terça-feira, 29 de abril de 2008

Rendição 'protocolar' de Gastão Salsinha

Gastão Salsinha e grupo rebelde que atacou Ramos-Horta rendem-se em Díli

O tenente Gastão Salsinha entregou-se com outros 11 rebeldes no Palácio do Governo de Timor-Leste, colocando um ponto final ao processo de rendição. O Presidente Ramos-Horta, alvo de um ataque deste grupo, perdoou os revoltosos mas disse-lhes que agora terão de enfrentar a justiça.

O tenente Salsinha e 11 homens por si liderados chegaram ao Palácio vestidos com uniforme militar e rodeados de apertadas medidas de segurança. A rendição do grupo, que entregou as armas às autoridades, realizou-se na presença do Presidente José Ramos-Horta, do presidente do Parlamento Fernando Lasama de Araújo e do representante das Nações Unidas Atul Khare.

Gastão Salsinha, tenente irradiado do Exército timorense, era um dos homens mais procurados no país desde o duplo atentado de 11 de Fevereiro contra o Presidente Ramos-Horta e o primeiro-ministro Xanana Gusmão. A rendição foi negociada no seu bastião de Ermera no final da semana passada.

O Presidente timorense fez hoje questão de falar directamente com o grupo dos revoltosos para dizer a Gastão Salsinha e Marcelo Caetano - o homem que afirma ter sido autor dos disparos que o feriram com gravidade no ataque de Fevereiro - que lhes perdoa "como cristão" e que a partir de agora ficarão nas mãos da justiça.

"Em relação até à pessoa que tentou assassinar-me, perdoo como cristão, como ser humano. Como chefe de Estado (disse-lhe que) ele tem que enfrentar a justiça", afirmou o Presidente Ramos-Horta numa breve comunicação ao jornalistas ainda no Palácio do Governo.

"Eu disse apenas que a justiça tem que ser feita e têm que ser eles próprios a ir a tribunal e explicar o porquê da sua acção no 11 de Fevereiro, mas também quem lhes deu as armas, uniformes, dinheiro, meios de comunicação, telefones, ao longo desses meses todos", explicou José Ramos-Horta.

O grupo de Gastão Salsinha chegou a Díli numa coluna de dezena e meia de viaturas militares das Forças de Defesa e da Polícia Nacional de Timor-Leste, unidades especiais da Polícia Nacional, o procurador-geral da República e a sua segurança pessoal, a GNR e as Força Internacional de Estabilização (ISF). Durante o decorrer da cerimónia de rendição, a ISF manteve frente ao Palácio do Governo um helicóptero Blackhawk.

Paulo Alexandre Amaral, RTP
Rádio TSF Online, 2008-04-29 09:28:50

domingo, 27 de abril de 2008

Governo PS: Avaliar pela quantidade

A quantidade não pode ser o único critério

Quando se trata de avaliar o trabalho de uma pessoa, a quantidade é apenas um dos critérios - e o menos importante quando comparado com a qualidade. O busílis dos processos de avaliação reside exactamente neste pressuposto. A quantidade é um dado objectivo facilmente mensurável. A qualidade não.

Este princípio basilar, que é o alfa e o ómega na avaliação das empresas privadas, tem de ser levado em conta pelo Estado nesta hora em que acertadamente decidiu que não é justo tratar da mesma maneira todos os trabalhadores que fazem parte da sua lista de pagamentos. Os que produzem mais e melhor têm de ser premiados e os que se esforçam pouco devem ser penalizados.

Num sector particularmente crítico, o da investigação criminal, o Governo prepara-se para introduzir um critério essencialmente quantitativo na avaliação dos 1330 inspectores da Polícia Judiciária, o que deve ser olhado com apreensão pelos cidadãos dadas as consequências gravosas que se adivinham. O Ministério da Justiça está a preparar um novo sistema de avaliação, a apresentar até Outubro, na Assembleia da República, que favorece a progressão na carreira dos inspectores que maior quantidade de acusações conseguirem.

Este primado da quantidade é completamente injusto e perigoso, como nota Carlos Anjos, o presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal. Carlos Anjos lembra que ele e outros inspectores estiveram cerca de dois anos a investigar um único e denso caso de crime económico (Portucale), ao lado de colegas que no mesmo período de tempo despacharam dezenas de processos mais fáceis de investigar.

Só este exemplo basta para obrigar o ministro Alberto Costa a reflectir bem antes de apresentar no Parlamento a proposta de novo sistema de avaliação dos inspectores da PJ.

sábado, 26 de abril de 2008

O dendê da Dadá

DEPOIS DO ORTOGRÁFICO talvez não fosse má ideia assinar um Acordo Gastronómico com o Brasil. Um acordo que pusesse o azeite de oliveira em concórdia com o azeite de dendê, ou óleo de dendê. Que dá pelo nome latino de Elaeais guineensis Jaquim, e descende de palmeira do Golfo da Guiné. Imaginem as possibilidades semânticas, fonéticas e ortográficas de jaquinzinhos fritos em óleo de Jaquim. O azeite de dendê é a base da comida baiana e os estômagos fracos e que não apreciem batuque e tambores, sol e mar, candomblé e búzios, mulatos e crioulos, devem evitar a Bahia-de-Todos-os-Santos. A todos os outros: Sorria, você está na Bahia. Sorrir é a actividade principal de Salvador. E a única e indispensável introdução à comida baiana e ao azeite de dendê tem de ser feita através do Sorriso da Dadá.

O Sorriso da Dadá é um restaurante, ou melhor, são vários restaurantes, todos da Dadá. A Dadá, que faz uma cozinha baiana à base de dendê (o óleo mais produzido e consumido no mundo), é a chamada lenda viva. A propósito de lendas, o dendezeiro foi metido dentro da paisagem natural do Brasil pelos traficantes de escravos, que começaram por plantá-lo na Bahia, o maior centro do negro comércio. E a propósito do verbo meter, se estiverem no Brasil nunca digam meter, que tem penetrantes conotações pornográficas, digam colocar.
Regressando à Dadá, de seu nome Aldacir dos Santos (só pode), ela veio do sertão vender acarajé nas ruas de Salvador, rodando a baiana, a saia branca cor de Iansã, deusa do vento que come acarajé. Dona Aldacir começou a servir sua comidinha no quintal da casa na favela do Alto das Pombas. No meio do varal de roupa estendida, hoje uma marca dos restaurantes, a Dadá sorria e servia acarajé, moqueca de camarão, bobó do dito, e quiçá a famosa mistura da Dadá, um guisado de tudo e de camarões e mexilhões que leva abacaxi, banana e gorgonzola. O segredo era o tempero da Dadá.

O restaurante mais fino da Dadá é o do Pelourinho, o Pelô, onde já comeram Hillary Clinton e o musical ministro Gil e onde ela serve umas moquecas variadas que incluem a minha favorita, siri catado com pitu. Digam comigo: "Ir na Dadá do Pelô comer uma moqueca de siri mole catado com pitu." Pornográfico. A comida é pornograficamente deliciosa. O restaurante menos fino da Dadá, e o mais verdadeiro, é o da favela, que fica no bairro da Federação. Como diz a Paula Oliveira Ribeiro, a brasileira mais portuguesa que conheço, e directora da revista "Up" (em brasileiro seria Puxa prá Cima) só mesmo o Brasil para ter um bairro chamado Federação. Graças a ela e a uma baiana, a grande (em todos sentidos) Alicia Fábio, que organiza o melhor réveillon do mundo e o melhor camarote de Carnaval baiano, o de Daniela Mercury, estreei-me no Alto das Pombas e comi a melhor comida do mundo que tenha por base o Jaquim dendê. A sala do banquete, cheia de mosquitos devoradores ao anoitecer, é ao ar livre e tem no canto uma Iemanjá rodeada de oferendas e de santos, para puxar para cima. Um deles, o esquálido e eremítico São Jerónimo, santo intelectual que nunca se esperou passear o leão ao lado da pulcritude de Iemanjá. Só o sincretismo baiano opera tais milagres.

Alicia, manobrando um charuto baiano do tamanho de avião, começou a mandar vir enquanto encomendava acarajés e alguns abará, acho, a um moço, pelo telefone. Você está com dinheiro? Então vá na não sei quantas e traga uns acarajés. É o melhor acarajé da Baía, Alicia dixit. A minha iniciação foi no acarajé da Conceição, há uns anos. Fiquei fã. A diferença entre o acarajé e o abará, feitos de miolo de feijão fradinho cozido sem casca, é que o primeiro é frito em azeite de dendê e o segundo é fervido em folha de bananeira. Sendo os dois servidos com molho de pimenta e camarão seco, ou com vatapá, caruru e salada. Veio um caldinho em casca de coco que sabia a calor e que ficou por identificar. Veio bobó de camarão, espessado com aipim, veio vatapá, veio moqueca. Pimentas várias. E a tal mistura da negra Dadá, que sorria num cartaz dos fundos mostrando o dente branco. A acompanhar, cerveja gelada e caipirinhas. No Pelô, teria pedido um puré de banana com gengibre. Dona Alicia não estava com finuras e encomendava entre dois aviões fumados a perfumar o ar livre. Mosquitos esvoaçavam como pombas no alto. Anoitecia na Baía, que todos os santos nos acudam. Por alturas do coro de mesa e do violão, dona Alicia imitava os portugueses em seu sotaque e cantava modinhas. Aí pintou um prato com negão e outro de croquetes de mandioca e coco. O negão é um bolo denso de chocolate negro e melaço, uma espécie de brigadeiro pesadão e forte, que se derrete na boca. No Pelô comi um dia uma sacanagem da Dadá, uma rosca de frutas. No Alto das Pombas, sacanagem não entrou. Não se pode ir a Salvador sem a Dadá e sem o dendê. Na rua, o menino chama um táxi e a favela não tem perigo para cliente dadá. Comida dos deuses, e não só de Iansã. Depois deste jantar, pode esticar o pernil em todos os sentidos, ou na cama, roncando, ou nos botecos, dançando. E sorria. Você está na Bahia. Acordemos pois.

Clara Ferreira Alves

Expresso, 19-04-2008

Salsinha continua em Ermera

Timor-Leste: Salsinha continua em Ermera, nada mudou desde sexta-feira

Díli, 26 Abr (Lusa) - O ex-tenente timorense Gastão Salsinha, que na sexta-feira aceitou render-se às autoridades, permanence em Ermera, na região ocidental de Timor-Leste, numa casa sob controlo das Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste (F-FDTL).

"A situação não mudou desde sexta-feira. Demos mais um par de dias para a entrega das armas e do resto do grupo", afirmou à Agência Lusa uma fonte que acompanha as negociações.

O ex-líder dos peticionários das Forças Armadas aceitou render-se após reuniões que envolveram a Presidência da República, elementos das forças de segurança timorenses, da Igreja Católica e líderes locais.

"Salsinha não tem as armas mas não as entregou (às autoridades). Não está preso mas concordou em não abandonar a casa onde está instalado", disse hoje uma fonte internacional à Lusa.

Não foi feita nenhuma declaração oficial sobre a situação de Gastão Salsinha nem sobre a data prevista para a concretização do acordo atingido na sexta-feira numa aldeia de Ermera.

Salsinha, líder do grupo rebelde que a 11 de Fevereiro atentou contra a vida do Presidente Ramos-Horta e do primeiro-ministro Xanana Gusmão, concordou "em não deixar a casa onde se encontra, até que o resto dos seus homens se juntem a ele", disse na sexta-feira à Lusa uma fonte oficial da ONU em Timor-Leste .

"A situação é muito parecida com o que aconteceu quando Gastão Salsinha concordou em entregar-se ao Procurador-Geral da República" há cerca de dois meses, comentou aquela fonte, que salientou o papel relevante da Igreja Católica, de políticos locais e da Procuradoria-Geral da República nas negociações com o chefe rebelde.

Até quinta-feira, estavam em prisão preventiva dez elementos do grupo de Gastão Salsinha e do major Alfredo Reinado, arguidos no processo do 11 de Fevereiro.

Angelita Pires, ex-assessora legal e namorada de Alfredo Reinado, está indiciada no mesmo processo, aguardando julgamento em liberdade mas com interdição de se ausentar do país.

Continuavam a monte 13 suspeitos com mandado de captura emitido, incluindo Gastão Salsinha, que lidera o grupo de fugitivos depois da morte do major Reinado no ataque à casa do Presidente José Ramos-Horta.

A operação Halibur de captura do grupo de Salsinha tem estado concentrada no distrito de Ermera.

No seu regresso a Timor-Leste, no passado dia 17, o Presidente da República, José Ramos-Horta, tinha ordenado ao ex-tenente Gastão Salsinha para se entregar e acabar com a sua "aventura".

"Deixe-se de aventuras. A vossa aventura e irresponsabilidade ao longo de meses já custou vidas", afirmou José Ramos-Horta na conferência de imprensa que deu no aeroporto internacional Nicolau Lobato, em Díli, dirigindo-se ao líder dos fugitivos ligados aos ataques de 11 de Fevereiro.

O Presidente fez, na ocasião, uma intervenção emocionada mas dura contra Gastão Salsinha e o major Alfredo Reinado, responsáveis pelos ataques contra José Ramos-Horta e o primeiro-ministro Xanana Gusmão.

José Ramos-Horta ficou gravemente ferido, o major Reinado morreu no ataque e o ex-tenente Salsinha fugiu com um grupo que agora está reduzido a cerca de 15 homens.

PRM.
Lusa/Expresso Online, 26-04-2008

Bispo Lugo, presidente eleito do Paraguai

Fernando Lugo: Em nome dos desprotegidos

Durante anos, acompanhou de perto o sofrimento dos pobres e desprotegidos. Como bispo da região mais pobre do Paraguai, escutou os lamentos daqueles que nada têm e lutou ao seu lado contra as desigualdades enraizadas por mais de seis décadas de poder único do Partido Colorado, metade das quais sob a forma de ditadura militar. Sentindo que podia ir mais além, não hesitou em renunciar à sua condição de bispo para abraçar uma carreira política.

Fernando Lugo, conhecido como ‘o bispo dos pobres’, foi no passado fim-de-semana eleito presidente do Paraguai, pouco mais de um ano depois de decidir trocar o púlpito pelo palanque político. Nele residem as esperanças dos mais de três milhões de paraguaios que vivem na pobreza.

Há quem diga que a sua vitória foi um daqueles ‘milagres’ políticos que só acontecem na América Latina mas o que é certo é que não aconteceu por acaso. Quando decidiu despir a batina eclesiástica, Lugo sabia que tinha à espera um povo ávido de mudança e à procura de um ‘salvador’. Seis décadas de poder do Partido Colorado institucionalizaram a corrupção e o clientelismo, ao mesmo tempo que fomentaram a exclusão social de todos aqueles que não faziam parte da elite. O desastroso resultado foi o enriquecimento de alguns à custa do empobrecimento de muitos outros – segundo estimativas do próprio Governo, 38% da população não tem emprego ou está dependente da economia paralela e mais de metade dos paraguaios vivem na pobreza.

A VOZ DOS DESFAVORECIDOS

Esta era uma realidade que Fernando Lugo conhecia de perto.Durante mais de uma década foi bispo de SanPedro, a região mais pobre do país. Conviveu diariamente com os problemas dos agricultores pobres e dos sem-terra,tornando-se no seu porta-voz. Oriundo de umafamília perseguida pela ditadura – três irmãos foram obrigados a exilar-se e o pai foi preso mais de 20 vezes –, Lugo não era um completo estranho aos meandros da política mas só em Março de 2006 saltou para a ribalta nacional, quando liderou a maior manifestação de protesto contra as políticas sociais do presidente Nicanor Duarte. Semanas depois, recebeu uma petição assinada por mais de cem mil pessoas pedindo a sua candidatura à presidência. Num ápice, o ‘bispo dos pobres’ transformou-se no rosto da mudança desejada por milhões de paraguaios.

Dividido entre o apelo de Deus e o apelo do seu povo, escolheu o último. Em Dezembro do mesmo ano, anunciou a sua renúncia ao cargo de bispo para se candidatar à presidência. Os seus adversários políticos tentaram tudo para travar a sua candidatura mas nada resultou. O povo não se deixou intimidar e deu a Lugo uma vitória expressiva sobre a candidata do Partido Colorado, Blanca Avelar.

VATICANO ANALISA DESAFIO DE BISPO

A eleição de Lugo como presidente do Paraguai representa um sério dilema para a Igreja. Quando renunciou ao cargo de bispo, a Santa Sé recusou o pedido, lembrando que se tratava de um cargo vitalício. Mas os estatutos da Igreja proíbem um sacerdote de desempenhar funções políticas, razão pela qual Lugo foi suspenso. Depois de chegar a ameaçá-lo com a excomunhão por desobediência, o Vaticano afirmou nesta semana que a sua situação está a ser estudada. Por um lado, a Santa Sé não quer alienar os católicos paraguaios, mas por outro lado não pretende deixar passar incólome o desafio do bispo.

Recorde-se que Lugo, influenciado pela Teologia da Libertação nos seus tempos de missionário no Equador, coloca o combate à pobreza e às desigualdades sociais como primeira prioridade do seu mandato, que terá início em Agosto. O seu modelo, moderado e liberal, é inspirado no Brasil de Lula ou no Chile de Bachelet.

A FIGURA: O BISPO DOS POBRES

Fernando Lugo Méndez nasceu a 30 de Maio de 1951 em San Solano. Estudou numa escola católica, mas só ao 19 anos descobriu a sua vocação religiosa. Foi ordenado sacerdote em 1977, tendo trabalhado como missionário noEquador durante cinco anos. Regressou ao Paraguai em 1982, mas foi expulso pelo regime, rumando ao Vaticano, onde prosseguiu os estudos religiosos. Em 1994 foi nomeado bispo de San Pedro, a diocese mais pobre do Paraguai, ficando conhecido como o ‘bispo dos pobres’.

Ricardo Ramos

Correio da Manhã, 26-04-2008

A exigência do mau-perdedor

Zimbabué: Recontagem dos votos confirma vantagem da oposição

A comissão eleitoral do Zimbabué divulgou os resultados de mais sete municípios em que os votos foram contados de novo. Mantém-se o cenário de vantagem para os rivais de Mugabe.

Há ainda dez municípios em que os votos estão a ser analisados uma segunda vez, mas torna-se agora obrigatório para o partido de Mugabe vencer em nove para reconquistar o poder na câmara baixa do parlamento do Zimbabué, perdido para a oposição de Morgan Tsvangirai.

Há quatro semanas que o Zimbabué aguarda pela divulgação dos resultados finais das eleições que parecem ter ditado o fim de 28 anos de Mugabe no poder.

A BBC, entretanto, fala da possibilidade de os resultados serem divulgados após a conclusão desta recontagem.

No terreno, os Estados Unidos afirmam que é agora elevado o nível de violência política contra os militantes da oposição, sendo difícil a realização de uma segunda volta em condições justas.

O Movimento para Mudança Democrática (MDC, em inglês), afirma que foram mortos 10 activistas desde as eleições. O líder Tsvangirai, temendo pela sua segurança no Zimbabué, continua em digressão por vários países africanos, onde tenta reunir apoios.

SOL com agências

SOL Online, 26/04/2008
______________________
O meu comentário: As estratégias do ditador Mugabe e as do aprendiz de ditador Alkatiri para se perpetuarem no poder são em tudo semelhantes: quando perdem as eleições insistem em novas eleições - volta para Zimbábue e antecipadas para Timor-Leste - até alcançarem a vitória, recorrendo a truques já nossos conhecidos desde intimidação e detenções arbitrárias e assassinatos dos opositores a fraude nas urnas.

Felícia Cabrita atrasou-se!

Há 39 minutos

Timor-Leste

Gastão Salsinha entregou-se há 2 dias

Por Felícia Cabrita

O homem que, supostamente em conivência com o major Alfredo Reinado, terá preparado o duplo atentado contra o Presidente da República e o primeiro-ministro de Timor-Leste, entregou-se anteontem às forças conjuntas. Com ele renderam-se mais três elementos: Valente (um dos elementos que terá estado na casa do PM no dia 11 de Fevereiro), José e André.

Tenente Gastão Salsinha, que desde 11 de Fevereiro terá andado a monte, vai ficar durante uma semana com a família na sua casa, a 15 quilómetros de Ermera.

Liquiceira, o homem mais poderoso de Ermera, que mediou o diálogo entre os revoltosos e o governo timorense, adianta ainda ao SOL que «ele vai precisar de descansar uma semana, para pensar naquilo que vai dizer à justiça».

Só se entregará depois, mas isto é ainda secreto.

Enquanto o tenente rebelde descansa, na sua agenda de hoje consta já a visita do presidente do parlamento, Fernando Lassama.

Como tem vindo a ser hábito, todos os homens envolvidos no atentado entegam-se primeiro ao primeiro-ministro, ou a outras figuras políticas, e só depois se apresentam aos magistrados do Ministério Público e ao juiz internacional Ivo Rosa.

Uma fonte ligada à investagação disse ao SOL que se trata de «mais um atropelamento a um orgão de soberania do Estado timorense, a Justiça».

«Este tipo de actuação permite que os arguidos pensem e concertem versões», afirmou.

SOL, 26/04/2008

felicia.cabrita@sol.pt

A política da língua e o Instituto Camões

"A língua é um instrumento de poder"

A presidente do Instituto Camões encomendou um estudo económico sobre a lingua portuguesa. "O Acordo Ortográfico não tem recuo", diz, em entrevista ao Expresso.

Luísa Meireles
1:00 Sexta-feira, 25 de Abr de 2008

Simonetta Luz Afonso: "A discussão sobre o Acordo Ortográfico é um bocadinho estéril"

O Instituto Camões encomendou um estudo para saber quanto vale a língua portuguesa. "É uma reacção a uma nova procura do português", diz a presidente do Instituto, Simonetta Luz Afonso, para quem é claro que as línguas têm um valor económico.

"Pedimos ao ISCTE que reunisse equipas multidisciplinares - economistas, financeiros, antropólogos, linguistas - para olhar para tudo o que acontece à volta à língua e dai tirar as conclusões do ponto de vista económico", afirmou. "Há indicadores de interesse manifesto por parte de pessoas que se estão a licenciar ou doutorar em áreas tão diversas como jornalismo, economia, finanças, ciência política, engenharia, que querem aprender português e cujas universidades nos contactam. Com o processo de Bolonha a funcionar, as pessoas têm de aprender línguas e o português é uma delas, o que significa que tem interesse como mais valia curricular para quem está a fazer cursos que não são estritamente na área das línguas".

Para Simonetta, este processo ocorre no mundo inteiro, desde a Europa, à Rússia, até à China, porque "a aldeia global é muito rápida". Na Europa, em particular, reforça, "há três línguas que servem para sair do continente: inglês, espanhol e português. Há toda uma nova dinâmica das línguas e o português tem de saber aproveitar esta oportunidade, que é de ouro. O português é falado em oito países do mundo em alguns dos quais a guerra acabou e a economia está a crescer, logo, com grandes oportunidades de negócio. Ao todo somos 230 milhões de falantes, um número importante e em crescimento (prevê-se que sejam 335 milhões em 2050)".

O estudo foi encomendado por dois anos, no primeiro do qual se estudarão as indústrias da língua, cujos resultados permitirão fazer depois um segundo trabalho sobre o valor económico da língua propriamente dito, que será para 2009.

Valor multiplicado por oito

"O valor económico da língua decorre do valor estratégico e o nosso é multiplicado por oito porque somos oito países com oito culturas em cinco continentes", declara ainda a presidente do IC. Por outro lado, o facto do Brasil ter optado o espanhol como primeira língua estrangeira e, reciprocamente, outros países da América Latina estarem a fazer do português a primeira língua estrangeira (Argentina, Uruguai, Venezuela) vai criando uma mancha de línguas ibéricas com muita força. "E este mercado não é despiciendo - o mundo de negócios anda à volta disto e a língua é fundamental para a comunicação".

Nesta tarefa, é o Instituto Camões quem forma os professores para ensinar a língua. "É isso que dá sustentabilidade à língua - formar gente que a conhece bem e só depois aprender a técnica de ensinar", realça a sua presidente. Por enquanto, só Portugal se encarrega dessa tarefa pois é o único a dispor de uma instituição desse tipo - o Brasil projecta um, mas ainda não está formalizado.

1ª cátedra em África

Simonetta Luz Afonso considera que "a língua pode ser um utensílio de poder. Os países com língua mais falada têm mais poder, tanto no negócio, como na cultura. E, juntos, têm mais poder do que sozinhos, como será o caso da CPLP".

O português pode não ter o mesmo valor estratégico para todos os oito membros da comunidade lusófona, mas algo significa o facto dele ter sido escolhido como língua oficial. "Em Angola foi um factor de união, em Moçambique mais ainda e alguns só se entendem nesses países porque falam português", sublinha Luz Afonso. "O curioso é que muitas previsões falharam. Dizia-se que Moçambique ia falar inglês quando aderiu à Commonwealth e o que se verificou é que, agora, há uma lança do português nessa comunidade".

"Estamos a fazer a primeira cátedra de português em África na Universidade de Mondlane, no Maputo, cujo objectivo é não só reunir os jovens, doutorados, licenciados e mestres, mas também formar gente que vai ensinar português como língua segunda e língua estrangeira em Africa. A Costa do Marfim, por exemplo, quer ter o português como primeira língua estrangeira e, no Senegal, há milhões a falar português", destaca a presidente do Instituto Camões. São moçambicanos também os actuais leitores na África do Sul e no Zimbabué.

Repto às empresas

Já em Timor, a situação é completamente diferente. "Estamos a ajudá-los a conseguir ter o português como língua oficial, partindo de uma base muito baixa", diz Simonetta, apontando que, naquele país, só os mais velhos falavam e, agora, os muito jovens. "Toda a camada do meio, não". A recuperação também está a ser feita com a ajuda do IC, que já criou uma licenciatura na universidade. "Estamos sempre a envolver os locais".

A presidente do Instituto Camões aproveita para lançar o repto às empresas. "Tenho pena que as empresas que fazem negócios no mundo da lusofonia não se empenhem mais nesta promoção e neste trabalho do ensino do português. Nós fazemos sozinhos, mas se eles vierem, poderíamos abranger um maior número de províncias", diz, lamentando que "a língua ainda não tenha entrado nos desígnios das empresas portuguesas".

China e Macau são também exemplos do aumento do interesse em aprender português. Em Macau, diz, "fala-se hoje mais e melhor português do que quando estava connosco. A região obriga todos os funcionários públicos a falar. Abriu-se um mercado e eles perceberam que podiam explorar essa oportunidade. É uma plataforma importantíssima para ligação aos PALOP e os chineses utilizam isso", destaca.

"Acordo Ortográfico não tem recuo"

E quanto ao Acordo Ortográfico, faz diferença?

Simonetta acha que não. "O acordo não tem recuo. O que se tem de ter em atenção é o facto de, neste momento, haver novos parceiros que têm uma palavra a dizer. Mas é uma discussão um bocadinho estéril", sublinha: "não me parece que o Acordo vá diminuir a importância do português, pelo contrário, abre-se mais na medida em que escrevemos todos da mesma maneira. Não falamos da mesma maneira, mas parece-me interessante unificar a escrita".

Mais, diz a presidente do IC: "o facto de escrevermos da mesma maneira pode facilitar, contrariamente ao que dizem os editores, a promoção do livro. Encontrar nichos de mercado e não chorar sobre leite derramado - que não há. Não haverá milhões de livros deitados ao lixo".

Simonetta considera que o Acordo deve ser discutido no âmbito da CPLP, independentemente de cada país debater sozinho. "Os países devem fazê-lo em conjunto, porque a língua é nossa, de todos. Cada um de nós se apropriou dela e deu-lhe as suas nuances. A nossa será a mais próxima do latim bárbaro, as outras foram-se distanciando, mas não ao ponto de não os entendermos. Conseguimos falar uns com os outros".

Trabalhar com a CPLP


Para aplicar uma política da língua, o fundamental - diz Simonetta - "é que todos trabalhemos no mesmo sentido, todos os que falam português. É importante que todos tenhamos consciência da importância e da riqueza do português para cada um e para todos. Em África estão muitos países e esse peso nota-se na procura do português pelas instituições africanas, a União Africana (UA), a SADEC, SADC. Era preciso que cada um de nós faça valer a importância da língua nas instâncias em que está representado. Nós fazemo-lo na União Europeia e trabalhamos para isso".
A presidente do Camões acrescenta que, até à Estratégia de Lisboa, "o português era sempre considerado uma pequena língua - e é-o na Europa - mas é uma grande língua no mundo, a par do inglês e do espanhol. É um momento fantástico e não podemos perder esse comboio".

Versão integral do texto publicado na edição do Expresso de 25 de Abril de 2008, 1.º Caderno, páginas 18 e 19.

Expresso Online, 25/04/2008

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Aprovado diploma de avaliação de professores

O Governo aprovou esta quinta-feira, em Conselho de Ministros, o novo decreto sobre avaliação de professores, que consagra o entendimento assinado quinta-feira passada entre o Ministério da Educação e sindicatos de professores. O novo sistema entrará em vigor, ainda este ano lectivo, para cerca de 7 mil professores.

O novo decreto não revoga o antigo, mas introduz normas transitórias, na sequência do entendimento entre as duas partes.

A avaliação docente, simplificada e aplicada de forma universal, terá em conta quatro factores: ficha de auto-avaliação, assiduidade, cumprimento do serviço distribuído e participação em acções de formação. Quanto às classificações, “regular” e “insuficiente” terão de ser confirmadas em nova avaliação no ano lectivo seguinte.

O decreto irá ainda criar uma comissão paritária, formada pela administração educativa e um representante de cada estrutura sindical, que irá supervisionar a aplicação do decreto e formular possíveis alterações.

Correia da Manhã, 24/04/2008

34º aniversário do 25 de Abril

Gastão Salsinha rendeu-se

Gastão Salsinha rendeu-se, hoje, 25/4, em Ermera, com três dos seus homens.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Rendição de mais dois rebeldes do grupo de Salsinha

Renderam-se, hoje, 24/4, mais dois rebeldes do grupo de Gastão Salsinha, o ex-tenente expulso das Forças de Defesa timorenses na sequência da deserção em massa de cerca de seiscentos soldados em Abril de 2006, alegando discriminação étnica.

Recorde-se que Gastão Salsinha comandou o grupo de rebeldes que atacou a coluna de viaturas do Primeiro-ministro timorense Xanana Gusmão, do qual Xanana saiu ileso apesar de a viatura em que seguia tenha sido atingida por vários tiros.

Do 'bulling' ao assédio moral

Psicóloga propõe reflexão sobre as agressões («mobbing») praticadas em meio laboral

Luísa Carrilho

É comum encontrar-se na literatura clássica e nas memórias dos estudantes ao longo dos tempos relatos de intimidação, abuso e maus-tratos, por parte dos colegas; o «bullying» é um fenómeno que existe desde sempre nas sociedades. Porém, este conceito só foi decidido e estudado nos anos setenta, na Noruega, por Dan Olweus. O autor definiu «bullying» como uso sitemático de violência física ou psicológica, por parte de um rapaz ou grupo de rapazes, contra outro rapaz. Mais recentemente, em 1991 redefiniu o seu conceito e concluiu que um «bully» crónico pode arrasar a vida de outro, tanto a nível físico como psicológico. Em Portugal, os estudos de Pereira e col. (1996), revelaram que na zona Norte do país 21% das crianças, entre os 7 e os 12 anos nunca foram agredidas, 73% são agredidas às vezes e 5% muitas vezes. Observou-se, ainda, que em cada cinco crianças, uma foi vítima dos colegas três ou mais vezes no período.

A crescente visibilidade deste fenómeno nas escolas portuguesas constitui preocupação no nosso país; a urgência de intervenção nas crianças envolvidas neste fenómeno é justificada pela instabilidade que o «bullying» provoca no contexto escolar, mas também porque quando avaliado precocemente pode ser preditor de psicopatia. Efectivamente muitos adolescentes «bullies» tornam-se adultos perversos que continuam a agredir os pares ou os seus subordinados em contexto laboral. Quando os comportamentos de «bullying» são observáveis em contextos laborais, designam-se por «mobbing». O «mobbing» pressupõe a criação de um clima emocional no local de trabalho, como rumores, descrédito público e hostilidade. O relacionamento hostil e imoral, considerado como abuso emocional, ou assédio moral no trabalho em relação a um trabalhador, tem como objectivo marginalizar a vítima conduzindo-a a um processo de demissão ou reforma antecipada.

Neste fenómeno de delinquência verifica-se a existência de uma vítima, de um ou mais «mobbers« e de cúmplices colegas e não raras vezes a representação sindical do trabalhador. À agressão vertical, feita pelo superior hierárquico do trabalhador, junta-se a rejeição horizontal por parte dos colegas de trabalho com interesses directos ou indirectos na sua saída da organização. Numa primeira fase, o agressor procura isolar a vítima, e de forma perversa espalha a dúvida e suspeição sobre os seus colegas de trabalho, nomeadamente no que diz respeito às suas competências profissionais ou às suas capacidades empáticas ou de relacionamento social. Ao sentir-se isolada a vítima perde sentido crítico, baixa o seu nível auto-conceito e torna-se manejável pelo seu agressor («mobbers»); então isolada, sem ajuda de terceiros e descredibilizada, acede às propostas do seu agressor. A vítima sente-se forçada a actuar de uma forma com a qual não se identifica, violando os seus princípios éticos. Não o fazendo é discriminada.

Estas agressões emocionais, com sintomatologia como ansiedade, insónia, eczemas, erupções cutâneas e tumores podem provocar danos irreversíveis e, em casos extremos, conduzir ao suicídio.

Ainda que as situações de assédio moral sejam condenadas pela lei portuguesa (Código de Trabalho, Artigos 22º, 26º, 28º e 29º), continua a ser difícil a qualquer trabalhador reivindicar os seus direitos nesta matéria.

É importante reflectir sobre as consequências do «mobbing» que se vem praticando em muitas organizações portuguesas, com absoluto desrespeito pelos trabalhadores.

Expresso, 19/04/2008

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Timor: indulto presidencial a Rogério Lobato anunciado, hoje, 23/4, em discurso do Presidente Ramos Horta no Parlamento Nacional timorense.

A 'rendição' da ministra Rodrigues

Editorial do jornal Expresso Acordo para uns, entendimento para outros, o que a ministra da Educação assinou foi uma rendição. Se a ideia era recuar, já o devia ter feito há muito tempo.

Rendida à força da rua

Sabem os estrategos militares, e até os jogadores de xadrez, que quando se avança para um conflito se tem de saber duas coisas essenciais: primeiro, os objectivos da investida; depois, como e para onde se recua caso o avanço corra mal.

Maria de Lurdes Rodrigues nunca deixou muito claro até onde queria ir, o que se pode compreender. Incompreensível é perceber-se - agora que assinou um acordo com os sindicatos - que também não sabia para onde recuar, uma vez que tudo ficou mais ou menos como antes da 'guerra'. Ou pior ainda, tendo em conta que, dentro de um ano, se a ministra persistir na sua ideia (certa e justa) de avaliação, tudo estará no mesmo patamar em que estava antes da 'guerra' começar.

O que resulta da cerimónia de assinaturas na passada quinta-feira motiva, no entanto, alguns pontos de reflexão.

A avaliação parece ser das coisas menos aceitáveis para os sindicatos. Isto significa que há um enorme poder sindical junto dos professores. Que os sindicatos querem docentes indiferenciados, com carreiras automáticas, numa espécie de igualitarismo que só mesmo a eles pode interessar. A recompensa pelo mérito (e a penalização pelo demérito) é coisa arredada do vocabulário de Mário Nogueira e de outros dirigentes sindicais.

O Governo cedeu à força da rua. Politicamente, não teria alternativas senão a cedência, mas ao fazê-lo, não perante uma razão ou argumento mas apenas face ao número de manifestantes, escolheu o pior dos caminhos. Este facto não deixa de ser muito sublinhado pelos sindicatos, os mesmos que há dois anos se contentariam em ser recebidos pela ministra e que hoje falam de alto, dizendo que este recuo/humilhação do Governo ainda não chega.

Depois, o que é pior, o Governo dá a ideia de que no processo da educação - este não é, sobretudo, um problema laboral - os únicos interlocutores são os sindicatos. O Executivo negoceia aspectos centrais da educação como se fossem questões sindicais, o que é imperdoável.

O resultado é o desnorte do Governo, que recua em debandada, e o canto de vitória dos sindicatos. Nada disto seria trágico, caso não estivéssemos a falar da educação dos nossos filhos.

Expresso, 19/04/2008

Ainda o Acordo Ortográfico

Em vez da coisa, o Acordo

OS PODEROSOS gostam de dizer que os outros não são "os donos" das coisas sobre as quais eles decidem. É redundante, e um bocadinho estúpido, e, precisamente por isso, funciona - pelo menos intimida. Os escritores, por exemplo, não são "os donos" da Língua - e não se vai cancelar um acordo ortográfico só pelo amor serôdio que alguns escribas dedicam a consoantes mudas e outras chinesices (por alguma razão o "Prós e Contras" que a RTP dedicou à magna questão do Acordo, na passada segunda-feira, incluía o parecer de um chinês, fascinado com aquilo a que chamava "o novo língua portuguesa").

Já tive ocasião de explicar, com larga cópia de exemplos, que nada me moveria contra o Acordo se, de facto, ele acordasse alguma coisa. Vasco Graça Moura tem esmiuçado a bacoquice do Desacordo parágrafo a parágrafo, por muitos e variados palcos, com uma clareza de água e uma paciência de santo - mas quem quer ouvir de que se trata? Chama-se-lhe nacionalista ou colonialista e está o caso arrumado, que isto é Portugal. Na referido programa televisivo, tanto ele como Maria Alzira Seixo recordaram que o Acordo, em si, é que enferma de colonialismo - dado que foi cozinhado por académicos de Portugal e do Brasil, com os restantes países de língua portuguesa no papel de "majorettes" contratadas para a fotografia. E enquanto ouvia a sempre serena e generosa Guiomar de Grammont, nos dois minutos de exposição a que teve direito, lastimava que o povo português não tivesse tido direito a ouvi-la por mais meia hora, para que ela contasse como fez da tão portuguesa cidadezinha de Ouro Preto, no estado brasileiro de Minas Gerais, um ponto de encontro anual de escritores de toda a lusofonia, e como conseguiu já mobilizar-nos (designadamente, ao Jorge Salavisa e a mim mesma) para um "Letras em Lisboa" de propósitos semelhantes, cuja primeira edição decorreu há dias. Infelizmente, a RTP não enviou um só jornalista a nenhum dos espectáculos, conferências ou debates desse festival da Língua Portuguesa. O que acontece é sempre menos interessante do que aquilo que o Poder manda acontecer, ou não estivéssemos em Portugal.

É precisamente porque amo a riqueza extraordinária da Língua Portuguesa, e o que as suas variantes africanas e brasileiras lhe acrescentam (porque há tantas variantes dentro do Brasil como nos países africanos de expressão portuguesa) que, à partida, me desgosta a ideia burocrática de um acordo. Se pelo menos o Acordo servisse para unificar a aprendizagem da Língua, e assim tornar igualmente acessíveis e programáticos, para as crianças das escolas, os escritores dos vários países, poderia julgá-lo útil. Mas o Acordo prevê que se mantenham as diferenças ortográficas correspondentes à "pronúncia culta" (seja lá isso o que for) de cada país. Trocando em miúdos: as grafias manter-se-ão distintas. Mais próximas, mas suficientemente distintas para tornar impossível a criação de manuais escolares universais, dentro do mundo da língua portuguesa. Até porque as diferenças abissais não são ortográficas - mas gramaticais e semânticas. O argumento da unificação da Língua para efeitos de papeladas oficiosas internacionais não colhe, por estes mesmos motivos. E que diferença faz que um documento internacional seja escrito numa qualquer variante do português? Todos entendemos a escrita do cabo-verdiano Germano Almeida, do brasileiro Ruben da Fonseca, do moçambicano Mia Couto ou do angolano Pepetela.

Não é uma questão de percentagens de palavras alteradas, nem de "cedermos aos brasileiros". Pessoalmente, agradeço aos brasileiros o empenho que têm posto, no Brasil como nas muitas cátedras de Língua Portuguesa que têm por esse mundo fora, na divulgação do padre António Vieira e de Fernando Pessoa, de Agustina ou Lídia Jorge, bem como da atenção que dedicam aos novos escritores portugueses - que, aliás, têm sido muito mais publicados no Brasil do que os novos autores brasileiros em Portugal. Dói-me que assim seja. E começo a fazer contas, contas simples, evidentes: quanto se vai gastar em papel e impressão de livros novos por causa deste acordo? Quanto já se gastou em cargos, comissões, grupos de trabalho, salários, almoços, viagens, motoristas, para que ele se realizasse? O que tem feito a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) para além deste protocolo de acentos e tremas? Quantos gigantescos "Letras em Lisboa" (e em Cabo Verde, e em Angola, e em Moçambique, etc.) se poderiam organizar com essas verbas? Que repercussão não teriam os livros de Guiomar de Grammont, Maria Esther Maciel ou Suzana Vargas, ou os discos e livros de José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski (para só falar de alguns autores que estiveram presentes nesta primeira iniciativa de intercâmbio literário) se a RTP lhes dedicasse metade do tempo que dedicou à discussão do acento grave ou circunflexo?

Tanta conversa, tanta mordomia, tão pouca vontade de mudar o que importa. É isso o que mata a língua portuguesa, é esse o triste poder de Portugal.

Expresso Online, 21/04/2008

terça-feira, 22 de abril de 2008

Continua a vigorar o estado de sítio em Ermera

O estado de excepção foi levantado em todo o país, excepto em Ermera, distrito onde se tem refugiado nas sua montanhas Salsinha e os seus perto de uma dúzia homens.

Timor: Levantado o estado de emergência

O Parlamento Nacional timorense levantou, hoje, 22 de Abril, a pedido do Presidente Ramos Horta, o estado de emergência, que substituiu o estado de sítio decretado em 11 de Fevereiro pelo primeiro Presidente da República interino, Vicente Guterres, na sequência dos atentados contra a vida do PR Ramos Horta e PM Xanana Gusmão, tendo Ramos Horta sofrido ferimentos muito graves que o impossibilitaram de presidir aos destinos do país, e prolongado pelo segundo Presidente da República interino, Fernando de Araújo La Sama.

Lugo vai renegociar a hidro-eléctrica de Itaipu com o Brasil

Paraguai/Eleições: Fernando Lugo vai renegociar Tratado da hidro-eléctrica de Itaipu com o Brasil

* * * Por José Peixe, enviado da agência Lusa * * *

Assunção, 21 Abr (Lusa) - Fernando Lugo, eleito presidente do Paraguai nas eleições de domingo, vai renegociar o tratado da hidoeléctrica de Itaipu com o Brasil. O governo de Lula da Silva recusa-se a fazer comentários sobre esta matéria, que pode provocar um aumento de dez por cento no preço da electricidade consumida no Brasil.

"Se o governo brasileiro renegociou o preço do gás natural com a Bolívia, nós também vamos ter que avaliar e renegociar o Tratado de Itaipu que foi assinado em 1973", afirmou Fernando Lugo durante a campanha eleitoral.

Para o presidente da central hidro-eléctrica de Itaipu, Jorge Sanek, "não existe qualquer possibilidade de se fazerem alterações no Tratado que foi assinado entre os dois Estados, porque ele foi discutido no congresso dos países e é um tratado internacional".

Jorge Sanek esteve presente no casamento da filha da ministra da Casa Civil de Lula da Silva, Dilma Roussef, em Porto Alegre, na sexta feira.

Numa entrevista exclusiva ao jornal "Zero Hora", Jorge Sanek afirmou que "o Tratado de Itaipu que foi assinado entre o Paraguai e o Brasil deu certo e, até 2060, o Paraguai é o único país do mundo que não terá problemas energéticos".

O Tratado de Itaipu foi assinado em 1973 mas a central hidro-eléctrica só ficou pronta para produzir energia em 1984. O Brasil e o Paraguai têm acesso cada um a cinquenta por cento da energia produzida em Itaipu - mas foi Brasília que garantiu o financiamento total da obra.

A contrapartida garantida no Tratado foi o Paraguai vender o excedente da sua energia eléctrica ao Brasil até 2023 pelo custo do preço de produção.

Actualmente, o Brasil cobra 23 Euros por quilowatt/hora, enquanto no mercado aberto a cotação ultrapassa os 48 Euros.

Em 2007, a hidroeléctrica de Itaipu produziu 90,62 milhões de magawatts/hora, o que corresponde a 19 por cento de todo o consumo de electricidade do Brasil e 91 por cento do consumo energético do Paraguai.

Itaipu é a segunda maior central hidro-eléctrica do mundo, com uma potência nominal de 14 mil megawatts e possuindo 20 turbinas geradoras de energia - cada uma delas dará para produzir energia suficiente para uma cidade com as dimensões de Lisboa.

Depois de saber os resultados oficiais das eleições presidenciais, Fernando Lugo disse aos jornalistas que "chegou a hora de o Paraguai ser reconhecido internacionalmente como um país democrático e não como o país mais corrupto da América do Sul".

A posse de Fernando Lugo como o novo presidente do Paraguai está agendada para 15 de Agosto. Lula da Silva vai tentar encontrar-se com o ex-bispo católico antes dessa data.

JVP.

Lusa/Fim

Paraguai: Presidente eleito pode contar com o apoio do Brasil - Lula da Silva

Brasília, 21 Abr (Lusa) - O presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, poderá contar com o apoio do actual governo brasileiro, garantiu o chefe de Estado do Brasil, Lula da Silva, em mensagem enviada hoje ao ex-bispo católico que saiu vitorioso das eleições de domingo.

"No período de mudanças que se anuncia, Vossa Excelência poderá contar com o apoio solidário e a amizade do Brasil e do meu Governo", diz a mensagem de Lula da Silva, enviada de Acra, onde participa na XII Conferência da Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD).

Lula da Silva felicitou Fernando Lugo pela vitória e apresentou "calorosos votos de êxito à frente dos destinos do Paraguai".

Na avaliação do sociólogo e analista político brasileiro António Flávio Testa, a eleição de Lugo não vai representar qualquer crise na relação entre o Brasil e o Paraguai.

"A economia paraguaia está muito interligada à brasileira e Lugo vai querer aproximar-se do Brasil", afirmou o Professor da Universidade de Brasília (UnB) à agência Lusa .

Questionado sobre as propostas do candidato da Aliança Patriótica para a Mudança (APC) em relação à revisão do contrato de Itaipu com o Brasil e aos chamados "brasiguaios", António Testa acredita que Brasília vai negociar bem estes dois pontos com o Paraguai.

"Da mesma forma que o Brasil superou a crise com a Bolívia de forma equilibrada, vai negociar com o Paraguai para atender às suas reivindicações sem ferir a soberania brasileira. O Itamaraty (sede do Ministério das Relações Exteriores) faz esse tipo de negociações com competência", salientou.

Durante a campanha eleitoral, Lugo disse que fará a revisão do contrato, assinado em 1973, que dispõe sobre a energia eléctrica produzida pela Usina Binacional de Itaipu, na fronteira do Paraná com o Paraguai.

Segundo o acordo, a hidro-eléctrica pertence igualmente aos dois países mas mais de 90 por cento da energia produzida é absorvida pelo Brasil, que compra o excedente ao Paraguai.

A reclamação de Lugo é que a energia vendida pelos paraguaios está com um preço muito aquém de mercado, o que prejudica a já debilitada economia do país.

Outro ponto enfatizado por Fernando Lugo é a reforma agrária, o que poderá atingir muitos brasileiros que vivem no Paraguai.

Estima-se que o número dos "brasiguaios" actualmente ultrapasse os 300 mil, sendo que a maioria são donos de grandes fazendas de soja e de gado.

"O Brasil vai negociar um preço mais justo para a energia que compra aos paraguaios e deverá haver também uma negociação para a legalização dos brasiguaios, já que as empresas de agro-business interessam à estrutura fundiária do país", destacou Testa.

"Os problemas mais sérios entre os dois países não são estes e sim a regularização do comércio, com o combate à pirataria e o combate ao narcotráfico, que têm interesse mundial", acrescentou.

Para o Professor da UnB, Lugo assemelha-se ao presidente da Bolívia, Evo Morales, e vai fazer diferença no jogo político do Paraguai, onde conseguiu reunir na APC nove partidos políticos e 20 organizações sociais para pôr fim à maior hegemonia de uma aliança partidária (Colorado) no mundo.

CMC.

RTP, 21/04/2008

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Lugo, o bispo eleito presidente do Paraguai

Bispo suspenso pelo Vaticano é o novo presidente do Paraguai

O Bispo paraguaio D. Fernando Lugo venceu ontem as eleições presidenciais no país sul-americano, colocando um ponto final a 61 anos de poder absoluto do Partido Colorado. O prelado foi o candidato da coligação de esquerda Aliança Patriótica, que representa 11 sindicatos de trabalhadores e grupos indígenas.

Considerado como o “Bispo dos pobres”, D. Lugo fora líder do movimento “Tekojoja” (igualdade, na língua guarani) e tinha vindo a afirmar-se como forte opositor do antigo presidente, Duarte Frutos, com destaque para uma manifestação de 40 mil pessoas que levou às ruas no ano de 2006.

No discurso de vitória, Fernando Lugo afirmou que "agora pode dizer-se que os pequenos também podem vencer".

Esta eleição representa um problema interno para a Igreja, dado que Lugo está suspenso pelo Vaticano, após ter sido recusado o pedido de renúncia que o prelado apresentara, assinalando que a condição episcopal, uma vez assumida, é para toda a vida.

O Direito Canónico determina que a renúncia apresentada por um Bispo possa ser concedida ou negada pelo Papa, que poderá ainda optar por suspendê-lo, como aconteceu com D. Fernando Lugo.

O presidente da Conferência Episcopal local, D. Ignacio Gogorza, já afirmou que este problema será tratado pessoalmente pelo Papa, anunciando que “haverá novidades provenientes da Santa Sé”.

O segundo parágrafo do Cânone 287 do Código de Direito Canónico proíbe os clérigos de tomarem “parte activa” em partidos políticos, admitindo excepções quando assim “o exija a defesa dos direitos da Igreja ou a promoção do bem comum”, a juízo da autoridade eclesiástica.

A suspensão "a divinis", que se aplica neste caso, significa que o Bispo "permanece no estado clerical e continua obrigado aos deveres a ele inerentes, embora suspenso do ministério sagrado".

Agência Eclésia, 21/04/2008

Paraguai: Eleição de Lugo e a Reforma Agrária

Paraguai/Eleições: Brasileiros receiam Reforma Agrária a aplicar por presidente Fernando Lugo

** José Peixe, para a agência Lusa **

Assunção, 21 Abr (Lusa) - O novo presidente paraguaio, Fernando Lugo Méndez, eleito domingo, promete levar por diante a Reforma Agrária que tanto agitou a campanha eleitoral, mas os cidadãos brasileiros estão receosos do que possa acontecer.

"Estou feliz pelo facto de ter sido um ex-bispo a vencer as eleições, mas temo que quando ele chegar ao Palácio de López, inicie uma Reforma Agrária que possa pôr em causa muitas famílias de agricultores brasileiros que vivem no Paraguai", afirmou à Lusa o empresário brasileiro Luis Fernando Silva.

"Não podemos esquecer que os milhares de brasileiros que vivem aqui no Paraguai são muito importantes para a economia, a agricultura e o desenvolvimento do país", sublinhou o empresário, natural da Foz do Iguaçú.

Fernando Lugo prometeu aos eleitores que, se fosse eleito presidente do Paraguai, iria "resolver a disputa silenciosa que tem vindo a ganhar corpo e está a ser travada na fronteira com o Brasil, na região de Mato Grosso do Sul".

Têm-se agravado nos últimos tempos os conflitos entre os sem terra paraguaios, plantadores de cannabis, e os chamados "brasiguaios", agricultores do Sul do Brasil que imigraram para o Paraguai e plantam soja, pela posse de terras naquela região.

Nos últimos dias da campanha eleitoral, algumas propriedades de "brasiguaios" foram queimadas pelos plantadores de cannabis na região de Capitán Bado, zona bem conhecida do novo presidente do Paraguai, uma vez que Fernando Lugo foi bispo em San Pedro.

Numa conferência de imprensa na sexta-feira, Fernando Lugo recordou que é "um profundo conhecedor das causas agrárias do Paraguai" e que "as promessas eleitorais são para ser cumpridas".

"Existem três mil índios guaranis desalojados no território paraguaio e a maioria deles está justamente na fronteira do Paraguai com o Estado brasileiro de Mato Grosso do Sul e nós não podemos a ignorar esta situação", afirmou Fernando Lugo.

O ex-bispo católico aproveitou a presença de muitos jornalistas brasileiros para dizer que "a Reforma Agrária que iremos implantar no Paraguai não significa apenas dar terra a quem não a tem".

"Se ganharmos, iremos montar um projecto agrário semelhante ao que está a ser desenvolvido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) no Brasil", explicou o candidato da Aliança Patriótica para a Mudança e presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo.

© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
2008-04-21 11:04:55

Adiado discurso no Parlamento timorense

Adiada presença de Ramos-Horta no Parlamento timorense

José Ramos-Horta adiou para a próxima quarta-feira o seu discurso no Parlamento Nacional que estava marcado para hoje. Impedimento por parte do Presidente da República foi a única justificação apresentada para o adiamento.

Foi a deputada Maria Paixão, vice-presidente do Parlamento, a anunciar no plenário o adiamento para a próxima quarta-feira do discurso de José Ramos-Horta que estava previsto para hoje.

Maria Paixão não apresentou uma razão para este adiamento declarando apenas que a presença de Ramos-Horta no Parlamento não se concretizava por impedimento do Presidente, mas sem avançar qual.

Recorde-se que o Presidente timorense regressou a Timor-Leste na passada quinta-feira, 17 de Abril, depois de ter estado mais de dois meses em Darwin, na Austrália, onde recuperou do ataque a tiro de que foi alvo junto à sua residência em Díli, no passado dia 11 de Fevereiro.

José Ramos Horta já esteva no Parlamento assim que chegou a Díli, mas apenas para uma intervenção curta de alguns minutos que assinalou o seu regresso ao país e ao exercício da chefia do Estado.

RTP 2008-04-21 09:41:25

sábado, 19 de abril de 2008

Carolina Michaëlis: finalmente solucionado

Alunos do liceu Carolina Michaelis "estão mais responsáveis", diz presidente do Conselho Directivo

A presidente do Conselho Executivo da Carolina Michaelis, Carla Duarte, afirmou hoje que os alunos daquela escola secundária do Porto estão mais responsáveis."Eu acho que eles até se sentem mais responsabilizados, no que toca a cumprir o regulamento interno, sobretudo os alunos mais velhos já não prevaricam. Serviu de exemplo", afirmou a responsável em declarações ao Porto Canal.

O caso remonta ao último dia de aulas, antes das férias da Páscoa, quando a docente de Francês do 9ºC foi alegadamente vítima de violência física e verbal por parte de uma aluna, que já foi transferida de escola. O colega que filmou a cena e a colocou na Internet foi também transferido de escola. Um outro aluno, da mesma turma, que impediu a ajuda à professora foi suspenso por dois dias. Os restantes elementos do 9ºC estão a ter aulas de formação cívica, em horas extra ao horário escolar. Nesse período efectuam trabalhos sobre o regulamento interno da escola que depois serão debatidos e analisados pelos alunos de todas as turmas do Carolina Michaelis.

A professora maltratada, que se encontra de baixa médica, já formalizou uma queixa judicial contra a alegada agressora e duas contra os restantes alunos da turma.

Na entrevista de hoje, Carla Duarte recordou que os telemóveis sempre foram proibidos, nas salas de aula do Carolina Michaelis, e sustentou que "eram sempre apreendidos e entregues aos pais". "Desde os incidentes no 9ºC a atitude dos pais mudou", reconheceu a responsável. Carla Duarte sustenta que "os pais estão muito mais preocupados". "Já temos a proibição dos telemóveis, nas salas de aula, regulamentada há vários anos. Agora, quando os pais são chamados para recolher os que são apreendidos, têm consciência do perigo que é usá-los numa sala de aula", frisou a responsável.

Sobre a protagonista do incidente Carla Duarte revelou que "ela veio para esta escola por opção dos pais". "Os pais quiseram tirar a Patrícia da escola onde estava. Ela não veio por problemas disciplinares", sustentou. "Não havia qualquer referência ao comportamento dela, até ao 8º ano era uma aluna brilhante", salientou a responsável, admitindo, no entanto, que nesta fase a aluna "estava mais revoltada". Carla Duarte admitiu, todavia, que "nada levava a crer que ela pudesse ter uma atitude daquelas". "A Patrícia já tinha sido apanhada mais do que uma vez com o telemóvel, sem reagir de forma tão incorrecta", afirmou.

Carla Duarte revelou ainda que a escola "já voltou à normalidade". Sustentou também que "ao contrário do que se disse, no 9º C não há uma concentração de casos problemáticos".

Lusa/Público Online, 18/04/2008
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Comentário dos leitores do Público Online sobre o artigo

18.04.2008 - 15h26 - Escola pública, Portugal
Diz a presidente do conselho executivo que esta aluna era "brilhante, a viver uma fase complicada"! Típico comentário de um administrativo-burocrata que não dá aulas, mas está à frente de uma escola! Se o assunto não se tivesse tornado público a desgraçada da professora é que seria a responsável pela atitude da aluna e, a esta, nada aconteceria. A professora, se revelasse a ocorrência, ou se a aluna se queixasse desta lhe tirar o telemóvel, seria incomodada, interpelada, provavellmente à porta fechada, estilo inquisição, numa reunião, com a presidente do conselho executivo, da qual sairia uma acta intimidatória,na melhor das hipóteses, arquivada no seu processo ou algures em ficheiros secretos do conselho executivo.Em certos casos, seria a professora a ter um processo disciplinar. Portugueses, acordem, é urgente restituir a dignidade perdida aos verdadeiros professores e responsabilizar aqueles que contribuiram para o caos em que se encontra a escola pública: - Ministério da educação - Inspecção do ensino - Conselhos executivos .

18.04.2008 - 09h19 - Anónimo, Lisboa
Como se pode esperar melhor dos adolescentes de quinze anos quando assistem às seis da tarde a novelas de péssima qualidade e nada pedagógicas que apresentam jovens a fumar charros e "enrolados" na cama, os tais "Morangos com açúcar". Os orgãos de comunicação social deveriam ter a preocupação com produtos cujo público é adolescente e tentar ser pedagógicos.

18.04.2008 - 09h11 - Anónimo, Lisboa
Sinceramente se a aluna era assim "tão brilhante" (sendo atípico alunos brilhantes e menos brilhantes terem esse tipo de reacções: recusar-se a cumprir uma indicação tratando a professora aos berros e por tu) e se foi um acto isolado, então o castigo foi desproporcionado e a aluna precisa de tratamento especializado adequado, há aqui um desequilíbrio, pois também a sua atitude foi desproporcionada. Foi também desproporcionada a diferença entre os castigos aplicados aos dois alunos transferidos e os outros colegas que se comportaram como se estivessem num espectáculo de "wrestling". Por fim, o episódio mostrou que as pessoas (incluo aqui as direcções regionais, governantes, pais...) só ligam ao que veêm na TV, o que mostra que mais do que desrespeito pelos professores, existe desrespeito pela escola como instituição. Há casos tão graves ou ainda mais graves de alunos com um longo historial de indisciplina nas escolas que não aparecem na TV e, por conseguinte, não são tratados de forma tão rápida e com tanta eficácia. Para mim, a palavra que resume tudo isto é "desproporção". Uma episódio de telenovelas da TVI, um mau exemplo. Mas ao menos transformemos o limão numa limonada...

sexta-feira, 18 de abril de 2008

9º aniversário do massacre na casa do Carrascalão

Fez ontem (17/04/2008) o 9º aniversário do massacre de cerca de mais de uma dezena de timorenses refugiados na casa de Manuel Carrascalão perpretado pelas milícias Aitarak, grupo paramilitar pró-Indonésia que defendia uma "autonomia no seio da 'mãe' Indonésia" liderado por Eurico Guterres (recentemente absolvido!! pelo Supremo Tribunal indonésio pelos assassínios de timorenses de Abril a Setembro de 1999).

De entre as mortes, encontrava-se também o filho de Manuel Carrascalão, Manelito.

Registei no meu diário este facto hediondo praticado por timorenses a soldo dos ocupantes contra outros timorenses desarmados e indefesos. A passagem referente a este triste acontecimento transcrevi-a no dia 2/4 para este blogue:

«22:33 30-04-1999

Nestes últimos dias/semanas, desde o dia 5/Abril, tem crescido tensão política em Timor, sobretudo Díli e outras vilas a oeste; houve massacres e assassinatos perpretados pelas milícias e paramilitares pró-Indonésia, armadas e treinadas pelas suas forças armadas. Nessa embriaguez de sangue, foi assassinado o filho de Manuel Carrascalão; Carrascalão e família e mais outros refugiaram-se primeiramente no Paço Episcopal, mais tarde por questões de segurança - pois os milicianos ameaçaram atacar o próprio Paço - resolveram colocar-se sob a custódia da própria polícia indonésia; entretanto, já foram evacuados para Jacarta por iniciativa da diplomata Ana Gomes.»

quinta-feira, 17 de abril de 2008

As televisões e o regresso de Ramos Horta

RTP1: Tendenciosa na selecção do excerto da entrevista a Ramos Horta ao suprimir o início da fala, descontextualizando assim o verdadeiro sentido da afirmação do presidente timorense, e na colocação de uma questão, pelo apresentador do Jornal de Tarde ao seu correspondente em Díli, relacionada com o hipotético desejo de RH na convocação de eleições legislativas no verão de 2009, torcendo mais pela Fretilin.

SIC: Objectividade na informação e imparcialidade na apresentação da notícia.

TVI:
Objectividade e imparcialidade na apresentação da notícia do regresso de Ramos Horta e informação mais desenvolvida de texto e imagem.

Timor: Eleições antecipadas em 2009?

"Regresso fisicamente preparado a 90 por cento"

17.04.2008, Adelino Gomes

Ramos-Horta regressa a Timor com uma prioridade: retomar o diálogo com os partidos sobre eleições antecipadas em 2009

Numa entrevista por telefone, horas antes da partida de Darwin para Díli, Ramos-Horta disse querer retomar o diálogo com os partidos no ponto em que se encontrava antes do atentado de 11 de Fevereiro - na exigência de eleições antecipadas, feita pela Fretilin.

Chega a Díli dentro de poucas horas. O que pensa dizer ao povo e aos deputados?

Primeiro vou felicitar o Presidente interino [Fernando "Lasama" de Araújo] pela serenidade com que assumiu as rédeas do país. Felicitarei também os deputados e partidos que têm sabido manter-se unidos, e em particular o povo timorense. Não houve incidentes desde a tentativa de assassinato. O povo mostrou maturidade. À medida que a investigação progride, começa a fazer sentido: liquidando Ramos-Horta e Xanana Gusmão, o país podia entrar em caos e isso servia certos interesses [Reinado e a sua amiga Angelita Pires tinham uma conta de um milhão de dólares na Austrália e elementos do Kopassus, forças especiais indonésias, estariam ligados aos atentados, disse Horta à Lusa, pouco antes].

Vai chamar Gastão Salsinha, para que se entregue?

Se ele não tiver sido apanhado ou não se tiver entregado, darei um prazo para que o faça. Não tem que o fazer a mim; pode entregar--se a um padre, aos bispos. Será transportado para a Presidência e dali o procurador-geral da República, o tribunal toma conta.

E quanto à lentidão da investigação [dos atentados]?

Não as acho tão lentas. Recebi informações do procurador-geral da República e da comissão de investigação. Dizem que o mais tardar em Julho têm o dossier completo. Estas informações tranquilizam-me. É necessário agir com prudência. Tem que se ir ao fundo e apurar todos os envolvidos directa ou indirectamente, quer internos quer externos.

Disse que queria convocar eleições antecipadas em 2009.

Nunca dei tal informação. O que disse foi que, se os partidos com assento no Parlamento concordassem com eleições antecipadas, uma exigência da Fretilin, obviamente eu não ia opor-me. Não se dissolve o Parlamento por dá cá aquela palha.

Qual é a sua medida prioritária para que o país entre na via da segurança e da prosperidade?

Vou continuar o diálogo, ouvindo as lideranças da Fretilin e da AMP [Aliança para a Maioria Parlamentar, no poder]. Pela primeira vez pus todos sentados à minha volta. A Fretilin queria um mecanismo que a envolvesse na resolução do caso de Alfredo Reinado - está resolvido; no caso dos peticionários - está em curso; no processo dos deslocados; na reforma judicial, da defesa e segurança. O único ponto controverso é a exigência de eleições antecipadas. Chegaremos a consenso.

Diz que vai retomar de imediato as funções. Sente-se física e psicologicamente preparado?

Fisicamente estou preparado, eu diria, a 80/90 por cento. Ainda tenho dores, resultado dos nervos que foram afectados e que levam tempo a sarar. Emocionalmente, só posso dizer depois de regressar.

PÚBLICO, 17/04/2008

Eleições antecipadas "podem trazer vantagens"

Ramos-Horta chegou a Timor-Leste

A realização de eleições antecipadas em Timor-Leste "pode ter vantagens para todas as partes", declarou o Presidente da República timorense, José Ramos-Horta, à agência Lusa e à RTP em Díli.

"Eu sempre disse que não tenho objecções a eleições antecipadas desde que resulte de um consenso do Parlamento, de todos os partidos",
afirmou José Ramos-Horta na sua residência em Díli, onde regressou hoje depois de ter estado em tratamento na Austrália, na sequência do atentado de 11 de Fevereiro.

"A Fretilin quer as eleições antecipadas talvez no Verão de 2009. O Governo diz que sim, diz que não, ainda não se pronunciou",
disse Ramos-Horta, na entrevista conjunta à Lusa e RTP. Para o Presidente timorense, as eleições antecipadas "podem trazer vantagens para todas as partes".

"Se o Governo fizer um bom trabalho este ano de 2008, as eleições novas resultam numa vitória do Governo e a Fretilin perde",
disse.

"Mas se o Governo faz um trabalho miserável, não consegue cumprir as promessas e fazer a execução orçamental, até eu prefiro ter eleições antecipadas porque não temos que os ter durante mais de três anos",
sublinhou o chefe de Estado timorense.

"Portanto, o ano de 2008 é um grande teste para o Governo. Se fizer um bom trabalho, a Fretilin estará em desvantagem. Se fizer um trabalho medíocre, o povo quererá eleições antecipadas",
acrescentou.

O chefe de Estado reconheceu que olha para si próprio, hoje, como o factor de união da sociedade timorense.

"Parece que sim. É o que revela a explosão popular em me acolher. É o que revela que os partidos todos tenham estado no aeroporto"
hoje de manhã, frisou Ramos-Horta, eleito Presidente da República em 2007.

É com esse apoio que José Ramos-Horta diz "insistir no diálogo" político iniciado no regresso da visita oficial ao Brasil, em Janeiro deste ano, incluindo a reunião entre a aliança partidária no Governo e oposição, poucos dias antes dos ataques de 11 de Fevereiro, em que foi ferido a tiro com gravidade.

"Tivemos dois diálogos e correram de forma muito salutar e com propostas construtivas. O único ponto que (ficou) por discutir era a exigência de eleições antecipadas. Mas aí podemos chegar a uma solução de compromisso em que ninguém perde a face",
afirmou José Ramos-Horta.

"Se houver eleições legislativas antecipadas, eu quero também eleições presidenciais antecipadas",
declarou José Ramos-Horta, acrescentando que, nesse caso, não seria candidato, conforme a Constituição timorense.

"Não sou melhor que os outros. Os outros não são melhores que eu. Vamos testar com o povo",
explicou ainda o Presidente da República.

"Disse também, na altura (Julho de 2006), que a minha preferência não era ser primeiro-ministro. Fui empurrado, sobretudo por Xanana Gusmão. E paguei um preço muito grande como primeiro-ministro porque assumi a responsabilidade numa situação muito difícil",
considerou o actual chefe de Estado.

"Aceitei, tentei ser leal à Fretilin, respeitando a sensibilidade do partido nessa altura. Depois fui empurrado para eleições presidenciais e não me senti bem tendo como adversário o Francisco Guterres 'Lu Olo' (presidente da Fretilin)",
referiu.

"Hoje, chego à conclusão que Fernando 'La Sama' (de Araújo, presidente do Parlamento), por exemplo, seria um bom Presidente, pela forma como agiu nestes dois meses",
em que ocupou interinamente a chefia do Estado, acrescentou.

Sobre a estratégia em relação ao ex-tenente Gastão Salsinha, José Ramos-Horta assegurou que não irá seguir a mesma linha de diálogo que manteve com o major Alfredo Reinado.

"Não. Tiveram oportunidade durante ano e meio",
explicou o Presidente da República sobre o grupo de Gastão Salsinha, que até 11 de Fevereiro liderava os chamados peticionários das Forças Armadas.

"Apresentei uma proposta há mais de um ano ao comando das Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste (F-FDTL). Na altura, a posição do comando era muito inflexível. Não queriam ouvir falar dos peticionários. Sentiam-se traídos",
recordou José Ramos-Horta.

"No entanto, com muita paciência minha e humildade do comando das F-FDTL, ouviram-me, tiveram reuniões e aceitaram a minha proposta: todos os peticionários que quisessem voltar, podiam voltar através de um processo de novo recrutamento".

"Aos que não quisessem voltar, o governo dava um subsídio equivalente a três anos de vencimento para poderem retomar as suas vidas",
lembrou o Presidente na entrevista.

"Primeiro, a organização não-governamental MUNJ disse-me que Salsinha e Reinado concordavam. Daí que eu decidi receber os dois em Maubisse. Mas quando cheguei lá, Reinado disse que não, que eles nunca disseram que concordavam com a proposta",
contou José Ramos-Horta à Lusa e RTP.

"Isto é, não lidam com a questão com seriedade",
acusou o Presidente.

"Entretanto, Salsinha deixou de ser uma pessoa sobre quem não pesa um mandado de captura. Envolveu-se directamente num ataque ao chefe de Estado e ao primeiro-ministro e tem que se apresentar à justiça",
frisou o chefe de Estado timorense.

"Não foi necessário até hoje que algum timorense tivesse morrido. Já mais de metade dos elementos (fugitivos) se entregou com as suas armas. Só faltam talvez 12 pessoas com menos de 12 armas",
acrescentou.

José Ramos-Horta repetiu, na entrevista, o caminho que apontou ao ex-tenente Salsinha à chegada a Díli: "Entregue-se".

SIC/Lusa, 17/04/2008

Ramos-Horta já está em casa

O Presidente timorense já está em Timor, depois de dois meses a recuperar em Darwin, dos ferimentos sofridos no atentado de 1 de Fevereiro. Foi recebido por milhares de pessoas no Aeroporto de Díli que saudaram o regresso de Ramos-Horta com aplausos e danças tradicionais.

Entre os milhares de timorenses que aguardavam Ramos-Horta estavam o presidente interino, Fernando “La Sama” Araújo, o primeiro-ministro, Xanana Gusmão, o ex-primeiro-ministro, Mari Alkatiri, chefias militares, os bispos católicos e o corpo diplomático acreditado em Díli, entre os quais o chefe de missão da ONU.

As primeiras palavras do Prémio Nobel foram para os homens que lhe tentaram tirar a vida. “Deixe-se de aventuras. A vossa aventura e irresponsabilidade ao longo de meses, de não me ouvirem, já custou vidas”, afirmou o presidente timorense, dirigindo-se a Gastão Salsinha, o líder dos fugitivos ligados ao ataque de 11 de Fevereiro, na conferência de imprensa que deu no Aeroporto Internacional Nicolau Lobato, em Díli.

José Ramos-Horta deixou também um apelo a Gastão Salsinha, “Entregue-se ao pároco em Gleno ou Maubisse. Confio totalmente nesta igreja timorense. Ela saberá como contactar as autoridades para os entregar à justiça”.

“Apesar de eu ter sido atingido, eu não queria que o Salsinha ou outro timorense perdesse a vida. Já basta! Demasiados timorenses perderam as suas vidas”, acrescentou o líder timorense.

“Salsinha tem de se entregar. Ele disse que esperava pelo meu regresso para se entregar. Eu prefiro que ele procure a igreja”, insistiu o chefe de Estado timorense.

Na conferência de imprensa à chegada a Timor, Ramos-Horta desmentiu que tivesse convidado Alfredo Reinado para ir a sua casa para ser abatido numa armadilha. “Nunca convidei Alfredo Reinado para a minha casa, nunca marquei qualquer reunião com ele, nunca o convidei para vir às 07h00 da manha a minha casa”, afirmou o Presidente timorense.

Alfredo Reinado morreu no atentado, de 1 de Fevereiro, contra Ramos Horta, no entanto o presidente timorense declarou “que não queria que Alfredo Reinado morresse”.

José Ramos-Horta regressa ao país ainda com rebeldes à solta, mas afirma que não tem medo que lhe façam mal. “Nunca tive medo. Mesmo em 2006 (ano da crise institucional e de segurança em Timor-Leste) ia a todo o lado, até onde havia tiros. Às vezes diziam-me que tinha sido uma loucura”, revelou.

Depois da conferência de imprensa no aeroporto de Díli, José Ramos-Horta dirigiu-se para o Parlamento Nacional onde reassumiu a presidência do país, seguindo depois para a casa onde tudo aconteceu, em Metithaut.

Cristina Sambado, RTP2008-04-17 09:07:41

Ramos Horta em Díli

Ramos Horta terminou há poucos minutos o seu discurso, de improviso, em português, tétum e inglês, e dirige-se neste preciso momento à multidão que o aguarda há umas horas no exterior das instalações do aeroporto.

Do discurso do Presidente ressaltam duas ideias-chave: Gastão Salsinha deve entregar-se sem demora; e Salsinha não pode voltar a causar a morte a nenhum timorense.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Recepção apoteótica a Ramos Horta

Chega, hoje, às 8:00 horas, o presidente timorense, José Ramos Horta, a Díli, após uma longa ausência de dois meses, em Darwin, para tratamento das mazelas causadas por três tiros na sequência do atentado de que foi vítima a 11 de Fevereiro.

Toda a população de Díli e os funcionários vão recebê-lo no aeroporto Nicolau Lobato.

Díli engalanada para a recepção a Ramos Horta

Resultado da consulta aos professores

Decorreram, ontem, 3ª feira, consultas, em todas as escolas do país, aos professores sobre a sua opinião relativa ao entendimento da Plataforma Sindical com o Ministério da Educação, tendo perto de 90 por cento dos docentes apoiado o acordo saído nesta última negociação da Plataforma com o ME, na 6ª feira.

Benvindo, Senhor Presidente

Ramos Horta retoma as suas funções de Presidente da República, amanhã, 17/4, quinta-feira, ao meio-dia, assim que as rodas do avião que o transporta de volta ao país tocarem a pista do aeroporto internacional de Díli "Nicolau Lobato".

No entanto, se formos mais rigorosos na intepretação da Constituição da República timorense, Ramos Horta retomaria automaticamente (cerca de quarenta minutos antes do meio-dia) as suas funções presidenciais assim que o avião entrar no espaço aéreo das águas territoriais timorense.

Desejo ao Presidente Horta clarividência, bom senso e justeza nas suas decisões nesta segunda fase do seu mandato presidencial.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Prazo entrega IRS

Termina, às 24:00h de amanhã, o prazo para a entrega do IRS (pensionistas e trabalhadores dependentes) pela Internet.

E começa, na quarta-feira, o período para a entrega do IRS da segunda fase, para os trabalhadores independentes e contribuintes que tenham outro tipo de rendimentos além do trabalho dependente ou das pensões.

Compromisso Plataforma Sindical e Ministério da Educação

Os docentes vão ser avaliados, neste ano lectivo, em apenas quatro parâmetros: ficha de auto-avaliação, assiduidade, cumprimento do serviço distribuído e participação em acções de formação contínua (quando obrigatória).

Resultado manifs 100 mil profs de 8/3

Professores 1
Ministério da Educação 0

Aguardemos pelo resultado das eleições legislativas de 2009!

domingo, 13 de abril de 2008

Ainda a avaliação do desempenho docente

Sindicatos e Ministério da Educação chegaram a acordo

Depois de mais de sete horas de negociações, o Ministério da Educação e os sindicatos chegaram a acordo. Maria de Lurdes Rodrigues sublinhou a "aproximação" e a plataforma sindical fala em "grande vitória dos professores". Este ano lectivo, a avaliação de desempenho terá apenas em conta quatro parâmetros, aplicados de igual forma em todas as escolas.

De acordo com um documento distribuído no final da reunião, a ficha de auto-avaliação, a assiduidade, o cumprimento do serviço distribuído e a participação em acções de formação contínua, quando obrigatória, serão os únicos critérios a ter em conta.

Estes quatro parâmetros integram o regime simplificado da avaliação de desempenho a desenvolver este ano lectivo, sendo aplicados a todos os professores contratados e aos dos quadros em condições de progredir na carreira, num total de sete mil docentes.

"Para efeitos de classificação, quando esta tenha lugar em 2007/08, apenas devem ser considerados os elementos previstos na alínea anterior", lê-se no documento. Os sindicatos exigiam que estes critérios fossem aplicados de forma igual em todos os estabelecimentos de ensino, ao contrário da posição inicial do Ministério da Educação, que os queria como parâmetros mínimos do sistema de avaliação, podendo as escolas trabalhar com outros procedimentos.

Aliás, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues defendeu sempre procedimentos simplificados mínimos e não universais, argumentando que as escolas tinham ritmos e capacidades de trabalho diferentes na aplicação do modelo de avaliação de desempenho.

Em relação aos docentes que serão avaliados em 2008/09, a larga maioria, os estabelecimentos de ensino devem continuar a recolher todos os elementos constantes dos registos administrativos da escola.

Relativamente aos docentes que serão avaliados no primeiro ciclo de avaliações, este ano lectivo e no próximo, a tutela e os sindicatos estiveram de acordo relativamente à necessidade de reforçar as garantias dos professores.

Assim, os efeitos negativos das classificações de "regular" ou "insuficiente" estarão condicionados a uma nova avaliação a realizar no ano seguinte, não se concretizando caso a classificação nessa avaliação seja, no mínimo, de "Bom".

Os efeitos penalizadores de uma nota de "insuficiente" só se farão sentir no caso dos docentes contratados em vias de renovação.

Quando estes forem classificados com "regular", poderão ver os seus contratos renovados caso se mantenha a existência de horário lectivo completo e haja concordância expressa da escola.

Os sindicatos exigiam ainda a sua integração na Comissão de Acompanhamento da Avaliação de Professores, mas a tutela comprometeu-se apenas a constituir, até final do mês, uma comissão paritária com a administração educativa, que terá acesso a todos os documentos de reflexão, tendo em vista o acompanhamento da aplicação do modelo de avaliação.

Ainda assim, a plataforma sindical conseguiu a realização de um processo negocial que terá lugar em Junho e Julho de 2009, tendo em vista a introdução de "eventuais modificações ou alterações".

Outra das reivindicações dos professores prendia-se com a aplicação de qualquer procedimento decorrente do novo diploma sobre gestão escolar apenas a partir do final do primeiro período do próximo ano lectivo.

Segundo este diploma, os futuros conselhos gerais deveriam estar constituídos até ao final deste ano lectivo, mas o Governo vai permitir que os membros daquele órgão estejam eleitos até 30 de Setembro de 2008.

Mário Nogueira fala em "grande vitória para os professores

"Mário Nogueira, porta-voz da plataforma sindical, disse no final da reunião com a equipa ministerial, que "não existe um acordo. Para isso teria de ser muito mais profundo. Viemos aqui para tentar salvar o terceiro período, a pensar na tranquilidade dos alunos. É um entendimento e uma grande vitória para os professores que mostra que vale mesmo a pena lutar".

Em relação aos protestos que estão agendados para este mês, o dirigente sindical anunciou que serão mantidas as concentrações de professores previstas para segunda-feira, nas capitais de distrito da região Norte, onde será explicado aos docentes "o entendimento" alcançado hoje com a ministra Maria de Lurdes Rodrigues.

Terça-feira, realiza-se em todas as escolas o "Dia D", de reflexão, onde serão discutidos com os professores os conteúdos do documento elaborado hoje, e a partir dessa "ratificação" os sindicatos poderão suspender as restantes acções, se for essa a vontade dos professores.

Ministra afasta ideia de ter saído derrotada e prefere falar em "aproximação"

"Não há suspensões, não há adiamentos, não há experimentações", congratulou-se a ministra da Educação, que terça, quinta e sexta-feira reuniu com os sindicatos num total de 14h30 horas, juntamente com os secretários de Estado, Valter Lemos e Jorge Pedreira.

Questionada se tinha sido derrotada, depois dos sindicatos reclamarem uma vitória, Maria de Lurdes Rodrigues referiu-se a uma "aproximação" entre as duas partes.

"Há jogos de soma nula e jogos de soma positiva. Aquilo que considero é que houve uma aproximação e o mais importante é que o modelo de aproximação não está hoje em causa e que as escolas têm melhores condições para o concretizar", referiu a titular da pasta da educação.

"Chegámos a um compromisso, um esforço de aproximação que permite criar boas condições para a concretização da avaliação. A partir de pontos tão distantes, conseguimos realizar este acordo sem que fique comprometido o processo de avaliação nas escolas", reiterou.

A declaração conjunta do Ministério da Educação e da Plataforma Sindical de Professores, que irá conter o entendimento alcançado, será assinada quinta-feira, às 11h00, nas instalações do Conselho Nacional da Educação.

Lusa/Público Online, 12/04/2008

sábado, 12 de abril de 2008

Atentado de 11/2: A reportagem de Felícia Cabrita

O DIA EM QUE TIMOR VOLTOU A SANGRAR

Histórias de mal-entendidos, traições e mulheres “fatais”, que reabriu as feridas em Timor mesmo à beira de um acordo.

A reunião convocada por Ramos-Horta com todos os partidos políticos de Timor-Leste e com o primeiro-ministro, Xanana Gusmão, está na base do atentado que quase vitimou o Presidente. Um dos assuntos prioritários do encontro era descobrir uma solução para a situação dos 'peticionários'.

Em 2006, cinco centenas de militantes, liderados pelo tenente Gastão Salsinha, tinham saído dos quartéis em protesto contra a discriminação existente entre os militares oriundos da zona da resistência e os que foram submetidos à influência indonésia durante a ocupação.

Em entrevista ao SOL em Março, Ramos-Horta admitiu que esta era uma questão urgente: “Estávamos a tratar de uma amnistia que seria promulgada em Maio e que permitiria integrar os 'peticionários' de novo no exército ou, caso não quisessem voltar aos seus postos, saírem com um subsídio para reconstituir as suas vidas”.

Mas o problema mais delicado levantado na reunião – e que não reunia o consenso – dizia respeito ao major Alfredo Reinado que, ao contrário de Salsinha, era acusado de vários homicídios. Mari Alkatiri, secretário-geral da Fretilin, garantiu ao SOL que a Lei da Amnistia tinha de ser muito bem pensada. “Nunca votarei numa lei em que as pessoas que praticaram crimes de sangue possam ter um perdão e voltar a integrar as forças armadas ou a polícia sem serem submetidas a julgamento”.

Segundo Ramos-Horta, o chefe do Estado-Maior das F-FDTL (Forças de Defesa de Timor-Leste), brigadeiro-general Matan Ruak, tinha uma posição ainda mais dura e avisou-o de que Reinado e Salsinha “nunca poderiam regressar às Forças Armadas”.

Solução para Reinado

Mas Ramos-Horta encontrara uma solução conciliatória: “O major Reinado tinha um contrato por quatro anos com as F-FDTL que estava a terminar. Ele voltaria, resignava e depois saía elegantemente com uma compensação monetária. Mas penso que alguém deturpou o que se passou na reunião para os envenenar”.

Outro dos temas discutidos deixou amargos de boca a alguns dos intervenientes. Mari Alkatiri explicou ao SOL: “O meu partido sempre disse que este Governo era inconstitucional. Apesar de Xanana ter tido apenas 24% dos votos e nós 29, fez uma aliança com três partidos para formar Governo. Eu não me sentiria com legitimidade democrática para governar.” Alkatiri não fica por aqui faz a ligação ao atentado: O Presidente andava em negociações com eles e tudo parecia bem encaminhado. O Reinado não tinha razões para matar Ramos-Horta. Na reunião este assunto estava praticamente decidido e as eleições seriam em 2009. Quem tinha mais a perder?”

O resultado desta reunião, na íntegra ou deturpado, espalhou-se rapidamente nas montanhas onde se abrigavam os homens de Salsinha e de Reinado. O SOL teve acesso a todas as listagens telefónicas, que foram encontradas em dois papéis na posse de Reinado e de Leopoldino Exposto, o seu braço direito.

Feito o cruzamento das chamadas, pode concluir-se que Reinado foi traído em várias frentes e por aqueles que lhe eram mais próximos.

Um deles, Gastão Salsinha. Desde o dia da reunião no Palácio das Cinzas que o volume de chamadas feita por ele triplicou. A notícia da reunião chegara às montanhas e Salsinha – em relação a quem não havia suspeitas de crimes de sangue, ao contrário do que acontecia com Reinado -, ao saber que não iria ser integrado nas forças armadas, virou-se contra Reinado.

Preparação do golpe

Em entrevista ao SOL, Salsinha separa as águas: “Os 'peticionários' não podem ser envolvidos nas coisas de Reinado, eu nem sei qual era o plano dele quando foi a casa do Presidente”.

Nessa noite, mal dorme. Desfaz-se em contactos para a Austrália e Indonésia, mas a maioria das chamadas é para o interior do país. Várias delas para Assanku, que integraria o grupo que foi com Reinado à residência de Ramos-Horta no dia do atentado. Contactado pelo SOL, Assanku negou: “Não tenho nada a ver com isso. Trabalho numa rmpresa de segurança e não conheço ninguém ligado ao Salsinha ou ao Reinado.”

No dia 9 de Fevereiro, Assanku contacta Albino Assis, um dos militares que presta segurança na residência de Ramos-Horta. A armadilha estava montada. No dia seguinte, Assanku encontra-se com Leopoldino, braço direito de Reinado, que está na capital, e alugam dois jipes.

Na noite de 10 de Fevereiro, Reinado passa pela casa de Vítor Alves, membro do Conselho de Estado e seu pai adoptivo. Este revela: “Reinado disse-me que tinha uma reunião com Ramos-Horta e que no dia 14 haveria uma grande festa em Ermera”. O que cola com o discurso de Horta: “Na reunião antes do atentado eu estava de partida para o Brasil. Mas como estávamos quase a chegar a um acordo em relação ao Reinado, os líderes dos partidos pediram-me para vir mais cedo e anunciar o acordo antes de dia 14. E em Abril anunciaria a Lei da Amnistia que os contemplava, porque não se tratava de crimes de delito mas de uma situação política”.

Amante faz jogo duplo

Nesse dia, Ângela Pires, ex-assessora do Procurador-geral da República, regressa com Reinado a Ermera. Faz-se passar por sua assessora jurídica, mas a história amorosa entre eles é pública. Durante os dois dias que esteve com Reinado, a mulher mantém-se em ligação com Salsinha. Nos últimos dias, levantara da sua conta uma razoável quantia de dinheiro. Ramos Horta considera-a, a “grande responsável” pelo que aconteceu. “A Ângela foi sempre um travão nas negociações com Reinado. Deve ter muita gente na sua retaguarda”.

Enquanto Reinado preparava o arranque para Díli, Ameta, uma mulher com quem vivia, tenta em vão falar com ele. Por fim, deixa-lhe uma mensagem alertando-o, aparentemente, para uma cilada: “Tenha cuidado mor [amor] não é preciso ires a este seminário [reunião] se não te sentires bem. Não te esqueças de seguir o ritual daquilo que acreditamos. Amo-te sempre”. Contactada pelo SOL, a mulher (que tem uma filha de Reinado ainda bebé) garante não ter conhecimento do que se passou: “Eu era a sua mulher, era normal falarmos ao telefone ou mandar-lhe mensagens, mas nunca participei em nada. Estava em casa, cozinhava, limpava e cuidava da nossa filha”.

Nessa madrugada, pelas três da manhã, Reinado e Leopoldino, mais nove homens, rumam a Díli em jipes diferentes. A leitura das listagens telefónicas mostra que a partir desse momento estão dois chefes, mas que é Salsinha quem gere os acontecimentos. Seriam 6H17 quando Reinado entrou na casa do Presidente. Sem as cautelas próprias de quem prepara um atentado, o grupo estaciona os jipes em frente à residência. Mal saem dos carros, a sentinela aponta-lhes a arma mas é desarmado.

Sete homens de Reinado ficam na estrada, entre eles Assanku, que sempre fez a ponte com o segurança de Ramos Horta, Albino Assis.

Reinado pergunta à sentinela pelo Presidente, ao que ele responde que tinha ido “para a ginástica”.

Reinado e Leopoldino entram, com dois homens atrás. Três minutos depois ouvem-se tiros, seguidos de rajadas. A partir deste momento as versões deixam de coincidir.

O autor das mortes

Francisco Marçal, militar das F-FDTL, diz que foi o único a disparar contra Reinado e Leopoldino.

Eram 6H30 quando foi acordado por Tadeus Gabriel, um miúdo de 14 anos. Este, com grande precisão, relatou ao SOL, que se deparou com “nove homens de máscaras no rosto”. Acrescenta que só reconheceu Reinado por vê-lo na televisão.

Aí aproximou-se da tenda onde dormiam os militares Francisco Marçal e Albino Assis. Ao ouvir o grito do garoto – “Está aqui o major Reinado” -, Francisco esgueirou-se pelas traseiras. Durante 15 minutos seguiu os passos de Reinado e Leopoldino.

Depois preparou a metralhadora: “Não fiz rajada, foi tiro a tiro. Disparei um na cabeça de Leopoldino e outro na cara de Reinado”. A esta hora os telemóveis de Salsinha continuam em uso e a informação da morte de Reinado passa a circular. E a informação da morte de Reinado passa a circular. Ramos Horta, apesar de ter ouvido os tiros, dirige-se para casa. Eram quase sete da manhã quando um homem escondido entre os arbustos se ergue e o atinge por duas vezes. Os militares da sua segurança mantiveram-se no quintal. As forças internacionais não se mexem, e se não fosse a GNR e o enfermeiro do INEM que chegaram ao local uns vinte minutos depois, Ramos Horta estaria morto.

Enquanto o Presidente segue para o hospital, Assanku recolhe informações com Assis. Uma hora depois, será a vez de o carro de Xanana ser baleado a 500 metros de casa.

Mistério envolve Xanana

Também aqui as coisas correm de forma insólita. Salsinha garante que estava lá “só para lhe pregar um susto, porque a situação dos 'peticionários' nunca mais se resolvia”. Enquanto os seus homens se vão entregando, Salsinha ainda não decidiu o seu futuro: “Os meus homens agora estão divididos em quatro grupos e eu não sei se me entregue ou se lute até morrer”.

Mas foi após a morte de Reinado que os traidores se revelaram com mais desfaçatez. O telemóvel dele esteve a funcionar até ao dia 28. E Ângela e Salsinha, entre outros, mantiveram-se em conversações com os militares que o mataram.

Felícia Cabrita, em Díli

SOL, 12/04/2008
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O meu comentário sobre a cronologia da sequência dos acontecimentos está na postagem anterior.