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segunda-feira, 28 de julho de 2008

Acordo Ortográfico: Reforma reforça papel de referência da língua portuguesa - Seixas da Costa

São Paulo, Brasil, 28 Jul (Lusa) - A reforma ortográfica e a promoção internacional do idioma vão reforçar o papel de referência da língua portuguesa, declarou hoje o embaixador de Portugal em Brasília.

Numa artigo publicado no jornal O Globo, Francisco Seixas da Costa salientou a importância da uniformização da ortografia do idioma "de modo a poder prestigiar-se como uma língua internacional de referência".

"Provavelmente nunca chegaremos a uma língua portuguesa que seja escrita de um modo exactamente igual por todos quantos a falam de formas bem diferentes", observou, mas "o acordo ortográfico que está em curso de aplicação pode ajudar muito a evitar que a grafia da língua portuguesa se vá afastando cada vez mais".-

Intitulado "A língua do mar", o artigo realçou o facto de a Cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), realizada na semana passada em Lisboa, ter tido "o tema da língua no centro da sua agenda".

"O português é, sem sombra de dúvida, uma das quatro grandes línguas de cultura do mundo, não obstante outras poderem ter mais falantes", assinalou.

"Nessa língua se exprimem civilizações muito diferentes, da África a Timor, da América à Europa - sem contar com milhões de pessoas em diversas comunidades espalhadas pelo mundo", frisou.

Para o diplomata, "a língua portuguesa não é propriedade de nenhum país, é de quem nela se exprime, não assenta hoje - nem assentará nunca - em normas fonéticas ou sintácticas únicas, da mesma maneira que as palavras usadas pelos falantes em cada país constituem um imenso e inesgotável manancial de termos, com origens muito diversas, que só o tempo e as trocas culturais podem ajudar a serem conhecidos melhor por todos".

O embaixador português avançou que o acordo ortográfico foi assinado em 1990, com entrada em vigor a 01 de Janeiro de 1994, desde que fosse ratificado pelos membros da CPLP.

"Quero aproveitar para sublinhar uma realidade muitas vezes escamoteada: Portugal foi o primeiro país a ratificar o acordo ortográfico, logo em 1991. Se todos os restantes Estados da CPLP tivessem procedido de forma idêntica, desde 1994 que a nossa escrita seria já bastante mais próxima", observou.

Como não foi ratificada, foi necessário criar protocolos adicionais, o primeiro para eliminar a data de 1994, e o segundo para incluir Timor-Leste e para criar a possibilidade de implementação com apenas três ratificações.

"Na votação que o Parlamento português fez, há escassos meses, desse segundo protocolo, apenas três votos se expressaram contra", referiu.

"Isto prova bem - prosseguiu - que, no plano oficial, há em Portugal uma firme determinação de colocar o acordo em vigor, não obstante existirem, na sociedade civil portuguesa - como aliás, acontece em outros países, mesmo no Brasil -, vozes que o acham inadequado ou irrelevante".

Seixas da Costa destacou ainda a recente criação por parte de Portugal de um fundo para a promoção do idioma, com uma verba inicial de 30 milhões de euros e aberto à contribuição de outros países.

"Esperamos que esta medida, ligada às decisões comuns que agora saíram da Cimeira de Lisboa da CPLP, possa ajudar a dar início a um tempo novo para que o português se firme cada vez mais no mundo, como instrumento de poder e de influência de quantos o utilizam", disse.

MAN.
28 de Julho de 2008

terça-feira, 22 de julho de 2008

Acordo Ortográfico foi promulgado po Cavaco Silva

O Presidente da República, Cavaco Silva, promulgou esta segunda-feira o Acordo Ortográfico, que foi ratificado no Parlamento a 16 de Maio.

O Segundo Protocolo do Acordo Ortográfico, cuja ratificação era essencial para a entrada em vigor do acordo, contou com os votos favoráveis do PS, PSD, Bloco de Esquerda e de sete deputados do CDS-PP.

O PCP, o PEV e três deputados do CDS-PP (Paulo Portas, José Paulo Carvalho e Abel Baptista) abstiveram-se da votação, ao passo que três parlamentares do PSD (Henrique Freitas, Regina Bastos e Zita Seabra) e a socialista Matilde Sousa Franco abandonaram o hemiciclo antes da votação.

Por seu lado, o socialista Manuel Alegre, os centristas Nuno Melo e António Carlos Monteiro, bem como a ex-comunista Luísa Mesquita votaram contra.

O acordo assinado em 1990 e que prevê a possibilidade de adesão de Timor-Leste, que então não era estado soberano, foi até agora ratificado pelo Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, para além de Portugal.

JornalDiario
2008-07-21

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Ainda o Acordo Ortográfico (3)

Países lusófonos: todos diferentes, todos iguais

Viajando há dias no Metro, ouvi ao meu lado uma acesa discussão sobre o Acordo Ortográfico em que os dois interlocutores, ambos acerrimamente descontentes com o referido diploma, se insurgiam contra o que eles chamavam de “capitulação aos Brasileiros”, “falta de respeito pelos Portugueses”. E mais diziam: “Como é que podem obrigar-nos a falar brasileiro? Por que é que havemos de passar a dizer de fato em vez de de facto?” “Tu não achas que se devia fazer um referendo? Nós é que devíamos decidir!” Nestas e noutras mui doutas barbaridades ocuparam os vinte e tantos minutos que durou o percurso.

Comentemos, antes de mais, estas afirmações que, aliás, com mais erudição, ou mais artificio, se têm vindo a ouvir a gente bem mais ilustrada do que eram, aparentemente, os meus companheiros de viagem. A primeira observação vai para o referendo. Tem alguma graça ouvir falar de referendo a propósito desta questão. Quando algum falante dá um pontapé na gramática ou usa sem motivo um estrangeirismo, consulta os demais antes de desfigurar a língua que é de todos? Mas passemos adiante.

Convém que nos detenhamos no que eles chamaram de “falar brasileiro”. Esclareçamos desde já que ninguém vai “falar brasileiro” – seja isso o que for – em resultado do Acordo. No entanto, devemos lembrar os leitores que de há muito os portugueses se vêm rendendo ao falar do Brasil em consequência da popularidade das telenovelas e ninguém até hoje considerou tal fenómeno prejudicial à Língua Portuguesa. E com razão, porque não é. No Brasil, tal como em Portugal e na Guiné-Bissau, Angola, Cabo-Verde, S. Tomé, Moçambique e Timor-Leste, fala-se a mesma língua – o Português, em variedades linguísticas que não afectam a sua unidade. Que entre falantes de diferentes variedades, sociais ou geográficas, haja permeabilidade lexical ou fonética, ou outra, isso só contribui para a coesão da língua. O que agora está em causa é apenas a grafia, isto é, a representação gráfica da língua que falamos. E a grafia resulta de uma convenção estabelecida, se possível por consenso, entre especialistas de todo o espaço onde a língua é falada, no sentido de se encontrar o melhor critério, o mais lógico, o que mais facilite a tarefa de quem escreve e de quem lê. Porque quem fala não precisa de ortografia. E é bom não esquecer que está por fazer o trabalho de alfabetização da esmagadora maioria dos cidadãos dos países lusófonos. O seu analfabetismo não os impede de falarem Português, mas impede-os de acederem à escrita e, portanto, à cultura. Sosseguem, pois, os mais alarmados porque apenas está em causa a grafia, não a fala.

Desde há um século, porém, que Portugal (que incluía então as actuais ex-colónias) e o Brasil vinham procurando uma ortografia tanto quanto possível unificada. O Novo Acordo Ortográfico veio pôr cobro à deriva em que andava a ortografia da língua. Já em 1911 Portugal procedeu à primeira grande reforma da ortografia, sem a participação do Brasil, que passou a ser adoptada pelos falantes portugueses, mas não no Brasil que, como país soberano, não a acatou. Chegou-se agora a um acordo, o melhor e o único possível. Seja bem-vindo!

O Novo Acordo privilegia o critério fonético em desfavor do etimológico. Quer isto dizer que ninguém, em Portugal, vai ser obrigado a escrever “de fato” porque em Portugal se diz “de facto”, logo, a grafia corresponde à fonética. Pela mesma razão iremos escrever atual e ótimo porque é assim que dizemos dos dois lados do Atlântico. No caso de fonética díspar, o Acordo estabelece a grafia, díspar também, segundo a norma culta lusoafricana e segundo a norma culta brasileira. No total, não chegam a 2% as palavras com diferente grafia. Porquê tanto desacordo? Fica a sensação que há muito desconhecimento do que, de facto, está consagrado nesta revisão das normas ortográficas.

Por fim, lembremos que, «sendo a língua portuguesa um instrumento de comunicação de oito países, de quatro continentes, com mais de duzentos milhões de falantes, e língua oficial ou de trabalho de mais de uma dúzia de organizações internacionais»(1), a unificação da ortografia só pode ter vantagens. E a estratégia portuguesa é a correcta porque consiste em envolver o Brasil num esforço colectivo de promoção da língua portuguesa, mas em que cada país lusófono conta o mesmo institucionalmente. Não deixa de ser interessante pretender que Portugal tenha um peso acrescido na CPLP quando tantos criticaram a desigualdade de poder dos países da União Europeia consagrada no Tratado de Lisboa.

Será de todo saudável que os portugueses tomem consciência que o eixo da lusofonia já não se centra em Lisboa, mas algures entre o Rio de Janeiro e Brasília. Só quando o tiverem compreendido, e interiorizado, estarão a contribuir, de facto, para a dignificação da sua língua.

(1) JOÃO MALACA CASTELEIRO e PEDRO DINIS CORREIA Atual – O novo acordo ortográfico. O que vai mudar na grafia do português (Lisboa, Texto Editora, 2007)


Albina de Azevedo Maia
TERRAS DO AVE, 11/07/2008

terça-feira, 1 de julho de 2008

"Moçambique é e não é país de língua portuguesa", diz Mia Couto

Reconhecido como um dos mais lidos autores contemporâneos de língua portuguesa, Mia Couto afirma-se como um buscador de identidades.

Alfredo Prado

Brasília - Em recente entrevista ao jornal Notícias, por ocasião do lançamento do seu mais novo livro, “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, Mia Couto afirma que "Moçambique é e não é país de língua portuguesa". Uma entrevista em que o jornalista Gil Filipe questiona o escritor sobre a identidade da sua obra, mas também sobre as lusofonias, a comunidade dos países de língua portuguesa, o papel de Portugal e do Brasil e o sim ou não ao acordo ortográfico.

Autor, entre outros, dos romances “Terra Sonâmbula” e “ Varanda do Frangipani", reconhecido internacionalmente como um dos mais lidos autores contemporâneos de língua portuguesa, Mia Couto, afirma-se, na entrevista ao Notícias, como um buscador de identidades.

Autor de 23 livros publicados, diz ficar sempre com o sentimento, "com a impressão de que ainda não escrevi o tal livro que eu quero escrever". "Esse é um fenómeno existente e penso normal junto de quem abraça a escrita. De qualquer maneira não me sinto satisfeito, há em mim uma intranquilidade e uma inquietação que nos faz correr para além do que já fizemos. Acho que isso é que nos move não como escritor mas como pessoa, pois todos nós estamos sempre à procura de uma coisa que está sempre mais além e mais além...".

A escrita é um risco, diz. "O risco é esse, sentir-se sempre tentado e a fazer mais um livro e encarar isso de uma maneira quase banalizada, pois perdemos aquela atitude e aquela paixão intensa que marca o primeiro livro, o que é grave. Substituímos esse pensamento e sentimento pela procura do tal livro que nem sequer sabemos o que é e como é que o devemos escrever".

O livro

Sobre “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, Mia Couto afirma ser "um livro mais ou menos universal"."Esta história podia ocorrer em qualquer lado do mundo e também menos crível a factos históricos, embora aqui, curiosamente, apesar de estar a navegar um pouco pelo mundo faço uma coisa que nunca fiz, como pôr referência de lugares precisos, como, por exemplo, Murébuè, Pemba, o que nunca tinha feito anteriormente, embora me referisse a Moçambique pelo contexto mas pondo lugares fictícios...".

Um livro em que o escritor procura novas experiências no domínio da construção da linguagem. "Eu faço uma coisa que eu penso que é nova, como, por exemplo sou mais comedido na invenção de palavras, fazendo-o só quando era preciso e não como um factor de busca literária ou marca. Por outro lado, o lugar do narrador é um lugar que aparece pela primeira vez num livro meu como personagem também".

Sobre o futuro, Mia Couto diz ter o sentimento de que "ainda não escrevi o tal livro que eu quero escrever". "Esse é um fenómeno existente e penso normal junto de quem abraça a escrita. De qualquer maneira não me sinto satisfeito".

"Não tenho ambição do ponto de vista de carreira. Mas gostava de manter comigo próprio uma relação em que possa inventar mais. Eu penso que há mais coisas que eu posso inventar, mais personagens, mais vidas que eu posso criar dentro de mim. A felicidade que a escrita me dá vem sobretudo do facto de eu poder ser outro, ser determinado personagem que eu próprio criei, e, como podes imaginar, isso não tem fim, eu quero ser infinito e quero ser eterno. Encontrei uma maneira de mentir a mim próprio me multiplicando em pessoas e em personagens que eu vou criando", solta Mia Couto na entrevista ao jornalista Gil Filipe.

"Lusofonias"

E o que pensa Mia Couto da lusofonia e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa em que Moçambique está inseerido? "Há uma organização que se chama CPLP, que está fazendo coisas, reúne-se, tem comissões de trabalho, etc., e eu acho que por aqui essa organização existe e ninguém pode negar. E depois existe outra coisa que se pode questionar que é se isso tem correspondência de uma comunidade de afectos, de uma comunidade de interacção. E eu acho que esta existe também, não da maneira como os políticos a querem apresentar mas existe", diz o escritor.

"A língua portuguesa deu-nos uma certa afinidade histórica. Aqui na língua temos que ter algum cuidado, porque se queremos construir uma família, uma comunidade... Temos que pensar que alguns moçambicanos, alguns angolanos e alguns guineenses, não falam português. Há outros casos, também, como o de Timor Leste, em que dizemos falsamente que é um país de língua portuguesa. É uma coisa falsa e desorientada politicamente e culturalmente dizer que aquele país é de língua portuguesa. Timor não é um país de língua portuguesa, nem a maioria dos timorenses fala português", avalia o autor.

"E Moçambique?", questiona o entrevistador. "Moçambique é um país que é de língua portuguesa! E não é ao mesmo tempo. Alguns moçambicanos é que pertencem à esse universo, o de terem a língua portuguesa como o seu veículo de identidade, de afirmação cultural, etc. São poucos os moçambicanos que falam, escrevem, sonham, amam na língua portuguesa. E não são menos moçambicanos por isso nem os outros mais moçambicanos pelas outras línguas que usam. Eu acho que há aqui uma tentativa de procurar a identidade moçambicana sempre lá, nas raízes, há séculos, quando provavelmente tiveram a mesma mobilidade, como o changana que existe hoje não é o mesmo de há 50 anos ou antes da chegada dos ngunis. Portanto, eu acho que essa comunidade, a de língua portuguesa, existe de facto. Penso que a questão a colocar (...) é se ela é mesmo aquilo que nós queremos que seja. Eu acho que o grave é haver manipulações..".

Manipulações

Que manipulações? "Da parte dos que querem ser mais que os outros, dos que disputam os outros! Eu acho que a disputa é entre Portugal e Brasil, que querem usar esta bandeira como instrumento de busca de privilégio na relação com os outros países de língua portuguesa. E às vezes há aqui uns lapsos de língua quando eles se referem aos outros como os lusófonos, quando os portugueses falam em “países lusófonos” excluindo-se eles próprios e querendo referir-se apenas a nós, países africanos de língua portuguesa. Às vezes estabelecem um eixo triangular da lusofonia, composto por Portugal, Brasil e depois África, como se nós não tivéssemos direitos a nomes próprios como países. A lusofonia de que se fala tem sete ou oito países, contando com Timor Leste. Mas também não vou ficar a aceitar a alguns pronunciamentos que se fazem entre nós. Eu sou adepto da crítica, desde que devidamente fundamentada", responde.

Mas, avalia Mia Couto, a comunidade existe. E diz: "penso que fazer uma recusa total da lusofonia, de uma comunidade de falantes de língua portuguesa no mundo, de que nós fazemos parte, não é correcto. Porque essa comunidade pode nos servir em muitos momentos, como o que mais ou menos se verifica agora, em que o processo de globalização é muito forte e nos pode sufocar. Talvez essa afirmação de um espaço próprio, onde nós temos alguma coisa a dizer, é bem mais útil que as perdas de tempo que temos tido ao rejeitarmos aquilo que por razões óbvias não se pode rejeitar".

O exemplo brasileiro sustenta a opinião do escritor moçambicano. "Não nos esqueçamos que com o Brasil temos afinidades históricas importantíssimas que muitas vezes esquecemo-nos que elas existem e que são intrínsecas à existência de todos nós. Há coisas que nós devíamos recuperar e valorizar historicamente e se calhar isso nos criaria um espaço de afirmação e de negação dessa globalização e de homogeneização do mundo que me parece se está a tentar construir por algumas correntes de pensamento e de atitude".

E a CPLP ?

"Não vou avaliar a qualidade do funcionamento da organização, mas sinto que ela é pouco visível, é pouco participativa e apela muito pouco para que nós participemos nela, por exemplo para aquilo que possam ser as nossas sugestões. Eu acho que também aqui ao invés de ficarmos no café ou no sofá a dizer mal, se calhar devemos levantar as nossas vozes para dar a sugestão de como é que gostaríamos que fosse esta organização que pretendemos seja mesmo uma comunidade de países".

Acordo ortográfico?

Questionado sobre a existência de um braço-de-ferro entre Portugal e Brasil e perguntado que lado é que está, Mia Couto responde: "De nenhum! Estou do lado de Moçambique". "A minha opinião é uma opinião de escritor e de cidadão. Eu nunca tive problemas em ler livros brasileiros. A grafia ligeiramente diferente não me faz confusão. O Brasil lê os meus livros e lê os livros da Paulina Chiziane sem problema nenhum. Pelo contrário acho que há da parte dos brasileiros um certo encanto ao se aperceberem que se trata de uma realização linguística diferente. Portanto, não penso que seja de grande importância a questão do acordo ortográfico. Mas respondendo à sua pergunta, não faço guerra contra o acordo mas não sou a favor dele".

"Eu acho - diz Mia Couto - que o importante era discutir outras coisas que nos afastam e mantêm o enorme desconhecimento que há entre nós. O Brasil não sabe muito de Moçambique. Portugal idem. Eu acho até que os moçambicanos sabem muito mais sobre os outros do que os outros sabem sobre nós. Os moçambicanos são mais atentos em relação ao mundo e têm a capacidade de olhar para o mundo de uma maneira muito mais crítica, no sentido de conhecê-lo e por isso estarem dotados de opinião credível, o mesmo não acontecendo com muitos daqueles com quem nos relacionamos".

O mais importante

Afinal, defende o escritor, há acções culturais "que temos que fazer para que os livros circulem melhor entre nós, o que francamente não está a acontecer agora". "Com uma ortografia ou outra se não mudarmos essas coisas não estaremos a caminhar juntos. A importação do livro deve ser repensada, porque não é fácil sobretudo para nós, os mais pobres. Deve-se pensar nas edições conjuntas, divulgação do que é que estamos a fazer, o que é que é a história comum destes povos, os seus patrimónios de identidade comum desses povos, tudo isso é mais importante que tentar buscar um acordo para a ortografia da língua".

Portugal Digital, 1-07-2008

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Linguista lamenta falta de investimento do Estado português no IPOR

“A política da língua não devia estar dependente das pessoas”

Em Macau fala-se mais português do que antes de 1999 e na China faltam professores lusos que respondam à avidez dos alunos. Malaca Casteleiro acusa o Estado português de não ter uma política externa para a língua portuguesa e critica a eterna dança das cadeiras. Defensor acérrimo do Acordo Ortográfico, refuta a tese dos puristas e acha boa ideia que Macau retire o pê ao óptimo.

Sónia Nunes

Que diagnóstico faz à comunidade de falantes de português de Macau?

Há uma situação diversificada no que respeita ao uso da língua portuguesa. Há a comunidade macaense, que segue sensivelmente a norma culta de Portugal, e há os aprendentes chineses que usam a norma portuguesa ou a brasileira. A unidade essencial da língua existe e é este aspecto que é importante preservar quando há duas normas diferentes.

Mas faz-se um bom uso do português?

Creio que sim. Há um grande esforço de formação de profissionais. Os chineses que terminam cursos têm como objectivo exercer uma profissão em que o português lhes é útil: como interpretes, tradutores ou prestando colaboração em empresas com negócios no Brasil ou nos países africanos. É evidente que o português que falam pode não ser muito culto, mas dominam a língua – o suficiente para se fazerem entender. Falo com estudantes (nomeadamente em Pequim) e fico surpreendido como é que em dois anos já falam uma língua tão distante do chinês, embora com algumas imperfeições.

É aceitável que a exigência se fique pela comunicação básica?

Hoje em dia não pretendemos que o aprendente estrangeiro fale a língua perfeitamente, de forma completa. Esse objectivo cultural é importante para os que leccionam, os lusitanistas e estrangeiros que investiguem a língua que são uma elite. Ora, a políticas de línguas do Conselho da Europa é que sejamos capazes de falar outra língua de maneira a que nos façamos entender.

Aqui em Macau estamos a falar de uma ferramenta que não se resume à comunicação do dia-a-dia. Quer a Justiça quer a Administração dependem do tradutor. Conhece as traduções que são feitas ou o desempenho dos intérpretes?

Não tenho esse trabalho de campo. Pressuponho que não haverá erros. No domínio jurídico, um erro de natureza lexical ou linguística pode ser grave. Toda a documentação oficial deve ser traduzida e explicitada num português correcto. Não sei como está o trabalho organizado mas devia haver supervisores quer do lado português, quer do lado chinês. O ideal seria que fosse um bilingue de elevada qualidade. Há aqui gente com essa capacidade.

Como é que no processo de ensino de uma língua estrangeira se pode ultrapassar o limite mínimo exigido pela União Europeia? Como se enriquece o vocabulário de uma comunidade de falantes distante da língua?

Isso tem que ver com os objectivos de ensino, os meios que dispomos e o nível de exigência que impomos. Um chinês que segue um curso obtém um diploma que tem de atestar competências.

Os diplomas hoje valem pouco: a cátedra perdeu o carácter da distinção.

É um projecto de investigação a desenvolver aqui: analisar os percursos curriculares, ver os níveis de proficiência que os aprendentes atingem e, em função disso, tomar medidas qualitativas que permitam melhorar a eficácia do ensino/aprendizagem. Em Portugal, temos um sistema de certificação oficial. O modelo é internacional e estipula seis níveis que são objecto de um exame. Em função dos resultados é atribuído um diploma. É um trabalho feito com todo o rigor: se o certificado for de nível avançado, significa que o candidato já tem um domínio muito razoável da língua portuguesa. Estamos em contactos com a Universidade de Macau no sentido de a avaliação da proficiência ser feita com base neste sistema.

Os professores notam que há poucos alunos que lêem regularmente textos em português. A parca existência de uma vida cultural feita em português atrofia a aprendizagem?

Pode atrofiar. O livro é sempre um elemento complementar: seria ideal que o aluno, a partir do nível intermédio, efectuasse um certo número de leituras em língua portuguesa para aumentar a cultura, enriquecer o vocabulário e as construções gramaticais. Convinha ter em conta o Plano Nacional português da Leitura. Sei que o aluno chinês é passivo, está à espera que lhe transmitem conhecimentos. Porém, o professor não é um mero transmissor de conhecimento mas um interveniente na motivação do aluno.

Conhece os manuais do ensino do português em Macau?

Alguns. Há materiais muito interessantes que procuravam responder às necessidades de aprendizagem dos alunos daqui. Hoje [ontem] apresentámos manuais mais recentes que estão mais adaptados e foram elaborados no âmbito de um quadro construído na esfera do Conselho da Europa [Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas], que faz uso da metodologia mais moderna, é universal e transferível para qualquer outro canto do mundo.

Quais são as vantagens do QECR para Macau?

Privilegia a aprendizagem sobre o ensino: o centro é o aluno. Para aprender, o aluno tem de fazer um esforço para se apropriar dessa língua. Por outro lado, define seis níveis: iniciação, elementar, limiar, vantagem, autonomia e mestria. Quando atinge o ponto máximo, o aluno domina tão bem a língua estrangeira como a materna. Apresenta também os conteúdos e objectivos de cada nível, no domínio privado ou público, profissional ou turístico. É um quadro muito completo, uma espécie de Bíblia para a aprendizagem das línguas. E está a ter um sucesso muito grande em todo o mundo. Aqui na China, não está a ser aplicado de forma taxativa. Mas os princípios fundamentais – a maior autonomia do aluno e a progressão do ensino em seis níveis – estão a ser tidos em conta.

Esse quadro por ter o selo da União Europeia, a grande bandeira do Governo de Sócrates, poderá fazer com que Portugal faça mais pela sua língua?

No contexto europeu, sim. Agora, do ponto de vista de uma politica externa da língua portuguesa o quadro é irrelevante. É notório que não temos uma politica consequente, definida a médio e longo prazo. O problema da promoção da língua e cultura portuguesas no mundo tem que ver com as pessoas e as instituições encarregados deste processo. E exigem estabilidade, persistência. Os Governos mudam constantemente: em quase 35 anos já tivemos uns 19 primeiros-ministros.

É isso que justifica a instabilidade do IPOR de Macau?

O IPOR creio que tem dez anos aqui. Quantos presidentes é que já teve? Claro que uma política de língua não devia estar dependente das pessoas. Devia ser uma política de Estado, consensual entre as principais forças do poder do país, para que não houvesse mudanças na alternância de agentes políticos. Esse trabalho nunca foi feito, mas há esforços nesse sentido.

O Acordo Ortográfico é uma operação de Estado.

É um instrumento, um princípio. Há medidas mais importantes a tomar como a criação de centros de cultura no estrangeiro. A China fundou o Instituto Confúcio. Em meia dúzia de anos, se não estou em erro, já criou 200 delegações pelo mundo inteiro que suporta financeiramente: faz um esforço enorme para enviar professores. O IPOR não tem dinheiro.

Permite-se ao Governo português que diga que não tem dinheiro para as instituições que são a cara do país na China, quando há aqui uma boa procura de falantes de português?

Se a política de língua portuguesa internacional for assumida como um grande projecto haveria recursos a afectar e nós vivemos uma situação financeira muito difícil. O argumento da falta de dinheiro é sempre fácil. Não o compreendo quando nesta parte do mundo há uma procura tão grande da nossa língua, que se afirmou de uma forma impressionante. Ao contrário do que previam certos nostálgicos do antigamente, o português está mais vivo em Macau do que antes da transferência de administração. Há na China, neste momento, oito universidades com licenciatura que quando abrem vagas para 24 alunos têm 500 a concorrer. E nós, do lado português, não temos contrapartidas. É muito importante ter um leitor português que apoie os colegas chineses que vão leccionar a língua.

A aplicação do Acordo Ortográfico poderá mostrar que a língua também é rentável?

O Acordo visa resolver uma situação inexplicável do ponto de vista linguístico e político. A língua portuguesa apresenta duas ortografias oficiais: uma seguida por Portugal, países africanos, Timor-Leste e RAEM; e uma outra seguida pelo Brasil. Trata-se de uma guerra ortográfica de cem anos. Em 1911, fez-se a primeira reforma e o Brasil não foi tido nem havido – evidentemente que não a seguiu. Aqui foi cometido o pecado original da ortografia portuguesa: se tivesse havido entendimento, o problema estava resolvido. Ao longo do século XX houve várias tentativas para unificar a ortografia, sem sucesso. Em 1990, conseguiu-se um novo acordo que teve a aprovação linguística de representantes de todos países de língua portuguesa e a aprovação política dos ministros da cultura e secretários de Estado. Tinha que ser ratificado pelos parlamentos: foi publicado em Diário da República em Agosto de 1991 e assinado por Cabo Verde e Brasil. Portugal era quem tinha o processo nas mãos e não desenvolveu diligências diplomática para que o acordo fosse ratificado pelos restantes países. A existência de duas ortografias é prejudicial para a promoção mundial da língua. Nas próprias reuniões da CPLP chegam a ser produzidos dois documentos – é um contra-senso que o acordo procura agora resolver. Já não é possível uma unificação total da ortografia: os brasileiros dizem ‘de fato’; nós ‘de facto’. Não há hipóteses de resolver esta dupla realização: temos de consagrar as duas formas. Todo o lusófono sabe que há esta diferença e vai compreender quando encontrar género escrito com acento circunflexo.

Isso não acontecia já sem acordo?

Uma coisa é compreender, outra é escrever. No inglês também há palavras com duas grafias e nunca ninguém levantou nenhum problema. As diferenças são mínimas. Do lado de Portugal, são cerca de 1500 as palavras afectadas. Com estas duplas grafias, não serão 500. Todo e qualquer falante quando receber um texto que tenha escrito ‘gênero’ não vai ficar surpreendido porque sabe que nos casos em que temos ‘e’ e ‘o’ tónicos, seguidos de consoante nasal, sejam elas palavras graves ou esdrúxulas, haverá esta diferença. É uma regra muito fácil de fixar.

Por que são as pessoas tão apegadas aos acentos, pês e cês?

Não permitem que se suprima as consoantes mudas. É esse o busílis da questão.

E a argumentação do manifesto contra o Acordo que foi entregue a Cavaco Silva e que já vai a caminho das 100 mil assinaturas.

Até pode chegar às 100 mil: em 10 milhões é uma percentagem pequena. Nessa petição há lá asneiras... A língua não vai mudar nem nós estamos a ceder aos brasileiros. Não há alterações lexicais nem sintácticas. Mudam apenas aspectos gráficos. No Brasil será ônibus; em Portugal, autocarro. Para uma criança é muito mais fácil aprender a escrever óptimo sem pê. O que é que aquele pê está lá a fazer?! A criança não é sensível à etimologia. Já o adulto, sobretudo o que aprendeu latim, não aceita que se tira de lá o pê porque faz parte do património da palavra. Nós já escrevemos ‘fructo’ e ‘victoria’ e Filipe tinha outra estética quando era escrito com ph. É melhor suprimir uma consoante que não se articula do que pedir ao outro que volte a escrevê-la.

Os contestatários recuperam a etimologia para não reconhecer legitimidade científica ao acordo.

Quem são eles e que autoridade têm para dizerem isto? Estão lá dois ou três linguistas. Nunca vi da parte dos opositores soluções alternativas. É a crítica do bota abaixo, que é muito característica da mentalidade portuguesa. A nota justificativa – fui em quem a elaborou – está muito aprofundada. As pessoas não olham para isto.

Alguns dos signatários são quem melhor honra a cultura portuguesa, como Eduardo Lourenço e Lobo Antunes, que não vão alterar a forma como escrevem.

Não alterem. Duvido que, entrando o Acordo em vigor, haja algum editor que queira publicar uma obra nova que não seja na ortografia oficial. O Saramago, ao contrário do que se diz, não é opositor. Diz apenas que já não tem idade para mudar a sua ortografia mas não se opõe a que o editor a modifique. Quando for tornada lei – estamos à espera que o Presidente da República Portuguesa a promulgue – a nova ortografia será obrigatória nos documentos oficiais e manuais escolares. Também os jornais não quererão publicar uma ortografia que não seja a oficial – aceitaram muito bem escrever dossiê.

Há uma estratégia para a aplicação do Acordo a Macau? Como fica a segunda língua oficial do território que não faz parte da CPLP?

Depende das autoridades locais. Embora seja uma decisão soberana da RAEM, o Acordo devia entrar em vigor aqui. Defendo que Macau, desde que a China não se oponha, deve estar presente na CPLP como observador. Desconheço os meandros políticos mas há em Macau saber e competências para resolver o problema. Com o período de transição de seis anos e uma brochura o professor fica imediatamente informado das modificações. Mas já no próximo ano lectivo, as crianças que entrem para a escola já deviam aprender a nova ortografia. É mais fácil.

HOJE MACAU, 25-06-2008

sábado, 14 de junho de 2008

Eco do Acordo Ortográfico (2)

Entrevista de José Saramago a RTP 2, hoje, 14/06

Saramago, nobel da literatura, afirma que o Acordo é importante para unificar a escrita de língua portuguesa devido a importância do Brasil pelos seus "cerca de 200 milhões de falantes" do português, acrescentando que a haver duas normas ortográficas Brasil ultrapassa, em termos de recursos humanos e investimento, Portugal no ensino do português no mundo. Mais disse que é difícil a Portugal com apenas dez milhões de falantes impor a sua norma, a sua vontade, a Brasil com os seus cerca de duzentos milhões de falantes de português.

Contudo, disse que vai continuar a escrever como escreve, porque já não tem idade para voltar à "escola primária" ou a consultar o dicionário constantemente quando escreve para verificar se determinada palavra mantém ou não a consoante muda como o 'c', e que ficaria a cargo dos editores fazer a revisão das suas obras antes de as publicar .

terça-feira, 10 de junho de 2008

Eco do Acordo Ortográfico (1)

De volta à Escola

Eliseu Auth

Vai longe o tempo em que apanhei muito para me inteirar das regras do português. Poderia ter aprendido melhor, mas não posso reclamar. Tive bons professores de português, principalmente no seminário. Chegavam a ser chatos, de tanto que exigiam. Escrever errado, não admitiam mesmo. Análise sintática e morfológica tinham de estar na ponta da língua. Concursos de leitura e conhecimento de vocábulos, eram coisas corriqueiras e atividades paralelas à carga curricular. Elas ocorriam, inclusive, durante o almoço, no grande refeitório do internato.

Para completar, tínhamos o Grêmio Líterário Estudantil, com diretoria eleita. Ele promovia sessões solenes, onde ninguém ficava de fora. Ali, nas manhãs de Domingo, apresentavam-se oradores, declamadores, contadores de “causos”, cantores e tocadores de gaita e violão. Numa ou noutra coisa, todo mundo tinha que participar. Como não tenho dom para música, fazia minha parte na falação. Certa vez, em três, declamávamos uma poesia comprida à bessa. “Vamos arrebentar”, pensávamos. Qual nada, enroscamos todos, no meio do texto. Um fiasco... O diacho é que tínhamos decorado tudo e treinado muito. Não adiantou e deu pane na memória. Aquele público crítico, feito de colegas, alguns filósofos, e dos mestres, nos fez tremer. O vexame não foi em vão. Um dia, tínhamos de aprender a lidar com a platéia.

Outro instrumento de aprendizagem era a revista “O Luzeiro”, com edição mensal. Seus artigos, crônicas e “causos” eram lidos durante as refeições. Os escritos, autoria dos seminaristas, eram, criteriosamente selecionados.

O enfrentamento do público era preciso acontecer. Afinal, seríamos pregadores e teríamos de estar preparados para dizer a mensagem com clareza, convicção e eficiência. No seminário maior de Viamão, pertinho de Porto Alegre, havia uma sala especial, toda forrada e emparedada com isopor. Nela, podíamos exercitar a voz, soltá-la e construir uma fala bem feita. Tudo foi de grande valia e ainda hoje é, até nas boas reminiscências que traz.

A forma escorreita de dizer as coisas é importante na vida. Um português lídimo e castiço, bem falado e bem escrito, tornam a mensagem melhor e mais eficaz. A leitura de livros ou de qualquer coisa, é indispensável para tanto. A um só tempo, ela fixa a escrita, faz conteúdo, cria idéias e produz conhecimento.

Venho assuntando de linguagem porque vão mexer na escrita do nosso velho português. Unificar pode até ser bom, mas mudar a gramática não é para quem se acostumou a ela. Vamos ter que reaprender. Afinal, no mundo, somos nove nações que falam o português, desde o longínquo Timor Leste. Por enquanto, não há consenso no que querem mudar. As letras “k”, “y” e “w” serão integradas ao alfabeto que terá 26 lêtras. Vão mexer nos tremas, na acentuação, nas palavras separadas por hífen e promoverão aglutinações. Quando isso acontecer, voltaremos a ser um pouco analfabetos e nos botarão de volta à Escola.

(Eliseu Auth é Promotor de Justiça inativo, atualmente Advogado).

Jornal Umuarama Ilustrado, 10 Junho 2008

segunda-feira, 2 de junho de 2008

EM FAVOR DA REVISÃO DO ACORDO ORTOGRÁFICO: TRÊS ORDENS DE RAZÕES 'CULTURAIS'

Compreendo que o Governo português tem um compromisso político-diplomático, assumido em 2004 pelo Governo de então, que dificilmente lhe permitiria não ratificar o 2.º Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico, independentemente de discordâncias que porventura tenha quanto ao seu conteúdo. Certamente por isso, e não apenas por questões de carácter pragmático ligadas à sua implementação no terreno, a presente ratificação faz-se acompanhar do pedido de uma moratória de seis anos para a sua aplicação. Teria sido preferível pedir mais tempo, que, a meu ver, o Governo deveria aproveitar para procurar encontrar consenso diplomático com vista à revisão do Acordo.

E por que precisa ele de ser "emendado"? Por várias ordens de razões, todas culturais, em última análise:

1 - Por razões técnico-linguísticas e culturais:

Como já foi abundantemente demonstrado pela comunidade linguística, pelo menos desde 1990, o Acordo manifesta inúmeras fragilidades. Relevo apenas dois aspectos:

a) O facto de acabar por nem sequer se revelar uma "versão fraca" de unificação ortográfica, como se pretendia, mas antes uma versão permissiva, erigindo o princípio da facultatividade excessiva, o qual vai contra o próprio conceito normativo de ortografia, originando nomeadamente a possibilidade do uso de duplas grafias dentro do mesmo país, isto é, abrindo a porta à heterografia.

b) O facto de recorrer a uma diversidade de critérios na simplificação de preceitos ortográficos, com forte desrespeito pela dimensão patrimonial da língua, nomeadamente a sua dimensão histórica etimológica; ora a língua, é bom lembrá-lo, é definida na Lei de Bases do Património Cultural como um bem cultural, que, portanto, importa preservar e salvaguardar.

2 - Por razões político-diplomáticas e culturais:

Quase vinte anos volvidos sobre o Acordo e num quadro bem distinto no seio da CPLP, no que à situação político-social de Angola e Moçambique diz respeito e também no que ao caso particular de Timor se refere, impor-se-ia uma revisão do Acordo que atentasse à urgente necessidade de uma descrição linguística das variantes africanas do português, muito particularmente no caso daqueles dois países africanos que envolvem cerca de 30 milhões de falantes, cuja norma ortográfica é, recorde-se, a do português europeu. Uma tal descrição permitiria que o Acordo não se limitasse a ser o que na prática é, um acordo entre o Brasil e Portugal, mas um efectivo "acordo" entre pares.

Isso poderia ser acompanhado da garantia, hoje não assegurada, de que todos os países da CPLP, envolvidos numa vontade renovada, poriam o Acordo em funcionamento em simultâneo.

Ora, não estando garantida tal simultaneidade, como ficou claramente patenteado nas declarações do ministro da Cultura de Moçambique aquando da recente visita do nosso Presidente da República àquele país, corre-se o risco perverso de se transformar um instrumento que se quer estratégico de agregação num possível factor de desagregação com a eventual criação de outros blocos de variantes linguísticas que coloquem, por hipótese, Portugal e o Brasil de um lado e os PALOP de outro.

Acresce a tudo isto que, entre 1990 e hoje, não foi cumprido um objectivo estipulado pelo Acordo, prévio à sua entrada em vigor: a organização e publicação de um Vocabulário Técnico- -Científico que impedisse ou ajudasse a travar a forte deriva lexical que se vem sentindo entre a norma europeia e a brasileira.

3 - Por razões económicas e culturais:

A expansão internacional de uma língua não se faz nem por facilitações ortográficas bebidas em critérios fonéticos em detrimento de critérios etimológicos nem por unificações ortográficas estabelecidas por decreto, como as línguas inglesa ou francesa abundantemente revelam, mas sim pelos conteúdos que for capaz de veicular (através da literatura, da música, enfim da cultura). É por aí que passa uma verdadeira política de internacionalização de uma língua e não pelo logro da facilitação fonética da ortografia. Logro tanto maior quanto o critério acima referido da facultatividade vai criar maior dúvida grafémica em quem pretende aprender o português. Não será o Acordo que fará o português ganhar um único leitor, um só falante ou o direito a ser língua veicular num único forum internacional.

Acresce a este facto que o mercado do livro no espaço lusófono, e muito especialmente nos PALOP, tornar-se-á mais difícil de conquistar para a indústria editorial portuguesa e, consequentemente, os conteúdos culturais portugueses que os nossos livros veiculam terão mais dificuldade de penetração, designadamente ao nível das indústrias culturais e criativas, nos PALOP. Em síntese, a internacionalização da cultura portuguesa em África será mais difícil.

Estou ciente de que o bom senso político-cultural acabará por imperar através de acções concertadas que apelem à revisão do Acordo: revisão por certo desejada pela maioria dos linguistas e por todos quantos têm responsabilidades na defesa do património cultural; revisão com certeza esperada por alguns dos PALOP.

Isabel Pires de Lima,
professora universitária e deputada do PS

Diário de Notícias, 02-05-2008

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Ainda ecos do Acordo Ortográfico

Acordo ortográfico vai abrir mercado editorial e expandir idioma português no mundo

Alterações que o novo acordo trará para o português escrito no Brasil

A aprovação do acordo ortográfico, que unifica a forma como é escrito o português nos países lusófonos, aprovada no último dia 16 pelo Parlamento de Portugal, pode ampliar a utilização da língua portuguesa no mundo e melhorar os índices de leitura nos países que falam o idioma, na avaliação do presidente do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), Godofredo de Oliveira Neto.

"Essa decisão revigora decisivamente a língua portuguesa do mundo e amplia a circulação de livros nos países lusófonos, cria melhores condições para diminuição do dramático nível de falta de leitura encontrado na maioria dos países de língua portuguesa. E contribuiu até para abertura de mercado, tanto para as editoras portuguesas quanto para as editoras brasileiras", avalia Neto, que também preside a Comissão de Definição da Política de Ensino, Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (Colip), ligada ao Ministério da Educação (MEC).

A mudança, segundo o especialista, cria condições para que a língua portuguesa "possa vir a ser uma língua oficial da Organização das Nações Unidas". Atualmente, a ONU adota o inglês, o francês, o espanhol, o russo, o árabe e o chinês como idiomas de documentos e reuniões oficiais.

As principais novidades para os brasileiros serão a extinção do trema e mudanças no uso do hífen e de acentos diferenciais (que distingue palavras com a mesma escrita, mas pronúncias ou funções diferentes), segundo Neto. "O acordo muda apenas a grafia, não vai alterar a diversidade da língua portuguesa. As diferenças continuarão a existir, serão permitidas", pondera.

Em julho, as comissões nacionais da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que além de Portugal e Brasil reúnem Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor Leste, vão se reunir "para traçar estratégias de ação para elaborar um vocabulário ortográfico comum aos oito países" , segundo Neto.

No Brasil, a mudança entra em vigor em janeiro de 2009. Por causa do período de adaptação, a regra passará a valer pelos livros didáticos comprados pelo MEC para as escolas públicas a partir de 2010.

VEJA O QUE MUDA

O acordo ortográfico, que unifica a forma como é escrito o português nos países que falam a língua, aprovado no último dia 16 pelo Parlamento de Portugal, vai modificar 0,43% do dicionário brasileiro. Os portugueses, que levaram 16 anos para ratificar a proposta e não tinham aderido à reforma ortográfica de 1971, terão que alterar 1,42%.

Na avaliação do professor Godofredo de Oliveira Neto, presidente do Conselho Diretor do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) e da Comissão de Definição da Política de Ensino, Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (Colip), ligada ao Ministério da Educação, as principais mudanças para os brasileiros serão a extinção do trema e mudanças no uso do hífen e de acentos diferenciais.

Confira, no quadro ao acima, as alterações que o novo acordo trará para o português escrito no Brasil.

MUDANÇAS EM PORTUGAL

Para os portugueses, caem as letras não pronunciadas, como o "c" em acto, direcção e selecção, e o "p" em excepto e baptismo.

A nova norma acaba com o acento no "a" que diferencia o pretérito perfeito do presente (em Portugal, escreve-se passámos, no passado, e passamos, no presente).

Algumas diferenças vão continuar. Em Portugal, polémica e génesis manterão o acento agudo – o Brasil continuará escrevendo com o circunflexo.

LONGA ESPERA

O conteúdo do acordo foi aprovado há 16 anos, mas não podia entrar em vigor sem que pelo menos três parlamentos de países de língua portuguesa ratificassem o protocolo. Além de Portugal, Brasil, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde já ratificaram o texto. Faltam Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor Leste.

O protocolo aprovado em Lisboa abre, segundo a Agência Lusa, a possibilidade de adesão de Timor Leste, que ainda não era um Estado soberano quando o acordo foi aprovado.

Para o governo português, a aprovação do acordo é o primeiro passo para a existência de uma política internacional da língua portuguesa, que será anunciada quando Portugal assumir a presidência rotativa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em julho deste ano.

"É necessário agora desenvolver uma política de internacionalização, consolidação e aprofundamento da língua portuguesa, e o acordo ortográfico é um instrumento para isso", afirmou o ministro da Cultura, Antônio Pinto Ribeiro.

FONTE
Agência Brasil
Luana Lourenço
Repórter

Agrosoft Brasil, 18-05-2008

domingo, 18 de maio de 2008

Hífen é novo vilão do acordo ortográfico

Segundo presidente da Colip, acordo ortográfico tem pontos obscuros. Proposta é que ABL faça um vocabulário parcial com palavras afetadas.

Iris Russo e Simone Harnik
Do G1, em São Paulo

Após a aprovação do acordo ortográfico em Portugal, nesta sexta-feira (16), um novo "vilão" surge como obstáculo para a implantação das novas regras de escrita do português: é o hífen. Muitos de seus usos ainda são obscuros na reforma da escrita.

Veja o que muda com a reforma

Segundo Godofredo de Oliveira Neto, presidente do conselho diretor do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP), órgão da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), a definição de diversos usos do hífen só vai acontecer com a criação de um vocabulário ortográfico oficial. Esse é o póximo passo da reforma que unifica a escrita do português nos países lusófonos.

"O acordo ortográfico não fala de todos os prefixos. Tem de ser feito um vocabulário que vai acabar com essas indefinições. Um dos problemas é o prefixo 're', de reescrever e reeditar. Ele não está elencado", diz. “Pelo texto atual não sabemos se essas palavras terão hífen ou não. O vocabulário ortográfico definirá essas coisas”, explica.

Oliveira Neto convocou nesta sexta-feira (16) uma reunião com os representantes dos oito países lusófonos para discutir as estratégias de elaboração do vocabulário ortográfico oficial. O encontro está marcado para a primeira semana de julho em Cabo Verde.

Outras indefinições

Segundo o professor José Carlos de Azeredo, da Comissão de Definição da Política de Ensino, Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (Colip), presidida por Oliveira Neto, há outras indefinições que envolvem o hífen.

"Palavras como girassol e passatempo não têm hífen. Porta-retrato, guarda-louça e tira-teima, têm hífen atualmente. Não se sabe se essas palavras vão ou não ter hífen", diz. "O que está escrito no acordo é que o hífen desaparece quando se perde a noção da composição de outras duas palavras, mas isso é muito subjetivo", afirma.

Outra dúvida é a palavra taoísmo, mas não pelo uso de hífen. No vocábulo, o problema é o acento: o acordo não deixou definido se ela perderá ou não o sinal gráfico.

Vocabulário da ABL

“O acordo prevê que haja um vocabulário ortográfico comum aos oito países que falam o idioma. A Colip propõe que enquanto isso não acontece, a Academia Brasileira de Letras faça um vocabulário parcial com as palavras afetadas pela reforma. Isso irá dirimir uma série de dúvidas técnicas deixadas pelo acordo”, explica Oliveira Neto.

A Colip enviou esta semana ao ministro da Educação, Fernando Haddad, a sugestão para que a ABL faça o vocabulário parcial. “É mais fácil fazer parcialmente, assim só colocamos as palavras afetadas pelo acordo. E esta é uma atribuição histórica da Academia Brasileira de Letras”, diz o presidente da comissão.

Portugal aprovou o acordo

A notícia de que Portugal aprovou o acordo nessa sexta-feira foi bem recebida no Brasil. "Essa decisão dá uma nova dimensão à presença da língua portuguesa no mundo. Abre a possibilidade de lutar para que se torne uma das línguas oficiais da ONU”, disse Oliveira Neto.

As mudanças na forma de escrever o idioma em Portugal vão valer dentro de seis anos, enquanto no Brasil os livros escolares deverão ser mudados até 2010. “Portugal está dando este prazo para esclarecer os pontos obscuros do acordo”, avalia o presidente da Colip.

Houve grande polêmica em Portugal. Uma petição na internet, que tentava convencer parlamentares a votar contra o acordo, criticava a proposta por entender que significava que o país cedia aos interesses brasileiros. O documento teve mais de 35 mil assinaturas desde o início do mês, grande parte delas de intelectuais.

O que muda com o acordo?

O novo alfabeto vai incorporar o “k”, o “w”, e o “y”, ficando, então, com 26 letras. Haverá a supressão de acentos diferenciais, como o de “pára”, do verbo parar; de acentos agudos em ditongos como o de idéia (virará “ideia”); e do circunflexo em “vôo” ou “crêem”; além de mudanças com o hífen.

E o trema (aqueles dois pontinhos que ficam sobre o “u” de lingüiça, por exemplo) desaparecerão.

Globo.com, 18-05-2008

sábado, 17 de maio de 2008

Ecos da ratificação do Acordo Ortográfico

Portugal Digital - Brasil/Portugal
17/05/2008 - 13:04

Fundação Luso-Brasileira congratula-se com aprovação do acordo ortográfico

FLB espera que o acordo "contribua para a afirmação internacional da língua portuguesa e a aproximação dos povos e culturas que a partilham".

Da Redação

Lisboa - A Fundação Luso-Brasileira mostrou hoje a sua satisfação com a aprovação, em Portugal, do acordo ortográfico. A entidade, que consultou o seu Conselho de Curadores, disse em comunicado esperar que o acordo "contribua para a afirmação internacional da língua portuguesa e a aproximação dos povos e culturas que a partilham".

O Parlamento português aprovou ontem o novo acordo ortográfico para a língua-mãe, que prevê a padronização do idioma nos países lusófonos. O documento vinha encontrando grande resistência em Portugal porque centenas de palavras teriam de passar a ser escritas como no Brasil.

Presidida actualmente por João Rendeiro, presidente do Banco Privado Português, a Fundação Luso-Brasileira para o Desenvolvimento do Mundo de Língua Portuguesa, foi constituída a 7 de setembro de 1992 em Lisboa, como pessoa colectiva de direito privado e declarada de utilidade pública.

Acordo Ortográfico: Governo brasileiro satisfeito

Acordo Ortográfico: Ministro brasileiro da Educação quer acertar com Portugal cronograma para implantação

Brasília, 17 Mai (Lusa) - O ministro brasileiro da Educação, Fernando Haddad, disse hoje à Lusa que o Brasil quer acertar agora com Portugal uma agenda para implantar as medidas propostas no Acordo Ortográfico, após a aprovação pelo Parlamento português na sexta-feira do segundo protocolo modificativo.

O governo brasileiro recebeu com muita satisfação a decisão da Assembleia da República de Portugal de aprovar o segundo protocolo modificativo, que abre caminho para a entrada em vigor do Acordo Ortográfico em Portugal.

"O Acordo Ortográfico simboliza o sentimento de unidade dos países de língua portuguesa e permitirá o aprofundamento da cooperação e integração internacional entre os países membros da CPLP", declarou Haddad à Lusa.

O ministro brasileiro disse que quer marcar duas reuniões com a sua homóloga portuguesa, Maria de Lurdes Rodrigues, uma em Lisboa e outra em Brasília, para acertar o cronograma de implantação das medidas estabelecidas no Acordo Ortográfico.

Nesse encontro, o ministro apresentará a Portugal a proposta elaborada pela Comissão para Definição da Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (COLIP), que prevê o início da reforma ortográfica da língua portuguesa no Brasil já a partir de Janeiro de 2009.

Esta proposta prevê um prazo de transição de três anos para que a nova ortografia seja plenamente adoptada no Brasil.

O ministro informou ainda à Lusa que já ordenou à Secretaria de Educação Básica a produção de um manual com as medidas do Acordo Ortográfico e instruções para os professores, que será distribuído pela Rede Pública de Educação Básica em todo o Brasil.

A Academia Brasileira de Letras também recebeu com entusiasmo a decisão da Assembleia da República de Portugal, considerando a aprovação como um "marco histórico".

"Inscreve-se, finalmente, a língua portuguesa no rol daquelas que conseguiram beneficiar-se há mais tempo da unificação de seu sistema de grafar, numa demonstração de consciência da política do idioma e de maturidade na defesa, difusão e ilustração da língua da lusofonia", afirmou o presidente da Academia Brasileira de Letras, Cícero Sandroni.

Na opinião do académico Marcos Vilaça, que presidiu a ABL entre 2006-2007 e cuja gestão incentivou a aceleração do processo para a aprovação do Acordo, Portugal acaba de dar "prova de grande maturidade e modernidade".

"A simplificação do emprego do idioma vai possibilitar o incremento das relações culturais na comunidade lusófona", destacou.

CMC.

RTP Online/Lusa/Fim

Acordo Ortográfico foi aprovado no Parlamento

PS, PSD e Bloco votaram a favor

16.05.2008 - 14h59 Lusa

O Parlamento aprovou hoje, com os votos favoráveis do PS, PSD, Bloco de Esquerda e sete deputados do CDS, o Segundo Protocolo do Acordo Ortográfico, mas Manuel Alegre (PS) e dois deputados do PP e Luísa Mesquita votaram contra.

Três deputados do PSD, Henrique Freitas, Regina Bastos e Zita Seabra – que invocou “conflito de interesses” por ser editora –, além de Matilde Sousa Franco, do PS, abandonaram o hemiciclo antes da votação.

Apesar de não o ter anunciado em plenário, o deputado do Movimento Partido da Terra (MPT) Pedro Quartin Graça, eleito pelas listas do PSD, disse posteriormente à Lusa que também se ausentou do hemiciclo para não participar na votação.

O acordo teve a abstenção das bancadas do PCP, PEV e dos deputados Paulo Portas, José Paulo Carvalho e Abel Baptista (CDS-PP).

Contra votaram Manuel Alegre, PS, Nuno Melo e António Carlos Monteiro (CDS) e a deputada não inscrita Luísa Mesquita (ex-PCP).

Paulo Portas e o deputado João Oliveira anunciaram declarações de voto.

O protocolo abre a possibilidade de adesão da República Democrática de Timor-Leste, que à data do Acordo (1990) ainda não era um Estado soberano.

Público Online, 16-05-2008

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Parlamento português aprova segundo protocolo modificativo ao Acordo Ortográfico

Acordo Ortográfico: Brasil recebe com satisfação decisão da Assembleia da República

Brasília, 16 Mai (Lusa) - O Brasil recebe com satisfação a notícia da aprovação pelo Parlamento de Portugal do segundo protocolo modificativo ao Acordo Ortográfico, disse hoje à Lusa o presidente da Comissão de Língua Portuguesa do Ministério da Educação brasileiro.

Segundo Godofredo de Oliveira Neto, que preside também ao Conselho Director do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), a decisão da Assembleia da República que abre caminho para a entrada em vigor do acordo em Portugal, "revigora decisivamente a língua portuguesa no mundo".

"Além disso, amplia substancialmente a circulação dos livros nos países lusófonos, criando melhores condições para a diminuição do dramático nível de leitura na esmagadora maioria desses países", acrescentou.

Oliveira Neto acredita ainda que a entrada em vigor do acordo vai "contribuir radicalmente para a abertura de mercado tanto para as editoras portuguesas como para as brasileiras".

O especialista defendeu que os membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) comecem a trabalhar na elaboração de um vocabulário ortográfico comum, como está previsto no acordo.

"Só com este vocabulário é que certos pontos obscuros do Acordo Ortográfico serão esclarecidos, como a questão do hífen", explicou.

Como presidente do Conselho Director do IILP, Oliveira Neto vai convocar uma reunião para a primeira semana de Julho, para que os países lusófonos tracem as estratégias da elaboração desse vocabulário comum.

Na avaliação do embaixador de Portugal em Brasília, Francisco Seixas da Costa, a decisão agora tomada pelo Parlamento português tem uma dimensão estratégica da maior importância.

"Ter o Português com uma grafia quase comum às duas normas actuais vai facilitar imenso a consagração da língua no plano internacional", afirmou o diplomata à agência Lusa.

Seixas da Costa destacou que o acordo já poderia estar em plena aplicação há 14 anos.

"Destaco um facto que, muitas vezes, se esquece: o Acordo Ortográfico já havia sido aprovado e ratificado por Portugal em 1991. Se então os outros países subscritores tivessem procedido da mesma forma, o acordo já poderia estar em plena aplicação desde 1994", referiu.

Na votação de hoje na Assembleia da República, estava em causa apenas a adesão de Timor-Leste ao Acordo Ortográfico e a possibilidade deste poder entrar em vigor após três ratificações, como estabelece o segundo protocolo modificativo.

Três dos oito membros da CPLP - Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe - já tinham ratificado o acordo e também os protocolos modificativos, o que em tese permitia que o acordo já pudesse estar em vigor desde o ano passado.

A adesão de Portugal, entretanto, sempre foi considerada fundamental pelo Governo brasileiro.

"É compreensível que muitas pessoas, em Portugal e no Brasil, tenham uma posição pouco favorável ao Acordo Ortográfico. Ninguém gosta de mudar as regras com que escreve. Mas todos temos de fazer um sacrifício para garantir que a nossa língua se mantém próxima na escrita. A prazo, todos vamos ganhar", concluiu Seixas da Costa.

CMC

Lusa/Fim

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Acordo Ortográfico: as razões de Vasco Graça Moura

Acordo Ortográfico: Vasco Graça Moura afirma que "é um acto cívico batermo-nos contra"

Lisboa, 03 Abr (Lusa) - O escritor Vasco Graça Moura disse hoje que "é um acto cívico batermo-nos contra o Acordo Ortográfico", que qualificou de "inconstitucional".

O escritor e eurodeputado, que falava na Livraria Byblos em Lisboa a convite da Associação Portuguesa de Editores (APEL) e Livreiros e da União de Editores Portugueses (UEP), disse que "o acordo não leva a unidade nenhuma" e antes de qualquer ratificação havia que chegar a um vocabulário técnico-científico comum.

Graça Moura disse que ratificar este Acordo era inconstitucional pois "não se pode aplicar na ordem interna um instrumento que não está aceite internacionalmente" e nem assegura "a defesa da língua como património, como prevê a Constituição nos artigos 9º e 68º".

Vasco Graça Moura considerou o Governo "irresponsável", acusando-o de agir apressadamente" e de ter mentido ao afirmar que consultou a Associação Portuguesa de Escritores e Livreiros (que não existe), e mesmo querendo referir-se à APEL - disse - não o fez.

"O Governo não consultou nem a APEL nem a UEP, por isso está a mentir", acrescentou.

Por outro lado, o autor de "Sonetos familiares" afirmou que "se quer impor o Acordo de qualquer maneira, pela lei do mais forte", tendo afirmado que "somos condóminos da língua" e "não podemos ver-nos como 10 milhões contra 200 milhões, nós somos pelo menos 40 milhões, e diferenças são inevitáveis".

Graça Moura, que ao longo da palestra citou vários linguistas e historiadores da Cultura, afirmou que "para este Acordo não foi tida em conta as pronúncias africanas".

Segundo enfatizou, no caso do Acordo há duas Academias, a brasileira e a portuguesa, a dialogar entre si, enquanto do lado africano são representantes dos respectivos Governos, "para não falar do simbolismo de Goa e Macau".

No caso dos países africanos, disse, "a língua portuguesa é um caso de identidade nacional, num território onde proliferam outras línguas, para não referir da fragilidade da alfabetização do português nesses países".

Por outro lado, acrescentou, o Governo nem consultou pareceres anteriores, nomeadamente os das direcções dos ensinos básico e secundário que em 1986 "manifestaram-se contra o Acordo".

O escritor lembrou ainda que nessa altura "houve uma forte contestação de toda a sociedade ao Acordo que é o mesmo que agora querem ratificar".

Graça Moura criticou ainda "o silêncio, no matéria tão crucial como esta, a que se remeteu a actual ministra da Educação", Maria de Lurdes Rodrigues.

Entre a audiência estava a ex-ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, que lembrou "que o Governo herdou uma situação, nomeadamente o facto de o executivo anterior ter assinado, em 2004, o Segundo Protocolo Modificativo que previa a entrada em vigor do Acordo caso três países, o ratificassem o que veio a acontecer em 2007.

"O actual Governo ficou com uma criança nos braços que se começa a mexer quando em 2007 Cabo Verde ratifica o acordo", disse a actual deputada do PS. (Brasil e São Tomé e Principe foram os outros países que já ratificaram o acordo).

Pires Lima afirmou que não acredita em pressões económicas, nomeadamente portuguesas, para a ratificação do Acordo e lembrou que a sua adopção "também não foi assim tão pacífica no Brasil".

A ex-ministra, reputada especialista na obra literária de Eça de Queiroz, disse que não tem "nem muito nem pouco entusiasmo pelo Acordo", mas também não participa "nas cruzadas pró ou contra".

Isabel Pires de Lima que afirmou fazer uma "leitura idêntica" à de Graça Moura e concordou com o conferencista quanto "ao perigo que representa se um país ou dois, ou três, colocarem em prática o acordo".

"Há o perigo de criar uma fractura caso um país ou um pequeno grupo coloque em prática o Acordo", disse Graça Moura.

Zita Seabra, deputada do PSD e editora, falou da sua experiência, nomeadamente a compra em conjunto por editores portugueses e brasileiros dos direitos de obra.

"Combinámos que nós fazíamos a tradução e eles a revisão e numa outra obra trocávamos, mas tivemos de desistir pois ficava mais caro e era mais complicado rever a partir da tradução do que directamente da língua original", disse a responsável pela Alêtheia.

Os editores que intervieram no debate foram todos contra a ratificação do Acordo.

RTP Online

sábado, 26 de abril de 2008

A política da língua e o Instituto Camões

"A língua é um instrumento de poder"

A presidente do Instituto Camões encomendou um estudo económico sobre a lingua portuguesa. "O Acordo Ortográfico não tem recuo", diz, em entrevista ao Expresso.

Luísa Meireles
1:00 Sexta-feira, 25 de Abr de 2008

Simonetta Luz Afonso: "A discussão sobre o Acordo Ortográfico é um bocadinho estéril"

O Instituto Camões encomendou um estudo para saber quanto vale a língua portuguesa. "É uma reacção a uma nova procura do português", diz a presidente do Instituto, Simonetta Luz Afonso, para quem é claro que as línguas têm um valor económico.

"Pedimos ao ISCTE que reunisse equipas multidisciplinares - economistas, financeiros, antropólogos, linguistas - para olhar para tudo o que acontece à volta à língua e dai tirar as conclusões do ponto de vista económico", afirmou. "Há indicadores de interesse manifesto por parte de pessoas que se estão a licenciar ou doutorar em áreas tão diversas como jornalismo, economia, finanças, ciência política, engenharia, que querem aprender português e cujas universidades nos contactam. Com o processo de Bolonha a funcionar, as pessoas têm de aprender línguas e o português é uma delas, o que significa que tem interesse como mais valia curricular para quem está a fazer cursos que não são estritamente na área das línguas".

Para Simonetta, este processo ocorre no mundo inteiro, desde a Europa, à Rússia, até à China, porque "a aldeia global é muito rápida". Na Europa, em particular, reforça, "há três línguas que servem para sair do continente: inglês, espanhol e português. Há toda uma nova dinâmica das línguas e o português tem de saber aproveitar esta oportunidade, que é de ouro. O português é falado em oito países do mundo em alguns dos quais a guerra acabou e a economia está a crescer, logo, com grandes oportunidades de negócio. Ao todo somos 230 milhões de falantes, um número importante e em crescimento (prevê-se que sejam 335 milhões em 2050)".

O estudo foi encomendado por dois anos, no primeiro do qual se estudarão as indústrias da língua, cujos resultados permitirão fazer depois um segundo trabalho sobre o valor económico da língua propriamente dito, que será para 2009.

Valor multiplicado por oito

"O valor económico da língua decorre do valor estratégico e o nosso é multiplicado por oito porque somos oito países com oito culturas em cinco continentes", declara ainda a presidente do IC. Por outro lado, o facto do Brasil ter optado o espanhol como primeira língua estrangeira e, reciprocamente, outros países da América Latina estarem a fazer do português a primeira língua estrangeira (Argentina, Uruguai, Venezuela) vai criando uma mancha de línguas ibéricas com muita força. "E este mercado não é despiciendo - o mundo de negócios anda à volta disto e a língua é fundamental para a comunicação".

Nesta tarefa, é o Instituto Camões quem forma os professores para ensinar a língua. "É isso que dá sustentabilidade à língua - formar gente que a conhece bem e só depois aprender a técnica de ensinar", realça a sua presidente. Por enquanto, só Portugal se encarrega dessa tarefa pois é o único a dispor de uma instituição desse tipo - o Brasil projecta um, mas ainda não está formalizado.

1ª cátedra em África

Simonetta Luz Afonso considera que "a língua pode ser um utensílio de poder. Os países com língua mais falada têm mais poder, tanto no negócio, como na cultura. E, juntos, têm mais poder do que sozinhos, como será o caso da CPLP".

O português pode não ter o mesmo valor estratégico para todos os oito membros da comunidade lusófona, mas algo significa o facto dele ter sido escolhido como língua oficial. "Em Angola foi um factor de união, em Moçambique mais ainda e alguns só se entendem nesses países porque falam português", sublinha Luz Afonso. "O curioso é que muitas previsões falharam. Dizia-se que Moçambique ia falar inglês quando aderiu à Commonwealth e o que se verificou é que, agora, há uma lança do português nessa comunidade".

"Estamos a fazer a primeira cátedra de português em África na Universidade de Mondlane, no Maputo, cujo objectivo é não só reunir os jovens, doutorados, licenciados e mestres, mas também formar gente que vai ensinar português como língua segunda e língua estrangeira em Africa. A Costa do Marfim, por exemplo, quer ter o português como primeira língua estrangeira e, no Senegal, há milhões a falar português", destaca a presidente do Instituto Camões. São moçambicanos também os actuais leitores na África do Sul e no Zimbabué.

Repto às empresas

Já em Timor, a situação é completamente diferente. "Estamos a ajudá-los a conseguir ter o português como língua oficial, partindo de uma base muito baixa", diz Simonetta, apontando que, naquele país, só os mais velhos falavam e, agora, os muito jovens. "Toda a camada do meio, não". A recuperação também está a ser feita com a ajuda do IC, que já criou uma licenciatura na universidade. "Estamos sempre a envolver os locais".

A presidente do Instituto Camões aproveita para lançar o repto às empresas. "Tenho pena que as empresas que fazem negócios no mundo da lusofonia não se empenhem mais nesta promoção e neste trabalho do ensino do português. Nós fazemos sozinhos, mas se eles vierem, poderíamos abranger um maior número de províncias", diz, lamentando que "a língua ainda não tenha entrado nos desígnios das empresas portuguesas".

China e Macau são também exemplos do aumento do interesse em aprender português. Em Macau, diz, "fala-se hoje mais e melhor português do que quando estava connosco. A região obriga todos os funcionários públicos a falar. Abriu-se um mercado e eles perceberam que podiam explorar essa oportunidade. É uma plataforma importantíssima para ligação aos PALOP e os chineses utilizam isso", destaca.

"Acordo Ortográfico não tem recuo"

E quanto ao Acordo Ortográfico, faz diferença?

Simonetta acha que não. "O acordo não tem recuo. O que se tem de ter em atenção é o facto de, neste momento, haver novos parceiros que têm uma palavra a dizer. Mas é uma discussão um bocadinho estéril", sublinha: "não me parece que o Acordo vá diminuir a importância do português, pelo contrário, abre-se mais na medida em que escrevemos todos da mesma maneira. Não falamos da mesma maneira, mas parece-me interessante unificar a escrita".

Mais, diz a presidente do IC: "o facto de escrevermos da mesma maneira pode facilitar, contrariamente ao que dizem os editores, a promoção do livro. Encontrar nichos de mercado e não chorar sobre leite derramado - que não há. Não haverá milhões de livros deitados ao lixo".

Simonetta considera que o Acordo deve ser discutido no âmbito da CPLP, independentemente de cada país debater sozinho. "Os países devem fazê-lo em conjunto, porque a língua é nossa, de todos. Cada um de nós se apropriou dela e deu-lhe as suas nuances. A nossa será a mais próxima do latim bárbaro, as outras foram-se distanciando, mas não ao ponto de não os entendermos. Conseguimos falar uns com os outros".

Trabalhar com a CPLP


Para aplicar uma política da língua, o fundamental - diz Simonetta - "é que todos trabalhemos no mesmo sentido, todos os que falam português. É importante que todos tenhamos consciência da importância e da riqueza do português para cada um e para todos. Em África estão muitos países e esse peso nota-se na procura do português pelas instituições africanas, a União Africana (UA), a SADEC, SADC. Era preciso que cada um de nós faça valer a importância da língua nas instâncias em que está representado. Nós fazemo-lo na União Europeia e trabalhamos para isso".
A presidente do Camões acrescenta que, até à Estratégia de Lisboa, "o português era sempre considerado uma pequena língua - e é-o na Europa - mas é uma grande língua no mundo, a par do inglês e do espanhol. É um momento fantástico e não podemos perder esse comboio".

Versão integral do texto publicado na edição do Expresso de 25 de Abril de 2008, 1.º Caderno, páginas 18 e 19.

Expresso Online, 25/04/2008

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Ainda o Acordo Ortográfico

Em vez da coisa, o Acordo

OS PODEROSOS gostam de dizer que os outros não são "os donos" das coisas sobre as quais eles decidem. É redundante, e um bocadinho estúpido, e, precisamente por isso, funciona - pelo menos intimida. Os escritores, por exemplo, não são "os donos" da Língua - e não se vai cancelar um acordo ortográfico só pelo amor serôdio que alguns escribas dedicam a consoantes mudas e outras chinesices (por alguma razão o "Prós e Contras" que a RTP dedicou à magna questão do Acordo, na passada segunda-feira, incluía o parecer de um chinês, fascinado com aquilo a que chamava "o novo língua portuguesa").

Já tive ocasião de explicar, com larga cópia de exemplos, que nada me moveria contra o Acordo se, de facto, ele acordasse alguma coisa. Vasco Graça Moura tem esmiuçado a bacoquice do Desacordo parágrafo a parágrafo, por muitos e variados palcos, com uma clareza de água e uma paciência de santo - mas quem quer ouvir de que se trata? Chama-se-lhe nacionalista ou colonialista e está o caso arrumado, que isto é Portugal. Na referido programa televisivo, tanto ele como Maria Alzira Seixo recordaram que o Acordo, em si, é que enferma de colonialismo - dado que foi cozinhado por académicos de Portugal e do Brasil, com os restantes países de língua portuguesa no papel de "majorettes" contratadas para a fotografia. E enquanto ouvia a sempre serena e generosa Guiomar de Grammont, nos dois minutos de exposição a que teve direito, lastimava que o povo português não tivesse tido direito a ouvi-la por mais meia hora, para que ela contasse como fez da tão portuguesa cidadezinha de Ouro Preto, no estado brasileiro de Minas Gerais, um ponto de encontro anual de escritores de toda a lusofonia, e como conseguiu já mobilizar-nos (designadamente, ao Jorge Salavisa e a mim mesma) para um "Letras em Lisboa" de propósitos semelhantes, cuja primeira edição decorreu há dias. Infelizmente, a RTP não enviou um só jornalista a nenhum dos espectáculos, conferências ou debates desse festival da Língua Portuguesa. O que acontece é sempre menos interessante do que aquilo que o Poder manda acontecer, ou não estivéssemos em Portugal.

É precisamente porque amo a riqueza extraordinária da Língua Portuguesa, e o que as suas variantes africanas e brasileiras lhe acrescentam (porque há tantas variantes dentro do Brasil como nos países africanos de expressão portuguesa) que, à partida, me desgosta a ideia burocrática de um acordo. Se pelo menos o Acordo servisse para unificar a aprendizagem da Língua, e assim tornar igualmente acessíveis e programáticos, para as crianças das escolas, os escritores dos vários países, poderia julgá-lo útil. Mas o Acordo prevê que se mantenham as diferenças ortográficas correspondentes à "pronúncia culta" (seja lá isso o que for) de cada país. Trocando em miúdos: as grafias manter-se-ão distintas. Mais próximas, mas suficientemente distintas para tornar impossível a criação de manuais escolares universais, dentro do mundo da língua portuguesa. Até porque as diferenças abissais não são ortográficas - mas gramaticais e semânticas. O argumento da unificação da Língua para efeitos de papeladas oficiosas internacionais não colhe, por estes mesmos motivos. E que diferença faz que um documento internacional seja escrito numa qualquer variante do português? Todos entendemos a escrita do cabo-verdiano Germano Almeida, do brasileiro Ruben da Fonseca, do moçambicano Mia Couto ou do angolano Pepetela.

Não é uma questão de percentagens de palavras alteradas, nem de "cedermos aos brasileiros". Pessoalmente, agradeço aos brasileiros o empenho que têm posto, no Brasil como nas muitas cátedras de Língua Portuguesa que têm por esse mundo fora, na divulgação do padre António Vieira e de Fernando Pessoa, de Agustina ou Lídia Jorge, bem como da atenção que dedicam aos novos escritores portugueses - que, aliás, têm sido muito mais publicados no Brasil do que os novos autores brasileiros em Portugal. Dói-me que assim seja. E começo a fazer contas, contas simples, evidentes: quanto se vai gastar em papel e impressão de livros novos por causa deste acordo? Quanto já se gastou em cargos, comissões, grupos de trabalho, salários, almoços, viagens, motoristas, para que ele se realizasse? O que tem feito a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) para além deste protocolo de acentos e tremas? Quantos gigantescos "Letras em Lisboa" (e em Cabo Verde, e em Angola, e em Moçambique, etc.) se poderiam organizar com essas verbas? Que repercussão não teriam os livros de Guiomar de Grammont, Maria Esther Maciel ou Suzana Vargas, ou os discos e livros de José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski (para só falar de alguns autores que estiveram presentes nesta primeira iniciativa de intercâmbio literário) se a RTP lhes dedicasse metade do tempo que dedicou à discussão do acento grave ou circunflexo?

Tanta conversa, tanta mordomia, tão pouca vontade de mudar o que importa. É isso o que mata a língua portuguesa, é esse o triste poder de Portugal.

Expresso Online, 21/04/2008

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Acordo Ortográfico na Assembleia da República 3

Acordo Ortográfico: "Nenhuma soberania é dona da língua", diz Adriano Moreira

Lisboa, 07 Abr (Lusa) - O presidente da Academia das Ciências de Lisboa, Adriano Moreira, exortou hoje os países da CPLP a "garantir os recursos financeiros e humanos para assegurar a aplicação do Acordo Ortográfico".

"A Comunidades dos Países de Língua Portuguesa têm que decidir sobre os recursos financeiros e humanos para assumir os compromissos resultantes da aprovaçao do Acordo Ortográfico", disse Adriano Moreira.

O presidente da Academia das Ciências de Lisboa falava na Assembleia da República, durante uma conferência internacional/audição pública, promovida pela Comissão parlamentar de Ética, Socidade e Cultura, com a presença de deputados, embaixadores e linguístas.

Adriano Moreira considerou ainda fundamental que a CPLP planifique os "apoios" para executar o unificação ortográfica.

"Sem um plano de ajuda aos países da CPLP os prazos adoptados não garantem a sua viabilização", alertou, dando como exemplo Timor.

Sobre as divergências que o Acordo Ortográfico tem gerado - com diversas personalidades a esgrimir argumentos contra e a favor - Adriano Moreira considerou-as "naturais".

"Nenhuma soberania é dona da língua e a língua não é apenas nossa", sustentou.

AG/AC

© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
No Sítio da RTP, 2008-04-07 12:35:02

terça-feira, 8 de abril de 2008

Gilberto Gil e o Acordo Ortográfico

Gilberto Gil: os portugueses "são mais ciosos da língua"

08.04.2008 - 15h15 Lusa - O ministro da Cultura do Brasil, Gilberto Gil, afirmou que, tal como em Portugal, também se discute no Brasil o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, mas considera que os portugueses "são mais ciosos da língua".

Numa entrevista publicada na edição de hoje do "Diário de Notícias", o governante e músico brasileiro considera que "é impossível continuar a viver esta língua sem um novo" Acordo Ortográfico.

"É uma boa oportunidade para que a língua se resguarde relativamente aos impactos que vai sofrendo das outras línguas, aquelas que internacionalmente são mais dominantes", sustentou Gilberto Gil.

Para o ministro brasileiro, apesar de haver "muita gente céptica em relação às mudanças (...) é preciso ter coragem de renovar estas situações".

Recordou que, aos 65 anos, já passou por duas revisões da língua portuguesa, que "de alguma forma, desorganizaram todo o mundo referencial que acompanhava a linguagem do quotidiano, organizando-o de maneira diferente".

"É isso que vai voltar a acontecer. Interfere nas questões propriamente técnicas e formais da língua, como a acentuação ou a pontuação. Cria problemas novos, como o desaparecimento do trema. Os usuários da língua vão estranhar várias coisas, sobretudo as relacionadas com a sonoridade, a fonética da língua", apontou.

Comentou, na entrevista, que o músico e cantor brasileiro Caetano Veloso "fez críticas muito contundentes ao Acordo em relação a questões de pontuação e acentuação. Ele acha que muitas confusões vão surgir, como por exemplo no caso da letra `u´ sem o trema. Na palavra distinguir, por exemplo, vamos ler ou não o u?".

No entanto, Gilberto Gil considera que "é preciso experimentar" porque: "o Acordo nasce de uma necessidade, de uma demanda. Acredito que devemos vivenciá-lo, vamos viver essa língua através das novas regras. Aí, então saberemos se elas vieram para melhor ou para pior".

"(...) é natural que, de tempos a tempos, os usuários da língua e, sobretudo os mais exigentes, requeiram uma necessária revisão ortográfica. Que implica também uma saudável revisão da fala", opinou.

Na segunda-feira, na Assembleia da República, em Lisboa, deputados, embaixadores e linguístas fizeram intervenções contra e a favor do Acordo Ortográfico numa conferência internacional/audição pública organizada pela comissão parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura.

Lusa/PÚBLICO Online, 8/04/2008

A LÍNGUA PORTUGUESA

A discussão sobre a oportunidade e validade do Acordo Ortográfico tem posto em evidência que ninguém é dono da língua, pelo que não haverá nenhum acordo que impeça evoluções desencontradas.

O conceito que tem circulado em algumas das intervenções, e que parece ajustado à natureza das coisas, é o que sustenta que a língua não é apenas nossa, também é nossa.

É por isso que acordos, declarações, tratados, são certamente adjuvantes de uma política que mantenha a identidade essencial, mas nenhum terá força vinculativa suficiente para evitar que as divergências surjam pelas tão diferentes latitudes em que a língua portuguesa foi instrumento da soberania, da evangelização, do comércio.

Existem locais onde os factos tornaram evidente que a língua não resiste à falta de utilidade para os povos que estiverem abrangidos por qualquer daquelas actividades, e por isso o português sofre dessa erosão no longínquo Oriente do primeiro império, tem marcas pequenas em Macau, luta com o passado apagador da língua pela ocupação de Timor pelo invasor e também com os interesses da Austrália pela expansão da língua inglesa, vai enfraquecendo em Goa.

O critério da utilidade para os povos talvez por isso não seja dispensável no discurso dos procedimentos a adoptar para que o essencial seja uma preocupação e empenho constante dos governos que têm a língua portuguesa como língua oficial, cada um sabendo que não é sua, é apenas também sua.

Muito recentemente a ONU deu um sinal importante do interesse, com ligação ao número de países que, tendo assento no plenário da Assembleia Geral, falam português.No mês de Março, segundo foi anunciado, o sítio Web Know - Your Rights 2008.org seria tornado mais acessível a pessoas do mundo inteiro, e para isso utilizando oito línguas.

Tais línguas são inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, português, holandês e grego.

Esta decisão destina-se a apoiar mais de uma dezena de projectos para os quais se pede e espera a intervenção dos parceiros da organização, governos, parlamentos, ONG, e entidades particulares que aderiram em nome e proveito da sociedade civil transnacional em crescimento.

O interesse comum é muito mais dinamizador de iniciativas e práticas do que a obrigatoriedade assumida por tratados cuja debilidade directiva é logo evidenciada pelo método da entrada em vigor.

Talvez a maleabilidade das Declarações, que estão a ganhar relevo crescente nas relações internacionais, seja mais indicada para servir de apoio directivo a uma política persistente de identificação e defesa do interesse comum, do que a natureza imperativa dos tratados.

O ensino e a investigação, no espaço europeu em definição política acelerada, estão apoiados em Declarações que presidem ao desenvolvimento de redes cada vez mais sólidas, e não em tratados.

Foi esta consideração que inspirou a criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, em grande parte devido à percepção do Presidente José Sarney, atento às intervenções e discussões dessa matéria.

Tinha presente que a responsabilidade pela língua incumbia à Academia Brasileira de Letras, tal como em Portugal incumbe à Academia das Ciências.

Mas não faltaram observações de experientes das relações internacionais, e certamente nem todos com a mesma vivência das academias, no sentido de que os novos Estados de língua oficial portuguesa, que também deveram ao brasileiro embaixador Aparecido de Oliveira a criação da CPLP, não tinham nem a tradição, nem as vocações e recursos que os levassem a adoptar tal modelo.

O Instituto Internacional da Língua Portuguesa foi criado como centro de encontro entre iguais, para, identificando os interesses comuns, convergirem nas políticas destinadas a servir esses interesses, salvaguardando o instrumento insubstituível que é a língua.

Não parece ter acontecido que a inspiração do Instituto Internacional da Língua Portuguesa tenha sido revisitada, mas também não parece que o critério que orientou a sua criação deva ser ignorado.


Adriano Moreira, professor universitário
DN Online, 8/04/2008