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sábado, 26 de abril de 2008

Bispo Lugo, presidente eleito do Paraguai

Fernando Lugo: Em nome dos desprotegidos

Durante anos, acompanhou de perto o sofrimento dos pobres e desprotegidos. Como bispo da região mais pobre do Paraguai, escutou os lamentos daqueles que nada têm e lutou ao seu lado contra as desigualdades enraizadas por mais de seis décadas de poder único do Partido Colorado, metade das quais sob a forma de ditadura militar. Sentindo que podia ir mais além, não hesitou em renunciar à sua condição de bispo para abraçar uma carreira política.

Fernando Lugo, conhecido como ‘o bispo dos pobres’, foi no passado fim-de-semana eleito presidente do Paraguai, pouco mais de um ano depois de decidir trocar o púlpito pelo palanque político. Nele residem as esperanças dos mais de três milhões de paraguaios que vivem na pobreza.

Há quem diga que a sua vitória foi um daqueles ‘milagres’ políticos que só acontecem na América Latina mas o que é certo é que não aconteceu por acaso. Quando decidiu despir a batina eclesiástica, Lugo sabia que tinha à espera um povo ávido de mudança e à procura de um ‘salvador’. Seis décadas de poder do Partido Colorado institucionalizaram a corrupção e o clientelismo, ao mesmo tempo que fomentaram a exclusão social de todos aqueles que não faziam parte da elite. O desastroso resultado foi o enriquecimento de alguns à custa do empobrecimento de muitos outros – segundo estimativas do próprio Governo, 38% da população não tem emprego ou está dependente da economia paralela e mais de metade dos paraguaios vivem na pobreza.

A VOZ DOS DESFAVORECIDOS

Esta era uma realidade que Fernando Lugo conhecia de perto.Durante mais de uma década foi bispo de SanPedro, a região mais pobre do país. Conviveu diariamente com os problemas dos agricultores pobres e dos sem-terra,tornando-se no seu porta-voz. Oriundo de umafamília perseguida pela ditadura – três irmãos foram obrigados a exilar-se e o pai foi preso mais de 20 vezes –, Lugo não era um completo estranho aos meandros da política mas só em Março de 2006 saltou para a ribalta nacional, quando liderou a maior manifestação de protesto contra as políticas sociais do presidente Nicanor Duarte. Semanas depois, recebeu uma petição assinada por mais de cem mil pessoas pedindo a sua candidatura à presidência. Num ápice, o ‘bispo dos pobres’ transformou-se no rosto da mudança desejada por milhões de paraguaios.

Dividido entre o apelo de Deus e o apelo do seu povo, escolheu o último. Em Dezembro do mesmo ano, anunciou a sua renúncia ao cargo de bispo para se candidatar à presidência. Os seus adversários políticos tentaram tudo para travar a sua candidatura mas nada resultou. O povo não se deixou intimidar e deu a Lugo uma vitória expressiva sobre a candidata do Partido Colorado, Blanca Avelar.

VATICANO ANALISA DESAFIO DE BISPO

A eleição de Lugo como presidente do Paraguai representa um sério dilema para a Igreja. Quando renunciou ao cargo de bispo, a Santa Sé recusou o pedido, lembrando que se tratava de um cargo vitalício. Mas os estatutos da Igreja proíbem um sacerdote de desempenhar funções políticas, razão pela qual Lugo foi suspenso. Depois de chegar a ameaçá-lo com a excomunhão por desobediência, o Vaticano afirmou nesta semana que a sua situação está a ser estudada. Por um lado, a Santa Sé não quer alienar os católicos paraguaios, mas por outro lado não pretende deixar passar incólome o desafio do bispo.

Recorde-se que Lugo, influenciado pela Teologia da Libertação nos seus tempos de missionário no Equador, coloca o combate à pobreza e às desigualdades sociais como primeira prioridade do seu mandato, que terá início em Agosto. O seu modelo, moderado e liberal, é inspirado no Brasil de Lula ou no Chile de Bachelet.

A FIGURA: O BISPO DOS POBRES

Fernando Lugo Méndez nasceu a 30 de Maio de 1951 em San Solano. Estudou numa escola católica, mas só ao 19 anos descobriu a sua vocação religiosa. Foi ordenado sacerdote em 1977, tendo trabalhado como missionário noEquador durante cinco anos. Regressou ao Paraguai em 1982, mas foi expulso pelo regime, rumando ao Vaticano, onde prosseguiu os estudos religiosos. Em 1994 foi nomeado bispo de San Pedro, a diocese mais pobre do Paraguai, ficando conhecido como o ‘bispo dos pobres’.

Ricardo Ramos

Correio da Manhã, 26-04-2008

terça-feira, 22 de abril de 2008

Lugo vai renegociar a hidro-eléctrica de Itaipu com o Brasil

Paraguai/Eleições: Fernando Lugo vai renegociar Tratado da hidro-eléctrica de Itaipu com o Brasil

* * * Por José Peixe, enviado da agência Lusa * * *

Assunção, 21 Abr (Lusa) - Fernando Lugo, eleito presidente do Paraguai nas eleições de domingo, vai renegociar o tratado da hidoeléctrica de Itaipu com o Brasil. O governo de Lula da Silva recusa-se a fazer comentários sobre esta matéria, que pode provocar um aumento de dez por cento no preço da electricidade consumida no Brasil.

"Se o governo brasileiro renegociou o preço do gás natural com a Bolívia, nós também vamos ter que avaliar e renegociar o Tratado de Itaipu que foi assinado em 1973", afirmou Fernando Lugo durante a campanha eleitoral.

Para o presidente da central hidro-eléctrica de Itaipu, Jorge Sanek, "não existe qualquer possibilidade de se fazerem alterações no Tratado que foi assinado entre os dois Estados, porque ele foi discutido no congresso dos países e é um tratado internacional".

Jorge Sanek esteve presente no casamento da filha da ministra da Casa Civil de Lula da Silva, Dilma Roussef, em Porto Alegre, na sexta feira.

Numa entrevista exclusiva ao jornal "Zero Hora", Jorge Sanek afirmou que "o Tratado de Itaipu que foi assinado entre o Paraguai e o Brasil deu certo e, até 2060, o Paraguai é o único país do mundo que não terá problemas energéticos".

O Tratado de Itaipu foi assinado em 1973 mas a central hidro-eléctrica só ficou pronta para produzir energia em 1984. O Brasil e o Paraguai têm acesso cada um a cinquenta por cento da energia produzida em Itaipu - mas foi Brasília que garantiu o financiamento total da obra.

A contrapartida garantida no Tratado foi o Paraguai vender o excedente da sua energia eléctrica ao Brasil até 2023 pelo custo do preço de produção.

Actualmente, o Brasil cobra 23 Euros por quilowatt/hora, enquanto no mercado aberto a cotação ultrapassa os 48 Euros.

Em 2007, a hidroeléctrica de Itaipu produziu 90,62 milhões de magawatts/hora, o que corresponde a 19 por cento de todo o consumo de electricidade do Brasil e 91 por cento do consumo energético do Paraguai.

Itaipu é a segunda maior central hidro-eléctrica do mundo, com uma potência nominal de 14 mil megawatts e possuindo 20 turbinas geradoras de energia - cada uma delas dará para produzir energia suficiente para uma cidade com as dimensões de Lisboa.

Depois de saber os resultados oficiais das eleições presidenciais, Fernando Lugo disse aos jornalistas que "chegou a hora de o Paraguai ser reconhecido internacionalmente como um país democrático e não como o país mais corrupto da América do Sul".

A posse de Fernando Lugo como o novo presidente do Paraguai está agendada para 15 de Agosto. Lula da Silva vai tentar encontrar-se com o ex-bispo católico antes dessa data.

JVP.

Lusa/Fim

Paraguai: Presidente eleito pode contar com o apoio do Brasil - Lula da Silva

Brasília, 21 Abr (Lusa) - O presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, poderá contar com o apoio do actual governo brasileiro, garantiu o chefe de Estado do Brasil, Lula da Silva, em mensagem enviada hoje ao ex-bispo católico que saiu vitorioso das eleições de domingo.

"No período de mudanças que se anuncia, Vossa Excelência poderá contar com o apoio solidário e a amizade do Brasil e do meu Governo", diz a mensagem de Lula da Silva, enviada de Acra, onde participa na XII Conferência da Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD).

Lula da Silva felicitou Fernando Lugo pela vitória e apresentou "calorosos votos de êxito à frente dos destinos do Paraguai".

Na avaliação do sociólogo e analista político brasileiro António Flávio Testa, a eleição de Lugo não vai representar qualquer crise na relação entre o Brasil e o Paraguai.

"A economia paraguaia está muito interligada à brasileira e Lugo vai querer aproximar-se do Brasil", afirmou o Professor da Universidade de Brasília (UnB) à agência Lusa .

Questionado sobre as propostas do candidato da Aliança Patriótica para a Mudança (APC) em relação à revisão do contrato de Itaipu com o Brasil e aos chamados "brasiguaios", António Testa acredita que Brasília vai negociar bem estes dois pontos com o Paraguai.

"Da mesma forma que o Brasil superou a crise com a Bolívia de forma equilibrada, vai negociar com o Paraguai para atender às suas reivindicações sem ferir a soberania brasileira. O Itamaraty (sede do Ministério das Relações Exteriores) faz esse tipo de negociações com competência", salientou.

Durante a campanha eleitoral, Lugo disse que fará a revisão do contrato, assinado em 1973, que dispõe sobre a energia eléctrica produzida pela Usina Binacional de Itaipu, na fronteira do Paraná com o Paraguai.

Segundo o acordo, a hidro-eléctrica pertence igualmente aos dois países mas mais de 90 por cento da energia produzida é absorvida pelo Brasil, que compra o excedente ao Paraguai.

A reclamação de Lugo é que a energia vendida pelos paraguaios está com um preço muito aquém de mercado, o que prejudica a já debilitada economia do país.

Outro ponto enfatizado por Fernando Lugo é a reforma agrária, o que poderá atingir muitos brasileiros que vivem no Paraguai.

Estima-se que o número dos "brasiguaios" actualmente ultrapasse os 300 mil, sendo que a maioria são donos de grandes fazendas de soja e de gado.

"O Brasil vai negociar um preço mais justo para a energia que compra aos paraguaios e deverá haver também uma negociação para a legalização dos brasiguaios, já que as empresas de agro-business interessam à estrutura fundiária do país", destacou Testa.

"Os problemas mais sérios entre os dois países não são estes e sim a regularização do comércio, com o combate à pirataria e o combate ao narcotráfico, que têm interesse mundial", acrescentou.

Para o Professor da UnB, Lugo assemelha-se ao presidente da Bolívia, Evo Morales, e vai fazer diferença no jogo político do Paraguai, onde conseguiu reunir na APC nove partidos políticos e 20 organizações sociais para pôr fim à maior hegemonia de uma aliança partidária (Colorado) no mundo.

CMC.

RTP, 21/04/2008

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Lugo, o bispo eleito presidente do Paraguai

Bispo suspenso pelo Vaticano é o novo presidente do Paraguai

O Bispo paraguaio D. Fernando Lugo venceu ontem as eleições presidenciais no país sul-americano, colocando um ponto final a 61 anos de poder absoluto do Partido Colorado. O prelado foi o candidato da coligação de esquerda Aliança Patriótica, que representa 11 sindicatos de trabalhadores e grupos indígenas.

Considerado como o “Bispo dos pobres”, D. Lugo fora líder do movimento “Tekojoja” (igualdade, na língua guarani) e tinha vindo a afirmar-se como forte opositor do antigo presidente, Duarte Frutos, com destaque para uma manifestação de 40 mil pessoas que levou às ruas no ano de 2006.

No discurso de vitória, Fernando Lugo afirmou que "agora pode dizer-se que os pequenos também podem vencer".

Esta eleição representa um problema interno para a Igreja, dado que Lugo está suspenso pelo Vaticano, após ter sido recusado o pedido de renúncia que o prelado apresentara, assinalando que a condição episcopal, uma vez assumida, é para toda a vida.

O Direito Canónico determina que a renúncia apresentada por um Bispo possa ser concedida ou negada pelo Papa, que poderá ainda optar por suspendê-lo, como aconteceu com D. Fernando Lugo.

O presidente da Conferência Episcopal local, D. Ignacio Gogorza, já afirmou que este problema será tratado pessoalmente pelo Papa, anunciando que “haverá novidades provenientes da Santa Sé”.

O segundo parágrafo do Cânone 287 do Código de Direito Canónico proíbe os clérigos de tomarem “parte activa” em partidos políticos, admitindo excepções quando assim “o exija a defesa dos direitos da Igreja ou a promoção do bem comum”, a juízo da autoridade eclesiástica.

A suspensão "a divinis", que se aplica neste caso, significa que o Bispo "permanece no estado clerical e continua obrigado aos deveres a ele inerentes, embora suspenso do ministério sagrado".

Agência Eclésia, 21/04/2008

Paraguai: Eleição de Lugo e a Reforma Agrária

Paraguai/Eleições: Brasileiros receiam Reforma Agrária a aplicar por presidente Fernando Lugo

** José Peixe, para a agência Lusa **

Assunção, 21 Abr (Lusa) - O novo presidente paraguaio, Fernando Lugo Méndez, eleito domingo, promete levar por diante a Reforma Agrária que tanto agitou a campanha eleitoral, mas os cidadãos brasileiros estão receosos do que possa acontecer.

"Estou feliz pelo facto de ter sido um ex-bispo a vencer as eleições, mas temo que quando ele chegar ao Palácio de López, inicie uma Reforma Agrária que possa pôr em causa muitas famílias de agricultores brasileiros que vivem no Paraguai", afirmou à Lusa o empresário brasileiro Luis Fernando Silva.

"Não podemos esquecer que os milhares de brasileiros que vivem aqui no Paraguai são muito importantes para a economia, a agricultura e o desenvolvimento do país", sublinhou o empresário, natural da Foz do Iguaçú.

Fernando Lugo prometeu aos eleitores que, se fosse eleito presidente do Paraguai, iria "resolver a disputa silenciosa que tem vindo a ganhar corpo e está a ser travada na fronteira com o Brasil, na região de Mato Grosso do Sul".

Têm-se agravado nos últimos tempos os conflitos entre os sem terra paraguaios, plantadores de cannabis, e os chamados "brasiguaios", agricultores do Sul do Brasil que imigraram para o Paraguai e plantam soja, pela posse de terras naquela região.

Nos últimos dias da campanha eleitoral, algumas propriedades de "brasiguaios" foram queimadas pelos plantadores de cannabis na região de Capitán Bado, zona bem conhecida do novo presidente do Paraguai, uma vez que Fernando Lugo foi bispo em San Pedro.

Numa conferência de imprensa na sexta-feira, Fernando Lugo recordou que é "um profundo conhecedor das causas agrárias do Paraguai" e que "as promessas eleitorais são para ser cumpridas".

"Existem três mil índios guaranis desalojados no território paraguaio e a maioria deles está justamente na fronteira do Paraguai com o Estado brasileiro de Mato Grosso do Sul e nós não podemos a ignorar esta situação", afirmou Fernando Lugo.

O ex-bispo católico aproveitou a presença de muitos jornalistas brasileiros para dizer que "a Reforma Agrária que iremos implantar no Paraguai não significa apenas dar terra a quem não a tem".

"Se ganharmos, iremos montar um projecto agrário semelhante ao que está a ser desenvolvido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) no Brasil", explicou o candidato da Aliança Patriótica para a Mudança e presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo.

© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
2008-04-21 11:04:55