atinja milhão e meio e não é impossível que chegue aos dois milhões.

Nesta parte do globo, quando as coisas começam a mudar, não nos dão muito tempo para reagir. E as potências aqui no terreno, da Austrália à China, não estão propriamente a coçar a cabeça para decidir o que fazer. Entre os portugueses de cá, em funções oficiais ou privadas, sente-se alguma ansiedade por conseguir explicar Timor aos portugueses daí. Quando Timor-Leste fizer parte de ASEAN, dizem-me, será uma base permanente numa das regiões mais dinâmicas do mundo. A partir daqui pode planear-se o trabalho sistemático de recolher a migalha um tesouro diplomático que Portugal tem disperso por esta região, e que é constituído por vestígios históricos, ou por vezes comunidades vivas, de regiões luso-influenciadas ou onde vivem luso-descendentes. Acima de tudo, este pode ser um ponto de partida para conhecer bem uma região do mundo que hoje conhecemos mal, e transitar do fim colonialismo para o início do cosmopolitismo.

Rui Tavares
Historiador. Deputado eleito para o Parlamento Europeu pelo Bloco de Esquerda (www.ruitavares.net)

PÚBLICO - 2 Setembro 2009

O desepero do 'animal feroz'

"Farei tudo ao meu alcance para restaurar a confiança com os professores." (Sócrates, RTP1-1/9)

A 27 de Setembro, os prof vão lançar o 'menino de oiro' pela borda fora.

Os professores, magistrados, médicos, enfermeiros, polícias, militares e funcionários públicos e seus familiares não vão esquecer, a 27 de Setembro, o trato de polé a que foram sujeitos por esta governação socratinesca durante estes quatro anos.

Votemos à direita ou à esquerda, mas nunca no PS de Sócrates.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Perfil de Sócrates, por António Barreto

'Sócrates, o ditador'

Único senhor a bordo tem um mestre e uma inspiração. Com Guterres, o primeiro-ministro aprendeu a ambição pessoal, mas, contra ele, percebeu que a indecisão pode ser fatal, ao ponto de, com zelo, se exceder. Prefere decidir mal, mas rapidamente, do que adiar para estudar. Em Cavaco, colheu o desdém pelo seu partido. Com os dois e com a sua própria intuição autoritária, compreendeu que se pode governar sem políticos.

Onde estão os políticos socialistas ?

Aqueles que conhecemos, cujas ideias pesaram alguma coisa e que são responsáveis pelo seu passado? Uns saneados, outros afastados. Uns reformaram-se da política, outros foram encostados. Uns foram promovidos ao céu, outros mudaram de profissão. Uns foram viajar, outros ganhar dinheiro. Uns desapareceram sem deixar vestígios, outros estão empregados nas empresas que dependem do Governo. Manuel Alegre resiste, mas já não conta. Medeiros Ferreira ensina e escreve. Jaime Gama preside sem poderes. João Cravinho emigrou. Jorge Coelho está a milhas de distância e vai dizendo, sem convicção, que o socialismo ainda existe. António Vitorino, eterno desejado, exerce a sua profissão. Almeida Santos justifica tudo. Freitas do Amaral, "ofereceu-se, vendeu-se" e reformou-se! Alberto Martins apagou-se. Mário Soares ocupa-se da globalização. Carlos César limitou-se definitivamente aos Açores. João Soares espera. Helena Roseta foi à sua vida independente. Os grandes autarcas do partido estão reduzidos à insignificância. O Grupo Parlamentar parece um jardim-escola sedado. Os sindicalistas quase não existem. O actual pensamento dos socialistas resume-se a uma lengalenga pragmática, justificativa e repetitiva sobre a inevitabilidade do governo e da luta contra o défice. O ideário contemporâneo dos socialistas portugueses é mais silencioso do que a meditação budista.

Ainda por cima, Sócrates percebeu depressa que nunca o sentimento público esteve, como hoje, tão adverso e tão farto da política e dos políticos. Sem hesitar, apanhou a onda.

Desengane-se quem pensa que as gafes dos ministros incomodam Sócrates. Não mais do que picadas de mosquito. As gafes entretêm a opinião, mobilizam a imprensa, distraem a oposição e ocupam o Parlamento. Mas nada de essencial está em causa.

Os disparates de Manuel Pinho fazem rir toda a gente. As tontarias e a prestidigitação estatística de Mário Lino são pura diversão. Não se pense que a irrelevância da maior parte dos ministros, que nada têm a dizer para além dos seus assuntos técnicos, perturba o primeiro-ministro. É assim que ele os quer, como se fossem directores-gerais.

Só o problema da Universidade Independente e dos seus diplomas o incomodou realmente. Mas tratava-se, politicamente, de uma questão menor. Percebeu que as suas fragilidades podiam ser expostas e que nem tudo estava sob controlo. Mas nada de semelhante se repetirá.

O estilo de Sócrates consolida-se. Autoritário. Crispado. Despótico. Irritado. Enervado. Detesta ser contrariado. Não admite perguntas que não estavam previstas ou antes combinadas. Pretende saber, sobre as pessoas, o que há para saber. Tem os seus sermões preparados todos os dias. Só ele faz política, ajudado por uma máquina poderosa de recolha de informações, de manipulação da imprensa, de propaganda e de encenação. O verdadeiro Sócrates está presente nos novos bilhetes de identidade, nas tentativas de Augusto Santos Silva de tutelar a imprensa livre, na teimosia descabelada de Mário Lino, na concentração das polícias sob seu mando e no processo que o Ministério da Educação abriu contra um funcionário que se exprimiu em privado. O estilo de Sócrates está vivo, por inteiro, no ambiente que se vive, feito já de medo e apreensão. A austeridade administrativa e orçamental ameaça a tranquilidade de cidadãos que sentem que a sua liberdade de expressão pode ser onerosa. A imprensa sabe o que tem de pagar para aceder à informação. As empresas conhecem as iras do Governo e fazem as contas ao que têm de fazer para ter acesso aos fundos e às autorizações. Sem partido que o incomode, sem ministros politicamente competentes e sem oposição à altura, Sócrates trata de si. Rodeado de adjuntos dispostos a tudo e com a benevolência de alguns interesses económicos, Sócrates governa. Com uma maioria dócil, uma oposição desorientada e um rol de secretários de Estado zelosos, ocupa eficientemente, como nunca nas últimas décadas, a Administração Pública e os cargos dirigentes do Estado. Nomeia e saneia a bel-prazer.

Há quem diga que o vamos ter durante mais uns anos.

É possível.

Mas não é boa notícia. É sinal da impotência da oposição. De incompetência da sociedade. De fraqueza das organizações. E da falta de carinho dos portugueses pela liberdade.

António Barreto