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quinta-feira, 29 de maio de 2008

O terramoto humano na China de filho único

O filho único

NÃO HÁ nada mais difícil do que escrever sobre a dor. Os pais seguram na mão as botas de futebol do filho único que enterraram num bocado de chão escapado ao terramoto de Sichuan. Num montinho de pedras e terra rala o pai e a mãe improvisam uma sepultura e um cerimonial. Junto da sepultura do filho depositam todos os objectos de que gostava, especialmente os brinquedos e as botas de futebol, e ajoelham como quem está num altar. O pai, dorido e lacrimoso, conta que o filho ficou enterrado vivo por baixo dos escombros da escola, toneladas de entulho e cimento, vigas, ferros retorcidos, pedras, vidros, onde os socorristas conseguiram escavar um buraco. A voz do filho vinha dos fundos da escuridão, ainda vivo, pedindo que o tirassem dali. Depois, o filho disse "pai, tenho fome" e morreu. Retiraram o corpo morto.

Devido à política do filho único da China, os pais tinham apenas este rapaz que, segundo a cultura chinesa, um dia os encheria de orgulho e tomaria conta deles quando fossem velhos. Na cara deles, desgostada e enrugada, avaliava-se a ausência de frescura. Tarde de mais para ter outro filho. Tinham perdido tudo no terramoto da China, a casa, as coisas, a vida, e, por cima da vida, o filho. Não queriam mudar de lugar, trocar de cidade, queriam ficar ali porque noutro lugar ninguém conseguiria entender a sua dor.

Deambulavam como fantasmas pelas ruínas onde tinham morado, dois corpos vivos no meio de cinzas e cadáveres onde os socorristas espalhavam incenso e amoníaco contra as doenças e a contaminação. Na escola onde o filho andava todos os alunos tinham morrido. Onde num dia tinha havido uma festa de fim de curso, no dia seguinte havia apenas corpos a apodrecer. Amoníaco e incenso.

O terramoto da China ou o ciclone da Birmânia remetem-nos para noções de perda que a nossa confortável vida desconhece. Embora tratemos muitas coisas como catástrofes naturais, o terrorismo, a guerra, as catástrofes naturais são situações terminais que podem afectar toda a gente, embora afectem mais os pobres e remediados do que os ricos. Lisboa já teve o seu terramoto, e tudo indicaria, se considerássemos os prémios altíssimos pedidos pelas companhias seguradoras "em caso de sismo", que teria o seu segundo terramoto.

Ao contrário da China, que teve capacidade de resposta para a catástrofe, a Birmânia mostrou a crueldade feérica de uma ditadura que recusa o auxílio internacional para se manter no poder e que faz um referendo em cima da catástrofe. Tal como a dor, este género de crueldade é difícil de descrever e classificar. De um dia para o outro, cem mil pessoas são esmagadas como um carreiro de formigas e ninguém sabe muito bem o que fazer ou dizer. Como ajudar.

A história individual acaba por comover mais do que a cavalgada dos números, 10 mil, 20 mil, 30 mil, 50 mil, 100 mil. Os números são abstractos e, na idade da indiferença, em que mastigamos o jantar junto com o sangue dos outros, os números deixaram de fazer sentido ou provocar emoção. O Iraque deglute-se antes da telenovela e do concurso. A história individual pertence ao jornalismo.

Resta o casal de chineses, ela sem conseguir dizer uma palavra, a voz engolida pelas lágrimas secas, uma mãe no limite da desolação, no deserto da humanidade, um pai segurando nas mãos os sapatos de treino, um pouco gastos nas pontas e nas solas, entortados, sapatos de rapaz activo e forte, sapatos de rapaz que pratica desporto e é imortal. E os dois escavando a terra com as mãos, para acomodar os pertences do filho, a despedida.

O que aconteceu na China e na Birmânia é-nos apresentado em rodapé como um problema de escala. Algum jornalismo contemporâneo resolveu reduzir a morte a uma estatística, e a contagem dos mortos daria a medida do acontecimento. A operação tem o efeito oposto, o de desumanizar a catástrofe, a morte, a destituição, a dor. Reduzida a números, a perda torna-se uma operação abstracta de aritmética. É nesta zona perigosa da assepsia dos sentimentos, com tanto medo que temos hoje de ser sentimentais, que entra o jornalismo de reportagem. Foca a luz onde ela deve ser focada, na história e não no kitsch histórico. O terramoto na China fica a ser aquele casal sem o único filho, as caras envelhecidas, as mãos magras, os peitos encovados, os olhos sem sono. Não existe maior secura do que esta, a da perda inconsolável.

O terramoto deu-nos um retrato da China muito diferente do que a China queria dar neste ano triunfal dos Olímpicos e dos atletas e medalhas. Um país solidário e eficaz no resgate. Deu-nos um retrato de uma parte da humanidade. A Birmânia, graças aos seus ditadores, nem a isso teve direito. Os jornalistas lá andam, escondidos, infiltrados, narrando e relatando com sobriedade. Nestes dias, o jornalismo volta, por momentos, a ser uma profissão nobre, e não lixo cínico e sensacionalista em que o converteram.

Clara Ferreira Alves

Expresso Online, 26-05-2008

sábado, 26 de abril de 2008

O dendê da Dadá

DEPOIS DO ORTOGRÁFICO talvez não fosse má ideia assinar um Acordo Gastronómico com o Brasil. Um acordo que pusesse o azeite de oliveira em concórdia com o azeite de dendê, ou óleo de dendê. Que dá pelo nome latino de Elaeais guineensis Jaquim, e descende de palmeira do Golfo da Guiné. Imaginem as possibilidades semânticas, fonéticas e ortográficas de jaquinzinhos fritos em óleo de Jaquim. O azeite de dendê é a base da comida baiana e os estômagos fracos e que não apreciem batuque e tambores, sol e mar, candomblé e búzios, mulatos e crioulos, devem evitar a Bahia-de-Todos-os-Santos. A todos os outros: Sorria, você está na Bahia. Sorrir é a actividade principal de Salvador. E a única e indispensável introdução à comida baiana e ao azeite de dendê tem de ser feita através do Sorriso da Dadá.

O Sorriso da Dadá é um restaurante, ou melhor, são vários restaurantes, todos da Dadá. A Dadá, que faz uma cozinha baiana à base de dendê (o óleo mais produzido e consumido no mundo), é a chamada lenda viva. A propósito de lendas, o dendezeiro foi metido dentro da paisagem natural do Brasil pelos traficantes de escravos, que começaram por plantá-lo na Bahia, o maior centro do negro comércio. E a propósito do verbo meter, se estiverem no Brasil nunca digam meter, que tem penetrantes conotações pornográficas, digam colocar.
Regressando à Dadá, de seu nome Aldacir dos Santos (só pode), ela veio do sertão vender acarajé nas ruas de Salvador, rodando a baiana, a saia branca cor de Iansã, deusa do vento que come acarajé. Dona Aldacir começou a servir sua comidinha no quintal da casa na favela do Alto das Pombas. No meio do varal de roupa estendida, hoje uma marca dos restaurantes, a Dadá sorria e servia acarajé, moqueca de camarão, bobó do dito, e quiçá a famosa mistura da Dadá, um guisado de tudo e de camarões e mexilhões que leva abacaxi, banana e gorgonzola. O segredo era o tempero da Dadá.

O restaurante mais fino da Dadá é o do Pelourinho, o Pelô, onde já comeram Hillary Clinton e o musical ministro Gil e onde ela serve umas moquecas variadas que incluem a minha favorita, siri catado com pitu. Digam comigo: "Ir na Dadá do Pelô comer uma moqueca de siri mole catado com pitu." Pornográfico. A comida é pornograficamente deliciosa. O restaurante menos fino da Dadá, e o mais verdadeiro, é o da favela, que fica no bairro da Federação. Como diz a Paula Oliveira Ribeiro, a brasileira mais portuguesa que conheço, e directora da revista "Up" (em brasileiro seria Puxa prá Cima) só mesmo o Brasil para ter um bairro chamado Federação. Graças a ela e a uma baiana, a grande (em todos sentidos) Alicia Fábio, que organiza o melhor réveillon do mundo e o melhor camarote de Carnaval baiano, o de Daniela Mercury, estreei-me no Alto das Pombas e comi a melhor comida do mundo que tenha por base o Jaquim dendê. A sala do banquete, cheia de mosquitos devoradores ao anoitecer, é ao ar livre e tem no canto uma Iemanjá rodeada de oferendas e de santos, para puxar para cima. Um deles, o esquálido e eremítico São Jerónimo, santo intelectual que nunca se esperou passear o leão ao lado da pulcritude de Iemanjá. Só o sincretismo baiano opera tais milagres.

Alicia, manobrando um charuto baiano do tamanho de avião, começou a mandar vir enquanto encomendava acarajés e alguns abará, acho, a um moço, pelo telefone. Você está com dinheiro? Então vá na não sei quantas e traga uns acarajés. É o melhor acarajé da Baía, Alicia dixit. A minha iniciação foi no acarajé da Conceição, há uns anos. Fiquei fã. A diferença entre o acarajé e o abará, feitos de miolo de feijão fradinho cozido sem casca, é que o primeiro é frito em azeite de dendê e o segundo é fervido em folha de bananeira. Sendo os dois servidos com molho de pimenta e camarão seco, ou com vatapá, caruru e salada. Veio um caldinho em casca de coco que sabia a calor e que ficou por identificar. Veio bobó de camarão, espessado com aipim, veio vatapá, veio moqueca. Pimentas várias. E a tal mistura da negra Dadá, que sorria num cartaz dos fundos mostrando o dente branco. A acompanhar, cerveja gelada e caipirinhas. No Pelô, teria pedido um puré de banana com gengibre. Dona Alicia não estava com finuras e encomendava entre dois aviões fumados a perfumar o ar livre. Mosquitos esvoaçavam como pombas no alto. Anoitecia na Baía, que todos os santos nos acudam. Por alturas do coro de mesa e do violão, dona Alicia imitava os portugueses em seu sotaque e cantava modinhas. Aí pintou um prato com negão e outro de croquetes de mandioca e coco. O negão é um bolo denso de chocolate negro e melaço, uma espécie de brigadeiro pesadão e forte, que se derrete na boca. No Pelô comi um dia uma sacanagem da Dadá, uma rosca de frutas. No Alto das Pombas, sacanagem não entrou. Não se pode ir a Salvador sem a Dadá e sem o dendê. Na rua, o menino chama um táxi e a favela não tem perigo para cliente dadá. Comida dos deuses, e não só de Iansã. Depois deste jantar, pode esticar o pernil em todos os sentidos, ou na cama, roncando, ou nos botecos, dançando. E sorria. Você está na Bahia. Acordemos pois.

Clara Ferreira Alves

Expresso, 19-04-2008