Em nenhum lado Xanana Gusmão menciona expressamente os magistrados portugueses. A sua leitura condena o sistema judiciário em geral e em particular os tribunais, o Ministério Público e a Comissão Anti-Corrupção. Quando enviou a carta ao Parlamento, estavam em Timor perto de 30 portugueses a trabalhar na justiça, entre os quais oito juízes, cinco procuradores e sete oficiais de justiça.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Carta do Governo ao Parlamento Nacional sobre as irregularidade cometidas pela Justiça
Em nenhum lado Xanana Gusmão menciona expressamente os magistrados portugueses. A sua leitura condena o sistema judiciário em geral e em particular os tribunais, o Ministério Público e a Comissão Anti-Corrupção. Quando enviou a carta ao Parlamento, estavam em Timor perto de 30 portugueses a trabalhar na justiça, entre os quais oito juízes, cinco procuradores e sete oficiais de justiça.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Uma outra opinião do constitucionalista Pedro Bacelar de Vasconcelos
domingo, 22 de agosto de 2010
Vergonha
- Por Luís Campos e Cunha
O poder, em sentido lato, é dominado crescentemente por pessoas que não sentem nem têm vergonha.
Há muita gente com vergonha da falta de vergonha que por aí impera. A vergonha é um dissuasor de comportamentos sociais pouco éticos. A falta dela conduz ao "vale tudo", e cada um de nós fica a saber que a simples chamada de atenção pública para um problema não é suficiente. Ou seja, ficamos impotentes perante a falta de vergonha, pois não basta denunciar as situações.
Um dia, em Montargil, uma senhora pobre e de muita idade dizia-me que a sua família eram pessoas de muita vergonha. Foi-me dito há mais de um quarto de século e nunca mais ouvi tal expressão, que não conhecia mas também nunca esqueci. O que ela queria dizer é que, sendo pessoas de muita vergonha, eram pessoas honestas. É a expressão acabada da vergonha como dissuasor ético de quem vive em comunidade.
No passado recente, apenas há alguns anos, uma gafe ou apenas um pequeno escândalo eram suficientes para um ministro se demitir. Foi assim quando houve dúvidas (sublinhe-se, aliás, que não foram confirmadas) sobre um pagamento de sisa por António Vitorino. Ou quando Carlos Borrego contou uma anedota de mau gosto (e que todos já conhecíamos) sobre as pessoas que morriam no hospital de Évora. Um ministro que meteu uma cunha para a filha entrar em Medicina, logo que se soube, demitiu-se. Em todos os casos eram pessoas de muita vergonha.
Lembro-me, quando em cargos públicos, de reler os meus discursos com a ideia de que poderiam ser lidos pelos meus alunos ou colegas de Faculdade. E sempre pensar que teria vergonha se eles pensassem que eu dizia uma coisa na Faculdade e outra no Parlamento ou numa entrevista a um jornal. Eram intervenções políticas e, como tal, nunca seriam uma aula, mas nos raciocínios económicos subjacentes não podiam contradizer o que tinha aprendido e ensinava.
Pelo facto de sermos um país pequeno e com uma pequena elite, em que todos se conhecem, a vergonha, quando existe, é um dissuasor moral muito eficaz. Para toda a vida nos recordaremos de pessoas públicas envolvidas em simples casos, muitas vezes sem fundamentação, ou em casos de incumprimento de obrigações fiscais ou pequena corrupção (a grande corrupção não parece existir em Portugal, a avaliar pelo número de condenações em tribunal). Ou seja, o simples facto de todos nos conhecermos, e de estarmos condenados a ver-nos regularmente nas mais diversas ocasiões, leva a que, quando há vergonha, as pessoas em serviço público cumpram a lei e as regras da decência nas nomeações e na gestão da coisa pública. Muitos cumpriam (e continuam a cumprir) por imperativo de consciência, mas outros o faziam por simples vergonha de serem descobertos. Esta parte está a acabar.
Nesse sentido, penso que Portugal era menos corrupto há dez ou quinze anos do que é hoje em dia. Aliás, os indicadores internacionais de percepção da corrupção colocam neste momento Portugal numa situação vergonhosa. Por falta de vergonha de muitos agentes políticos.
Como se chegou aqui? Penso, mais uma vez, que é o resultado do mau funcionamento da justiça aliado a uma comunicação social sensacionalista. A falta de resposta e a morosidade por parte da justiça e da investigação é embaraçante e conduz à impunidade. Quem não tem vergonha fica sem sanção. Por outro lado, uma imprensa e uma televisão populistas e em busca desesperada de audiências fazem o resto. A população não acredita no que lê e no que ouve e, por outro lado, acusa-se e condena-se sem provas e sem direito a defesa, no tribunal da populaça.
O defunto semanário O Independente ainda começou bem, mas rapidamente acusou, julgou e puniu sem ouvir o réu. Lembro-me de o ter deixado de comprar (e ler) por volta de 1992, quando me apercebi da pulhice que estavam a fazer a um amigo. O Independente foi, em muitos casos, uma escola de mau jornalismo que, para nossa infelicidade, fez escola. Há, como é óbvio, ainda muitas excepções entre a classe dos jornalistas que, crescentemente, apenas confirmam a regra.
A acusação publicada e permanente de pessoas, com casos e com pseudocasos, leva a que as pessoas de vergonha se afastem da causa pública. É um fenómeno de selecção adversa, pois, pelos constantes vexames públicos, cada vez mais, só pode exercer cargos políticos quem não sentir vergonha. E quem não sente vergonha é porque não tem vergonha. É mau, mesmo muito mau, para a democracia e para todos nós.
Como é possível que os casos dos sobreiros, da cova da beira, do freeport, da universidade independente, da face oculta, dos contentores, dos projectos engenheirais, do bpn, da tvi-pt, dos submarinos não passem de pequenos incidentes (e por isso os escrevo com letra minúscula)? São casos que atravessam (quase) todos os partidos e nada se sabe e nada acontece. E o pouco que acontece é anos e anos tarde demais e muitas vezes envolto numa neblina que apenas confunde e nada esclarece.
A justiça e a comunicação social têm um problema sério. E nós temos um problema grave. O poder, em sentido lato, é dominado crescentemente por pessoas que não sentem nem têm vergonha. Os que ainda têm vergonha terão vida política curta, no actual estado de vivência democrática.
Luís Campos e Cunha, Professor universitário
PÚBLICO, 20 de Agosto de 2010
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Como se continuam a destruir as escolas portuguesas
Os alegados defensores da escola pública são os seus maiores inimigos. Porque não respeitam alunos e famílias.
Estamos na última semana de Julho e há pais a receber em casa cartas a dizerem-lhes que os seus filhos vão mudar de escola. A darem-lhes - teoricamente - a oportunidade de se manifestarem contra essa mudança. E as cartas que são assinadas por entidades cuja designação faz lembrar o gonçalvismo: "comissões administrativas" nomeadas para os novos mega-agrupamentos. Comissões que, formalmente, só entram em funções a 1 de Agosto - mas que já estão a assinar cartas.
Isto que se stá a passar um pouco por todo o país - desde as aldeias remotas do interior a concelhos das duas grandes áreas metropolitanas - não é incompetência e, muito menos, voluntarismo para "fazer andar as coisas mais depressa". Isto que se está a passar e está a desorganizar a vida de centenas , talvez milhares de escolas e de um número incalculável de famílias é apenas a mais recente manifestação de autoritarismo e centralismo do monstro da 5 de Outubro. Tudo porque no sistema educativo os cidadãos valem pouco e os funcionários mais papistas do que o papa - valem muito.
Tudo começou com duas ideias aparentemente boas: uma, a de que seria importante enecerrar todas as escolas com menos de 21 alunos, pois, nestas, o grau de aprendizagem é pior e as crianças não socializam; outra, a de que se poderia gerir de forma integrada a rede de ensino, associando sob a mesma direcção os vários níveis de escolaridade.
É certo que qualquer destas ideias tem problemas. O principal óbice ao puro e simples encerramento de muitas microescolas é que estas são dos últimos sinais de vida em regiões do país totalmente desertificadas e envelhecidas. Perdendo a escola, não perdem apenas a companhia dos miúdos durante o dia, por vezes também perdem os seus pais. Por lá vive-se um definhamento que pagamos caro - que pagamos, por exemplo, nas vagas de incêndios florestais que enfrentamos todos os anos.
Já a teoria de que os mega-agrupamentos podem ser mais eficientes desafia experiências recentes em países como a Finlândia ou os estados Unidos, que recomendam o regresso a escolas de "dimensão humana". Ora, de acordo com os dados oficiais, a média do número de alunos por mega-agrupamento é de 1700. Pior. muitos desses alunos estão espalhados por escolas diferentes, que perderam as suas chefias próprias e que agora foram reunidas porque, tal como fizeram com África as potências coloniais, os personagens de Kafka que habitam as Direcções Regionais de Educação pegaram na régua e no esquadro e trataram de cumprir as metas de "racionalização" definidas pelo poder central. Resultado: nos distritos de Viana do Castelo e de Aveiro ficaram no mesmo agrupamento escolas que distam 40 km entre si; no de Braga há um caso em que essa distância sobe para 60 quilómetros. Em muitos concelhos os mega-agrupamentos agrupam 20, 30, 40, 50 escolas diferentes e, pelo menos num caso, a demência foi ao ponto de juntar 63 escolas sob a mesma "comissão administrativa".
Vamos admitir, mesmo assim, que é bom eliminar todas as escolas com menos de 21 alunos e agrupar as escolas demasiadas pequenas. Se existisse apenas esse objectivo, o processo teria de decorrer exactamente ao contrário. Nunca poderia ser uma direcção regional a convocar os directores das escolas e a ordenar-lhes o que deviam fazer. Nunca poderia comunicar-lhes que agora iam "fundir-se" e que, ou se entendiam sobre a nova "comissão administrativa", ou ela decidiria por eles. Nunca poderia ignorar por completo os pais. Nunca poderia tratar as autarquias locais como parceiros menores. Nunca poderia deixar de prestar contas sobre, por exemplo, quanto dinheiro se poupa com a reestruturação e quanto se gasta, depois, em transportes escolares.
Não é só grave o atabalhoamento legal, que poderá levar pais e autarquias a desencadearem providências cautelares que tornarão ainda mais caótico o regresso às aulas. Não é só grave terem-se dissolvido arbitrariamente órgãos de gestão eleitos há poucos meses, e após um processo de envolvimento das comunidades que nem sempre foi fácil. Não é só grave reinar a opacidade, recusando-se o ministério a entregar a lista das escolas que vão fechar apesar de proclamar que serão (reparem na exactidão) 701. O que se passou e vai passar assusta porque revela, mais uma vez, um ministério que funciona de forma tão "iluminada" como autista. Um ministério para quem a realidade não passa de um empecilho à célere concretização das suas medidas esclarecidas.
Mas tudo isto podia ser bem diferente. Imaginem, por exemplo, que o ministério não tinha poder sobre as escolas, que apenas as podia fiscalizar e assegurar padrões mínimos de aquisição de conhecimentos realizando exames nacionais. Imaginem que as escolas eram responsáveis perante os seus utilizadores: os alunos, os pais, as comunidades locais, os educadores. Imaginem que tinham real autonomia e, face a um orçamento, procuravam fazer o melhor e, naturalmente, ter o maior número de alunos. Imaginem que as autarquias eram verdadeiras parceiras, mais próximas e mais responsabilizáveis do que os burocratas do ministério. Imaginem que as escolas públicas tinham liberdade para encontrarem, nas comunidades mais pequenas, a melhor forma de atender as necessidades locais e, nas comunidades grandes, para concorrerem entre si pela excelência. Imaginem que o sistema não discriminava as escolas privadas e que, se uma criança de uma família pobre quisesse ir para uma escola privada, poderia levar consigo o dinheiro que custaria ao estado a sua educação se continuasse numa escola pública.
Estranho Portugal seria esse onde os cidadãos seriam mais senhores dos seus destinos do que os burocratas iluminados. Estranho Portugal esse onde o império da cunha e da pequena aldrabice daria lugar a relações transparentes e fiscalizáveis. Estranho Portugal esse que se pareceria com Suécia, com a Dinamarca, com a Holanda. Estranho Portugal esse onde não oscilaríamos entre o dirigismo salazarista, o dirigismo leninista e o dirigismo socratista. E que belo Portugal...
O que se está a passar este ano com o fecho das pequenas escolas e com os mega-agrupamentos é Portugal deste regime no seu pior. Desta vez, ao contrário do que sucedeu com a avaliação de professores, nem sequer existe uma boa causa, há só burocracia, centralismo e autoritarismo em nome de uns centavos. Desta vez, por causa da época do ano, quase não há reacções. Mas desta vez está-se, ao mesmo tempo, a dar uma terrível machadada na única reforma recente do sistema educativo que ia na boa direcção: a que dava mais autonomia e mais responsabilidade às escola. Só que essa reforma era uma contradição nos seus próprios termos: Portugal é o país em que o "chefe" quer, pode e manda.
Felizmente nem todos amocham.
Jornalista, www.twitter.com/jmf1957
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
De Ataúro
Vivem aqui duas missionárias brasileiras protestantes, uma baptista que fala tétum com sotaque de Minas Gera, a outra calvinista e oriunda da Paraíba. Faço a esta uma pergunta com rasteira: como decidiu vir para aqui? A missionária, que acredita na doutrina da predestinação, não se deixa enganar: não decidu vir, diz-me, orou e Deus permitiu que ela viesse.
Uma minidelegação da Assembleia da República de Portugal, chefiada por Jaime Gama, e acompanhada pelo embaixador de Portugal em Díli, veio a Ataúro numa brevíssima visita. Eu fiz-me convidado para vir também. Eles tiveram a simpatia de me aceitar.
As águas límpidas e, em torno da ilha permitem ver os corais a poucos metros de profundidade. Do outro lado do canal, vê-se a ilha principal de Timor-Leste, onde a variedade de paisagens é quase tão grande como a diversidade linguística. Montanhas rochosas; prados de aparência alpina com cavalos semi-selvagens; densas florestas equatoriais; arrozais em socalco com búfalos pastando; manguezais com possíveis crocodilos; praias de areia branca com coqueiros. O potencial turístico é evidente; às vezes é até levemente assustador. Oxalá venham a beneficiar dele estas pessoas, cujos rostos foram outro motivo de interesse nos últimos dias: alguns parecem polinésios, muitos assemelham-se a malaios ou indonésios, outros sugerem aborígenes da Austrália ou da Papua; alguns até poderiam ser chineses da Formosa, japoneses de Okinawa, portugueses de qualquer lugar.
Quem esteve neste país em 1999 diz que já não se consegue imaginar o grau de destruição deixado pelas milícias e pelas tropas indonésias. Ainda se vão vendo edifícios queimados dessa época, tal como se vê, claramente, que este é ainda um país muito pobre. A população vai crescendo a um ritmo acelerado; não demorará muitos anos até que atinja milhão e meio e não é impossível que chegue aos dois milhões.
Nesta parte do globo, quando as coisas começam a mudar, não nos dão muito tempo para reagir. E as potências aqui no terreno, da Austrália à China, não estão propriamente a coçar a cabeça para decidir o que fazer. Entre os portugueses de cá, em funções oficiais ou privadas, sente-se alguma ansiedade por conseguir explicar Timor aos portugueses daí. Quando Timor-Leste fizer parte de ASEAN, dizem-me, será uma base permanente numa das regiões mais dinâmicas do mundo. A partir daqui pode planear-se o trabalho sistemático de recolher a migalha um tesouro diplomático que Portugal tem disperso por esta região, e que é constituído por vestígios históricos, ou por vezes comunidades vivas, de regiões luso-influenciadas ou onde vivem luso-descendentes. Acima de tudo, este pode ser um ponto de partida para conhecer bem uma região do mundo que hoje conhecemos mal, e transitar do fim colonialismo para o início do cosmopolitismo.
Rui Tavares
Historiador. Deputado eleito para o Parlamento Europeu pelo Bloco de Esquerda (www.ruitavares.net)
PÚBLICO - 2 Setembro 2009
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Num país mais do que viável
Aqui em Timor-Leste, as pessoas dão-se ao luxo de estar optimistas, dos yuppies engravatados das embaixadas aos hippies desgrenhados das ONG, todos me dizem que "Timor-Leste não está nem sequer perto de ser um Estado falhado". Acima de tudo, são os próprios timorenses de todos os tipos, do Governo à oposição e da universidade ao campo, que nos fazem pensar que Timor-Leste esta bastante melhor do que simplesmente não ser um Estado falhado.
A cada momento, contudo, a gente dá por nós a pensar: como é que explico isto em Portugal? É esta a perversidade da relação bipolar que os portugueses têm com Timor; as más notícias são aceites à partida e as boas parece que têm de se provar constantemente. Façamos então todas as reservas - sim, o desemprego é muito alto, principalmente entre os jovens, o que é perigoso; talvez esta calma dominante esconda uma violência latente à espera de uma oportunidade; a estrutura de ensino é voluntariosa mas incipiente, e a precisar de mais ambição - para dizer que há de facto uma calma dominante a partir do momento em que os veteranos da resistência ou as suas viúvas passaram a receber modestas mas justíssimas pensões; que o Orçamento do Estado, de défice zero, aumentou seis vezes nos últimos anos; que a própria economia cresceu doze por cento, claro que a partir de uma base baixíssima; que o Governo e a oposição têm os seus defeitos mas, enfim, que aqui há um governo e uma oposição que desempenham os respectivos papéis. Reparem: já ninguém aqui se pergunta se Timor-Leste é viável; o que as pessoas aqui se perguntam, dando respostas diferentes, é qual é a forma mais interessante de Timor-Leste ser viável.
A sobrecarga informativa que levo de uma semana em Timor-Leste, com viagens de Díli ao enclave de Oecussi-Ambeno, e de Díli a Baucau e ao monte Venilale, é impossível de resumir nas duas crónicas que tenho esta semana. O que se aprende aqui leva tempo a sedimentar, e pede talvez explicações mais longas e narrações mais detalhadas noutro texto.
Mas no culminar desta semana, vejo milhares de pessoas festejar nas ruas. Os timorenses têm um justificado orgulho na sua diversidade cultural, nas suas 36 línguas, nos grupos dos vários distritos que representam os rituais deste país pequeno - mas não tão pequeno quanto se imagina aí em Portugal. Têm também orgulho no que fizeram durante a resistência e, com grande elevação, têm conseguido fechar o ciclo às coisas de que sabem não poder orgulhar-se. Outros tentam fazer o mesmo; até a estrela pop indonésia, que vem abrilhantar a festa, aprendeu a cantar em tétum e português, e dá os parabéns pela libertação com um "Viva Timor-Leste".
A questão é mesmo onde estão os portugueses; souberam angustiar-se e sofrer com Timor-Leste. Mas parece que não sabem o que fazer agora.
Rui Tavares
Historiador. Deputado eleito para o Parlamento Europeu pelo Bloco de Esquerda (http://www.ruitavares.net/)
PÚBLICO - 31 Agosto 2009
sábado, 29 de agosto de 2009
José Ramos-Horta
Público (29 Agosto 2009)
Os timorenses não estão interessados na justiça face à Indonésia, diz Ramos-Horta
O Presidente da República, José Ramos-Horta, manifestou-se ontem ressentido com um comunicado da Amnistia Internacional a solicitar que o Conselho de Segurança das Nações Unidas estabeleça um Tribunal Criminal com jurisdição sobre as violações cometidas por altura do referendo em que a população de Timor-Leste optou pela independência.
"Na devida altura, os indonésios, com a sua própria agenda, julgarão eventualmente os que são responsáveis por crimes", disse o chefe de Estado, citado pela Radio Australia. Na linha do que muitas vezes já afirmou, Ramos-Horta declarou não apoiar nenhuma investigação internacional sobre o que se passou no seu país.
"Os indonésios fizeram um tremendo progresso nos últimos dez anos, afastando-se da ditadura e da impunidade, para uma democracia mais robusta", disse ainda o Presidente, citado desta vez por outro órgão australiano, a televisão ABC.
"Se fossem comigo por todo o país, como tenho feito durante tantos, tantos meses, ao encontro das pessoas de pé descalço, milhares delas, nem uma só falou de se julgar os indonésios", insistiu Ramos-Horta.
"Tudo o que me perguntam, a toda a hora, é quando é que vão ter electricidade, quando é que vão ter uma rede telefónica", afirmou o Presidente. Segundo o governante, existe apenas um pequeno número de activistas dos direitos humanos que continua a pedir um tribunal internacional para as atrocidades que foram cometidas.
Dentro do espírito de boa vizinhança entre Jacarta e Díli, o ministro indonésio dos Negócios Estrangeiros, Hassan Wirajuda, é aguardado em Timor-Leste a 30 de Agosto, para as cerimónias do décimo aniversário do Referendo.
PÚBLICO (Sábado 29 Agosto 2009)
sábado, 24 de maio de 2008
Governo colombiano diz que fundador das FARC terá morrido
24.05.2008 - 18h57 AFP, Reuters
O líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), Manuel Marulanda Vélez, terá morrido vítima de um enfarte no passado dia 22 de Março, avançou o ministro da Defesa de Bogotá, Juan Manuel Santos, numa entrevista à revista colombiana “Semana” que é publicada amanhã.
De acordo com o ministro, que citou uma fonte não identificada nas suas declarações, Marulanda, de 80 anos, que lidera uma rebelião armada contra Bogotá desde 1964, terá morrido no mês passado, mas Juan Manuel Santos indicou que esta informação ainda está a ser analisada e investigada pelas autoridades colombianas.
Manuel Marulanda, de seu verdadeiro nome Pedro Antonio Marin, nasceu a 12 de Maio de 1928 e raramente saiu da clandestinidade.
Segundo elementos biográficos divulgados ao longo dos anos pela imprensa, o fundador das FARC será casado e terá vários filhos, incluindo uma filha, a companheira do “número dois” dos guerrilheiros Raul Reys, morto a 1 de Março último durante uma operação do Exército colombiano em território do Equador.
O Governo de Bogotá acusa Marulanda, o mais velho guerrilheiro comunista do mundo, de ter introduzido o tráfico de droga no país e de fazer vários reféns em nome da causa das FARC.
Público Online, 24-05-2008
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Greve dos trabalhadores não docentes
Trabalhadores não docentes em greve manifestam-se frente ao Ministério
21.05.2008 - 17h04 Lusa
Mais de 3.000 trabalhadores não docentes das escolas básicas e secundárias de todo o país que aderiram à greve de hoje estão a manifestar-se contra a sua situação laboral precária, à porta do Ministério da Educação em Lisboa.
Estes números são adiantados por Natália Carvalho, responsável pela área da Educação da Federação dos Sindicatos da Função Pública, que se encontra na manifestação.
Segundo a sindicalista, os números obtidos através dos agentes da polícia que se encontram no local, são reveladores dos 60 a 65 por cento de adesão à greve. Natália Carvalho afirmou também que há mais escolas a paralisar ao longo do dia.
Segundo fonte do Ministério da Educação (ME) apenas três por cento das escolas paralisaram e houve cerca de 18 por cento de faltas de trabalhadores que, segundo a mesma fonte, "não serão todas pela greve". O ME garantiu hoje estar a "trabalhar" para resolver a situação dos 1500 trabalhadores não docentes que terminam o seu contrato de trabalho em Agosto, classificando de "inesperada e inexplicável" a greve convocada pelos sindicatos da Função Pública.
A greve e a manifestação da tarde de hoje, em Lisboa, visam protestar contra a precariedade laboral e municipalização dos estabelecimentos de ensino. Natália Carvalho denunciou no Porto a existência de 12 mil trabalhadores não docentes em situação laboral precária e afirmou que cinco mil podem ser despedidos a 31 de Agosto.
A mesma responsável manifestou-se também contra a "municipalização" das escolas por considerar que a transferência para os municípios "irá agravar ainda mais a pouca estabilidade dos trabalhadores não docentes".
Público, 21-05-2008
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Timor: Eleições antecipadas em 2009?
17.04.2008, Adelino Gomes
Ramos-Horta regressa a Timor com uma prioridade: retomar o diálogo com os partidos sobre eleições antecipadas em 2009
Numa entrevista por telefone, horas antes da partida de Darwin para Díli, Ramos-Horta disse querer retomar o diálogo com os partidos no ponto em que se encontrava antes do atentado de 11 de Fevereiro - na exigência de eleições antecipadas, feita pela Fretilin.
Chega a Díli dentro de poucas horas. O que pensa dizer ao povo e aos deputados?
Primeiro vou felicitar o Presidente interino [Fernando "Lasama" de Araújo] pela serenidade com que assumiu as rédeas do país. Felicitarei também os deputados e partidos que têm sabido manter-se unidos, e em particular o povo timorense. Não houve incidentes desde a tentativa de assassinato. O povo mostrou maturidade. À medida que a investigação progride, começa a fazer sentido: liquidando Ramos-Horta e Xanana Gusmão, o país podia entrar em caos e isso servia certos interesses [Reinado e a sua amiga Angelita Pires tinham uma conta de um milhão de dólares na Austrália e elementos do Kopassus, forças especiais indonésias, estariam ligados aos atentados, disse Horta à Lusa, pouco antes].
Vai chamar Gastão Salsinha, para que se entregue?
Se ele não tiver sido apanhado ou não se tiver entregado, darei um prazo para que o faça. Não tem que o fazer a mim; pode entregar--se a um padre, aos bispos. Será transportado para a Presidência e dali o procurador-geral da República, o tribunal toma conta.
E quanto à lentidão da investigação [dos atentados]?
Não as acho tão lentas. Recebi informações do procurador-geral da República e da comissão de investigação. Dizem que o mais tardar em Julho têm o dossier completo. Estas informações tranquilizam-me. É necessário agir com prudência. Tem que se ir ao fundo e apurar todos os envolvidos directa ou indirectamente, quer internos quer externos.
Disse que queria convocar eleições antecipadas em 2009.
Nunca dei tal informação. O que disse foi que, se os partidos com assento no Parlamento concordassem com eleições antecipadas, uma exigência da Fretilin, obviamente eu não ia opor-me. Não se dissolve o Parlamento por dá cá aquela palha.
Qual é a sua medida prioritária para que o país entre na via da segurança e da prosperidade?
Vou continuar o diálogo, ouvindo as lideranças da Fretilin e da AMP [Aliança para a Maioria Parlamentar, no poder]. Pela primeira vez pus todos sentados à minha volta. A Fretilin queria um mecanismo que a envolvesse na resolução do caso de Alfredo Reinado - está resolvido; no caso dos peticionários - está em curso; no processo dos deslocados; na reforma judicial, da defesa e segurança. O único ponto controverso é a exigência de eleições antecipadas. Chegaremos a consenso.
Diz que vai retomar de imediato as funções. Sente-se física e psicologicamente preparado?
Fisicamente estou preparado, eu diria, a 80/90 por cento. Ainda tenho dores, resultado dos nervos que foram afectados e que levam tempo a sarar. Emocionalmente, só posso dizer depois de regressar.
PÚBLICO, 17/04/2008
domingo, 13 de abril de 2008
Ainda a avaliação do desempenho docente
Depois de mais de sete horas de negociações, o Ministério da Educação e os sindicatos chegaram a acordo. Maria de Lurdes Rodrigues sublinhou a "aproximação" e a plataforma sindical fala em "grande vitória dos professores". Este ano lectivo, a avaliação de desempenho terá apenas em conta quatro parâmetros, aplicados de igual forma em todas as escolas.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Os jovens e a escolha profissional
Especialista considera influência familiar decisiva na escolha profissional
A escolha da carreira profissional, uma das decisões mais importantes da vida, é condicionada por vários factores, assumindo a família uma especial importância nas questões sócio-emocionais, que são fundamentais para a tomada de decisão, defende a especialista Marisalva Fávero.
"Não basta gostar muito e ter vocação, como antigamente se pensava, é preciso reunir um conjunto de habilidades e capacidades para desempenhar uma profissão", afirmou hoje Marisalva Fávero, que preside às Jornadas Internacionais de Orientação Escolar e Profissional, a decorrer no Instituto Superior da Maia (ISMAI). A especialista salientou, ainda, que "uma pessoa pode ter vocação para ser médico, mas não ter competências emocionais e cognitivas para essa profissão".
Nestas jornadas estiveram em análise os diversos factores que interferem na escolha que os jovens têm que fazer quanto à sua carreira profissional, uma opção que tem que ser tomada pela primeira vez aos 14 anos. "Não é possível definir o peso de cada factor na escolha da profissão. Os diversos factores envolvidos vão interagindo ao longo do desenvolvimento, interferindo com a escolha em todos os níveis", frisou Marisalva Fávero, salientando, no entanto, a importância do ambiente familiar. "É de pequenino que se torce o pepino", acrescentou, defendendo que "é desde pequeno que se ajuda as pessoas a responsabilizarem-se pelas suas opções". Segundo Marisalva Fávero, existe uma "influência transgeracional na escolha da profissão", salientando o papel que é desempenhado pelos pais e pelos avós.
Esta questão foi abordada pela especialista espanhola Elvira Repetto Talavera, numa comunicação que apresentou nas jornadas sobre as implicações das competências sócio-emocionais. Na sua intervenção, defendeu que as famílias democráticas geram nos jovens competências como auto-confiança, auto-controlo, alegria, curiosidade e cooperação, enquanto as famílias autoritárias promovem temor, apreensão, infelicidade, ausência de objectivos e vulnerabilidade perante os outros.
Por outro lado, as famílias permissivas criam nos jovens competências como rebeldia, falta de confiança, impulsividade e agressividade."Com a educação emocional não se obtêm benefícios materiais, mas atinge-se maior profundidade em cada contacto humano, em cada relação interpessoal", defendeu a especialista espanhola.
A orientação profissional, apesar de ser uma actividade já com raízes em Portugal, enfrenta actualmente novos desafios, como o facto de a escolha da profissão já não ser, obrigatoriamente, uma decisão para toda a vida. "A escolha pode ser muito clara e a pessoa pode responsabilizar-se por ela, mas isso não quer dizer que não possa mudar", defendeu Marisalva Fávero, salientando que a constante mudança e novidade da vida moderna faz com que as opções profissionais tenham deixado de ser "para toda a vida".
Nesse sentido, a especialista brasileira, radicada há quase duas décadas em Portugal, defendeu que se "deve retirar (aos jovens) o peso de assumir uma escolha para toda a vida". "Actualmente, esta questão coloca-se em todas as áreas do nosso comportamento, mas no caso profissional é extremamente importante porque vai marcar e ocupar uma grande parte da nossa vida", frisou.
Para Marisalva Fávero, o mais importante é que a escolha profissional seja feita com conhecimento, alertando que "muitas vezes, escolhe-se uma profissão porque se conhece alguém com essa actividade que tem um bom carro ou viaja muito". "É preciso trabalhar a informação profissional", defendeu, salientando que o papel dos especialistas nesta área "não é tanto orientar, mas facilitar a escolha".
Lusa / Público Online, 11/04/2008
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Por um punhado de palavras e um falso oásis de empregos
Nuno Pacheco
domingo, 30 de março de 2008
Ramos-Horta: entrevista ao PÚBLICO
Com os dados de que já dispõe, pode caracterizar o que se passou [em 11 de Fevereiro, no assalto à residência de Horta, por um comando liderado pelo ex-major Alfredo Reinado]: uma tentativa de golpe de Estado?
Não, não foi uma tentativa de golpe pois as F-FDTL [Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste] são-me muito leais, assim como a PNTL [Polícia Nacional]. Ninguém no país conseguiria ter a adesão das duas forças contra a minha pessoa. E golpe para quê? Quanto a mim, quando sentisse que já não sou desejado pelo povo, muito serenamente e com alívio apresentaria a minha resignação.
Um atentado contra o presidente e o primeiro-ministro?
Foi um acto de loucura por parte do Sr. Alfredo Reinado e do Sr. Gastão Salsinha. Conheci os dois ao longo de ano e meio que lidei com eles, tentando compreendê-los, ouvindo-os, porque nem sempre a razão está toda num lado.Mas ao lidar com eles eu tinha que ter sempre em conta as sensibilidades nas F-FDTL e, portanto, não daria algum passo sem consultar, conversar, com o Brig.-Gen. Taur Matan Ruak, assim como com o então PR Xanana Gusmão. O Sr. Reinado era uma pessoa extremamente instável, facilmente influenciado, hoje diz uma coisa, amanhã já diz outra. Tinha um ego enorme, gostava muito de publicidade que mais inflaccionava a sua vaidade.
Uma tentativa de Reinado para o fazer refém?
Julgo que sim. E se seu resistisse seria abatido.
Uma tentativa de Reinado para chegar à fala consigo e que correu mal?
Não. Ele não vinha para falar comigo. Sempre que ele queria falar comigo ou eu quisesse falar com ele, marcávamos encontro fora de Díli, em Gleno, Aileu, Maubisse, etc. Não se vem falar com alguém logo desarmando os guardas, pontapeando as portas da casa, etc. Foi isto que levou um elemento das F-FDTL a disparar. Invadir a casa do Chefe de Estado, tirar as armas aos guardas, em qualquer lado do mundo teria resposta adequada. Foi o que aconteceu.
Outra situação? Qual? Porquê?
As informações apontam para o álcool, droga, a sua enorme irritação com o PM (primeiro-ministro) Xanana Gusmão por avançar rapidamente com a resolução do caso dos peticionários e pensando que afinal eu estava em sintonia com o PM para o isolar dos peticionários. Influenciado por uma tarada (em todos os sentidos) de nome Angie Pires com a qual ele estava amantizado, decidiu agir contra a minha pessoa.
Pensa que houve envolvimento de interesses ou personalidades estrangeiras nessa acção?
Acredito que sim, com dinheiro; nenhum governo vizinho ou embaixada em TL [Timor-Leste] está envolvido. Havia sim elementos privados em TL e fora que lhe davam dinheiro, fardamento, telefones, transporte, etc. As investigações continuam e aguardamos o resultado.
Já criticou a facilidade com que o grupo armado entrou em Díli, se deslocou até à sua residência e posteriormente até à residência do PM, se envolveu em tiroteio e abandonou a capital. Na situação concreta, quem devia ter interceptado o grupo? O comando australiano e a UNMIT deram-lhe já alguma explicação convincente para esse falhanço?
Nenhuma das duas instituições me deu ainda explicações. Sabem que falharam. Não as quero criticar mas é preciso que eles revejam todo o sistema. Façam mea culpa pois falharam redondamente. Apesar de que a UNPOL e as ISF tinham directivas do Estado timorense para evitar qualquer operação de força para fazer executar o mandato de captura, tinham também directivas para fazerem sentir a pressão, não perdê-lo de vista, etc.
À luz destes acontecimentos, o que teria feito de diferente na crise dos ex-peticionários e em particular no caso Reinado, se pudesse voltar atrás?
Faria exactamente o mesmo, pois não havia outra opção que não fosse o diálogo se queríamos evitar mais sangue (lembro que em Março de 2007 as forças australianas fizeram um cerco ao Sr. Reinado e seus elementos e houve um embate que resultou em mortos). Eu, enquanto Chefe de Estado, prefiro sempre uma resolução pacífica, leve o tempo que levar.
Já confirmou que Gastão Salsinha lhe escreveu dizendo que só se entregaria a si. Que resposta lhe deu?
Deposito total confiança no Presidente interino Fernando La Sama Araújo que desde a primeira hora, em parceria com o PM, está a gerir a situação com muita prudência e serenidade. Endossei para os dois a carta do Sr. Salsinha. Mas já respondi publicamente dizendo ao Sr. Salsinha que deve entregar-se com as armas às autoridades. Não há mais diálogo. Ele deve enfrentar a justiça e que faça diálogo com o PGR e os juízes.
Mesmo que recupere fisicamente considera que vai estar em condições psicológicas para retomar as funções de chefe do Estado num país que tem vivido em crises cíclicas internas desde a independência?
Regresso brevemente. Se eu concluir que não tenho condições para continuar, darei conta disso ao Parlamento e ao Povo. Mas farei tudo para continuar a servir o povo e merecer a sua confiança. Quando fui baleado e na eminência de morrer a minha única preocupação era o que iria acontecer a este povo inocente, bom. Ia ser vítima de uma onda de violência?Felizmente, graças a Deus, sobrevivi. Alguma nota positiva a registar: as instituições do Estado continuaram a funcionar; não houve pânico; não houve violência.
Adelino Gomes
O meu comentário a esta entrevista do Presidente timorense, José Ramos-Horta