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segunda-feira, 2 de junho de 2008

EM FAVOR DA REVISÃO DO ACORDO ORTOGRÁFICO: TRÊS ORDENS DE RAZÕES 'CULTURAIS'

Compreendo que o Governo português tem um compromisso político-diplomático, assumido em 2004 pelo Governo de então, que dificilmente lhe permitiria não ratificar o 2.º Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico, independentemente de discordâncias que porventura tenha quanto ao seu conteúdo. Certamente por isso, e não apenas por questões de carácter pragmático ligadas à sua implementação no terreno, a presente ratificação faz-se acompanhar do pedido de uma moratória de seis anos para a sua aplicação. Teria sido preferível pedir mais tempo, que, a meu ver, o Governo deveria aproveitar para procurar encontrar consenso diplomático com vista à revisão do Acordo.

E por que precisa ele de ser "emendado"? Por várias ordens de razões, todas culturais, em última análise:

1 - Por razões técnico-linguísticas e culturais:

Como já foi abundantemente demonstrado pela comunidade linguística, pelo menos desde 1990, o Acordo manifesta inúmeras fragilidades. Relevo apenas dois aspectos:

a) O facto de acabar por nem sequer se revelar uma "versão fraca" de unificação ortográfica, como se pretendia, mas antes uma versão permissiva, erigindo o princípio da facultatividade excessiva, o qual vai contra o próprio conceito normativo de ortografia, originando nomeadamente a possibilidade do uso de duplas grafias dentro do mesmo país, isto é, abrindo a porta à heterografia.

b) O facto de recorrer a uma diversidade de critérios na simplificação de preceitos ortográficos, com forte desrespeito pela dimensão patrimonial da língua, nomeadamente a sua dimensão histórica etimológica; ora a língua, é bom lembrá-lo, é definida na Lei de Bases do Património Cultural como um bem cultural, que, portanto, importa preservar e salvaguardar.

2 - Por razões político-diplomáticas e culturais:

Quase vinte anos volvidos sobre o Acordo e num quadro bem distinto no seio da CPLP, no que à situação político-social de Angola e Moçambique diz respeito e também no que ao caso particular de Timor se refere, impor-se-ia uma revisão do Acordo que atentasse à urgente necessidade de uma descrição linguística das variantes africanas do português, muito particularmente no caso daqueles dois países africanos que envolvem cerca de 30 milhões de falantes, cuja norma ortográfica é, recorde-se, a do português europeu. Uma tal descrição permitiria que o Acordo não se limitasse a ser o que na prática é, um acordo entre o Brasil e Portugal, mas um efectivo "acordo" entre pares.

Isso poderia ser acompanhado da garantia, hoje não assegurada, de que todos os países da CPLP, envolvidos numa vontade renovada, poriam o Acordo em funcionamento em simultâneo.

Ora, não estando garantida tal simultaneidade, como ficou claramente patenteado nas declarações do ministro da Cultura de Moçambique aquando da recente visita do nosso Presidente da República àquele país, corre-se o risco perverso de se transformar um instrumento que se quer estratégico de agregação num possível factor de desagregação com a eventual criação de outros blocos de variantes linguísticas que coloquem, por hipótese, Portugal e o Brasil de um lado e os PALOP de outro.

Acresce a tudo isto que, entre 1990 e hoje, não foi cumprido um objectivo estipulado pelo Acordo, prévio à sua entrada em vigor: a organização e publicação de um Vocabulário Técnico- -Científico que impedisse ou ajudasse a travar a forte deriva lexical que se vem sentindo entre a norma europeia e a brasileira.

3 - Por razões económicas e culturais:

A expansão internacional de uma língua não se faz nem por facilitações ortográficas bebidas em critérios fonéticos em detrimento de critérios etimológicos nem por unificações ortográficas estabelecidas por decreto, como as línguas inglesa ou francesa abundantemente revelam, mas sim pelos conteúdos que for capaz de veicular (através da literatura, da música, enfim da cultura). É por aí que passa uma verdadeira política de internacionalização de uma língua e não pelo logro da facilitação fonética da ortografia. Logro tanto maior quanto o critério acima referido da facultatividade vai criar maior dúvida grafémica em quem pretende aprender o português. Não será o Acordo que fará o português ganhar um único leitor, um só falante ou o direito a ser língua veicular num único forum internacional.

Acresce a este facto que o mercado do livro no espaço lusófono, e muito especialmente nos PALOP, tornar-se-á mais difícil de conquistar para a indústria editorial portuguesa e, consequentemente, os conteúdos culturais portugueses que os nossos livros veiculam terão mais dificuldade de penetração, designadamente ao nível das indústrias culturais e criativas, nos PALOP. Em síntese, a internacionalização da cultura portuguesa em África será mais difícil.

Estou ciente de que o bom senso político-cultural acabará por imperar através de acções concertadas que apelem à revisão do Acordo: revisão por certo desejada pela maioria dos linguistas e por todos quantos têm responsabilidades na defesa do património cultural; revisão com certeza esperada por alguns dos PALOP.

Isabel Pires de Lima,
professora universitária e deputada do PS

Diário de Notícias, 02-05-2008

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Maternidades dão orientações erradas para deitar os bebés

CARLA AGUIAR
PAULO SPRANGER

As maternidades portuguesas adoptam e recomendam práticas erradas no acompanhamento dos recém-nascidos, acusa o pediatra Mário Cordeiro. "É intrigante e perturbador constatar que 18 anos depois de existir uma orientação técnica da Direcção--Geral da Saúde a dizer que as crianças não se devem deitar de lado, porque isso aumenta para o dobro a probabilidade de morte súbita, mas de costas, profissionais de saúde continuem a recomendar essa prática", disse o médico ao DN.

Um estudo concluído no final do ano passado pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, baseado em inquérito às mães, a seguir à alta médica, constatou que "em 90% dos casos foi-lhes recomendado pelas enfermeiras que deitassem os bebés de lado".

Esta situação leva aquele pediatra a considerar que é preciso "questionar e responsabilizar os directores de serviço dos hospitais que não fazem um acompanhamento do modo como os profissionais estão a seguir as orientações técnicas e as evidências científicas". Felizmente - acrescentou - os pais, por intuição e porque procuram outras fontes de informação, nem sempre seguem essas recomendações. De outro modo e fazendo uma extrapolação a partir das estatísticas, "poderiam morrer 20 bebés por ano por morte súbita".

O pediatra participou ontem num debate promovido pela Pais & Filhos, no qual se questionou a prática de hospitais que não deixam o pai assistir ao parto. "Sei que há uma norma interna no Hospital Cuf Descobertas, por exemplo, em que nos casos de cesariana e epidural o pai não pode estar presente", disse ao DN.

Na mesma linha, o pedopsiquiatra Eduardo Sá considerou que as evidências científicas demonstram que "sempre que o pai está presente o trabalho de parto é menor, o mesmo acontecendo, até com melhores resultados, quando a mãe da grávida lá está". Em conclusão, "se as maternidades humanizarem o trabalho de parto ganha-se em saúde mental e reforça-se a ligação entre pai e filho".

No debate, subordinado ao tema "Nascer em Portugal: sofrimento ou prazer", os especialistas questionaram ainda a hipermedicalização do parto e o excessivo recurso às cesarianas que, em Portugal, representam 34% dos partos (nos hospitais privados chega mesmo aos 60%), quando a média europeia se fixa nos 25% e a Organização Mundial de Saúde recomenda que não se ultrapasse a meta dos 10 a 15%. O médico Diogo Aires de Campos apontou as vantagens do banho de imersão na primeira fase do parto e criticou a utilização sistemática dos clisters e das episiotomias.

DN Online, 29-05-2008

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Onde está o lado certo?

José Sócrates fuma nos aviões e, acaso, fora deles; Sarkozy é muito dado às pequenas; Gordon Brown rói as unhas; o filho da princesa Ana de Inglaterra casou-se com uma canadiana; Hugo Chávez perdoou a Espanha a grosseria de El-Rei; a actriz Ellen Degeneres anunciou a felicidade que a inunda, pois vai trocar alianças matrimoniais com Portia de Rossi, a companheira de mesa e de leito; Campos e Cunha, economista, professor e antigo ministro, amolga o carácter de Manuela Ferreira Leite, acusando-a de "esfaqueamento" pelas costas; Pedro Santana Lopes qualifica a referida senhora de "deprimente"; Bush revela-se um pouco alarmado com a América Latina, "demasiado vermelha"; o PSD parece um saco de gatos, mas três "cientistas políticos", Marina Costa Lobo, André Freire e António Costa Pinto sossegam o nosso alvoroçado espírito, afiançando ser "normal" a crise naquele partido, o qual não corre "perigo de extinção"; em escassos cinco dias o preço dos combustíveis subiu duas vezes, e o admirável ministro Teixeira dos Santos declama, à posteridade, que "temos de nos habituar"; enfim, o dr. Bagão Félix publicou um livro de contos, O Cacto e a Rosa, por ele próprio definido como "histórias mais ficcionalmente reais do que realmente ficcionadas".

Há, em todas estas notícias, um discreto fio que as une e, até, explica: a vacuidade, com a aparência de seriedade, em que se tornaram as sociedades nossas contemporâneas. São os caprichos do momento convertidos, pela imprensa, as rádios e as televisões, nas falsas evidências da razão. E embora saibamos (alguns) que o tempo é mais importante do que aquilo que com ele fazemos, estamos a aceitar o temporário como definitivo, e a não compreender que a vida é um permanente processo de correcção.

Vivemos, desde a década de 80, um novo período de sufocação, que se manifesta em vários sectores: desemprego, emigração, esvaziamento ideológico e ausência da política, economia, justiça, cultura, educação. Há, hoje, dificuldade em escolher o que se julga ser o lado certo onde se deve estar. E essa dificuldade serve de pretexto para as mais vis renúncias, e de condescendência para com sórdidas traições.

Inculcaram-nos a ideia de que Portugal é inviável e de que somos um povo de madraços. Como já poucos lêem o que deve ser lido, a afirmação fez fé. Mas não corresponde à verdade. Recomendo aos meus dilectos alguns autores antagonistas da absurda tese: Vitorino de Magalhães Godinho, José Mattoso, Luís de Albuquerque, António Borges Coelho e, até, António José Saraiva. Todos interpelam o País, criticam-no porque o amam, e ensinam-nos que o passado altera-se de todas as vezes que o lemos e interrogamos.

O lado certo está, creio-o bem, quando recusamos a indiferença e não admitimos a resignação.

Baptista-Bastos, escritor e jornalista
b.bastos@netcabo.pt

Diário de Notícias, 21-05-2008

O bater de asa da borboleta (2)

Do KKK a apoiante de Obama

As primárias democratas de ontem no Kentucky e no Oregon devem ter deixado (escrevo antes do fecho das urnas) tudo na mesma: Obama mais vencedor, mas não dando tudo por acabado para não parecer que empurra Hillary borda fora. Dá-lhe tempo para ela poder salvar a face. Em todo o caso, esta semana já teve um episódio bem mais interessante do que aquelas duas eleições. Na 2.ª-feira, Barack Obama recebeu o apoio do senador pela Virgínia Ocidental Robert C. Byrd, de 91 anos. Este não é um senador qualquer, e não só por ter o mais longo mandato da história do Senado americano, para onde foi eleito há 49 anos. Na sua juventude, Byrd foi membro da Ku-Klux-Klan. Já como eleito político, combateu a integração dos negros no exército ("nunca combaterei com um negro ao meu lado", disse, então). E, no Senado, votou contra as leis dos Direitos Cívicos. Agora, ele apoia Obama. O senador Robert C. Byrd é a imagem de uma coisa que é certa na América: esta é feita de mudança.

Ferreira Fernandes

Diário de Notícias, 21-05-2008