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terça-feira, 27 de maio de 2008

Novo romance de Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

História de uma obsessão

por Rita Silva Freire

Um bibliófilo apaixona-se por uma misteriosa mulher a quem compra uns livros antigos. Apesar de estar com ela apenas duas vezes, é esta paixão obsessiva que vai reger a sua vida durante largo tempo. E que vai ditar a narrativa de Alfreda ou a Quimera, o novo romance de Vasco Graça Moura. Nascido na Foz do Douro em 1942, Vasco Graça Moura licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa, tendo advogado no Porto entre 1966 e 1983. Poeta, ficcionista, ensaísta, cronista e tradutor, é também deputado ao Parlamento Europeu desde 1999. Recebeu, entre outros prémios, o Pessoa (1995), os de Poesia do Pen Club (1997) e da APE (1997) o de Romance e Novela APE/IPLB (2004); e vários como tradutor de obras como, entre muitas outras, a Divina Comédia - o último dos quais o Prémio de Tradução 2007 do Ministério da Cultura Italiano, de 2007. É autor de, entre outras obras de ficção, Meu Amor, Era de Noite e Por Detrás da Magnólia.

Jornal de Letras: Como surgiu Alfreda e a Quimera?

Vasco Graça Moura: A partir de um conto que escrevi a convite do Expresso e que saiu no Verão do ano passado, chamado Ex-Libris – que é aliás o título que deia um dos capítulos do romance, no qual se desenhava já a primeira parte da história contada ao longo do livro. Achei que tinha potencialidade para o prolongar, e foi isso que fiz. É a história de uma obsessão, nascida a partir de dois meros encontros do narrador com uma personagem.

O livro centra-se numa determinada elite do Porto. Foi-lhe importante o conhecimento do meio para construir as personagens?

Essa atmosfera tem que ver um pouco com a minha própria experiências, mas não houve modelos para as personagens que, tanto quanto eu delas tenha consciência , são inventadas. Há uma personagem ao longo de todo o livro, a cidade do Porto, misto de reminiscências e de dados objectivos, e essa é uma parte que me interessou também como tentativa de resolver um problema técnico: fazer, de algum modo, uma cidade ter o seu peso, quer como paisagem, quer quase como personagem humanizada.


Há uma forte relação de amizade entre o protagonista e Pips, um inglês homossexual. O que lhe interessou explorar?

A dimensão humana de uma personagem que não tem modelo nas pessoas que conheço. Interessou-me criar uma figura com uma dimensão suficientemente simpática, nas suas idiossincrasias, nos seus tiques e nas suas preocupações, que me pareceu ter um conteúdo significativo para a história. Mas não me preocupei em explorar a questão da homossexualidade.


O narrador, João de Melo Saraiva, tem uma forte relação com os livros…

Posso ter-me inspirado na minha própria relação com os livros, embora eu não seja bibliófilo nem especialista como a minha personagem. E ao contrário de João de Melo Saraiva, eu acredito no futuro do livro. Por outro lado, a personagem é indiferente a uma série de problemáticas – nomeadamente sociais, o que não é o meu caso. Não é, nem de perto nem de longe, uma personagem autobiográfica.

Projectos futuros de escrita?

Tenho para sair, até ao princípio do Verão, uma pequena novela, na Alêtheia, intitulada O Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp, e a tradução de O Cid, de Corneille. Tenho também um livro de contos para publicar em Outubro.

Jornal de Letras (JL), nº 981 (de 7 a 20 de Maio de 2008)

Sermão de Natália aos luso-americanos

por Onésimo Teotónio Almeida

Em crónica anterior contei aqui como uma pista deixada no diário de uma vinda aos Estados Unidos, Descobri Que Era Europeia, me permitiu descobrir no jornal The Boston Globe importantes dados biográficos sobre o contexto dessa viagem de Natália Correia, sobre que o próprio livro é estranhamente omisso. A escritora refere entretanto ainda uma outra aparição em público, desta vez num programa de rádio da então chamada colónia portuguesa. Uma busca no jornal Diário de Notícias, que durante 50 anos se publicou em New Bedford, Massachusetts, revelou uma notícia sobre o evento e o texto da própria alocução radiofónica de Natália. Longo para a extensão média deste espaço, espero que a redacção do JL julgue valer a pena transcrever a peça na íntegra:

Esteve ontem em N. Bedford a jornalista Natália Correia, do Diário de Lisboa.

A ilustre e culta senhora que se fazia acompanhar de seu marido, fez uma interessante palestra na Rádio sobre Portugal

Acompanhada de seu marido, sr. William Creighton Hyler, meteorologista da T.W.A em Portugal, esteve ontem em New Bedford, a escritora e jornalista portuguesa, srª. D. Natália Correia, que veio aos Estados Unidos visitar a família de seu esposo, que reside no Estado do Maine, e colher alguns dados para uma série de artigos de que vem incumbida pelo importante jornal, Diário de Lisboa.

A jovem e culta senhora, que é natural de S. Miguel, bem como seu distinto esposo, passaram algumas horas na residência do nosso director mr. João R. Rocha, para quem traziam uma amável carta de introdução do sr. comandante José Cabral, director da T.W.A. em Lisboa. Procediam de Boston, onde haviam chegado de Portugal na sexta-feira, e ontem mesmo, tarde de noite, seguiram para Nova York, onde contam demorar-se alguns dias, antes de partirem para a Califórnia.

Os ilustres viajantes tencionam demorar-se nos Estados Unidos até princípios de Julho próximo, quando regressarão a Lisboa.

Uma palestra pela rádio

Natália Correia, em quem, apesar de jovem (terá uns 25 anos), se denota uma cultura invulgar, tem colaborado em várias publicações portuguesas, entre elas O Sol e A República, reproduzindo nós, durante a célebre última campanha eleitoral para a Presidência em Portugal, um artigo de sua autoria, que este último jornal lisboeta então publicara.

No programa radiofónico «Hora Portuguesa», de que é director e locutor o sr. Francisco Oliveira, para quem trazia também uma carta de apresentação do sr. comandante Cabral, Natália Correia proferiu ontem uma interessante palestra, subordinada ao tema: «A civilização portuguesa – um caso sem paralelo na Europa», de que arquivamos estes passos:

«A civilização portuguesa contém valores históricos e espirituais de alto preço que são por si só uma força de coesão para todos os portugueses de aquém e além Atlântico. Dentro da Europa é um caso sui generis. Simples colocação geográfica? Heterogeneidade de influências rácicas fecundando um produto humano especial? Mais verosímil do que todas estas perplexidades parece-nos o factor histórico que talhou ao povo português um destino em que a ironia parece comprazer-se em fazer-lhe pagar o preço de tanta glória conquistada.

As nossas viagens marítimas dos séculos XV, XVI e XVII, colocaram-nos à frente da civilização. A nossa História trágico-marítima dá-nos notícia na sua linguagem expontânea (sic) e popular narrada por quem viveu tão patéticos acontecimentos, dos lances trágicos do despedaçar da mastreação, preces perdidas na inclemência dos vendavais, a marinhagem quase arrastada pela fome à antropofagia, toda a grandeza e toda a miséria do homem... quantos naufrágios nas entranhas monstruosas do oceano? A praia de Belém de onde partiram as naus, era então chamada a praia das lágrimas... dos que partiam, a quantos seria dado voltar?

O ouro vindo dessa Índia estranha não chegava para secar as fontes de pranto e os rios de sangue que corriam misturados no caminho de tão alta glória.

Povo descobridor

Há uma fronteira intransponível entre o povo descobridor e o povo conquistador. O primeiro é levado à descoberta pela inquietação e pela virtude sublime de criar. O último é impelido pelo orgulho e pelo espírito de dominação que afunda as suas raízes nas regiões sombrias do sadismo. Temos exemplos flagrantes desta atávica aberração nos nossos dias.

Fomos um povo criador. Não recebemos, demos. Se não conservámos o fruto das nossas descobertas foi por não possuirmos a vitalidade guerreira que acaba por afogar em sangue os mais vastos impérios.

Lançámo-nos na aventura pelo amor do desconhecido. Não para submeter povos. Fomos atrás dum sonho. Uma vez chegados ao porto da revelação desprendemos as nossas naus no mar do imprevisto levadas no vento duma perene inquietação.

Essa ausência de crueldade bélica está ainda hoje bem vinculada nos nossos processos de colonização, de entre todos os mais humanos e pacíficos. Em relação ao mundo europeu Portugal tem a sua vida própria e mantem-se fiel à ética em que tradicionalmente se encontra elaborada a sociedade da casa lusitana.

Não sofremos quer a corrupção de princípios, quer a inversão de conceitos morais a que está submetido um mais quando o seu corpo é dilacerado pela guerra. Acreditamos no que acreditámos ontem. Temos a pureza dos que nunca sentiram na boca o gosto amargo da desgraça. O nosso povo não correu em hordas em degradante espectáculo apocalíptico a refugiar-se nos abrigos. O black-out jamais empenou o brilho das nossas estrelas. Os bombardeiros não tornaram em pó as pedras documentais dos nossos monumentos. Por isso a ingenuidade da nossa doçura meridional sobrevive naquele canto do mundo, como uma coisa limpa e desusada, debruçada na janela florida dum passado que contempla o resto do mundo com os olhos velados de melancolia.

Sobre Portugal pode-se afirmar paradoxalmente que é o menos europeu e ao mesmo tempo o mais europeu dos países europeus. Porquê? Devido a fenómenos exteriores que fizeram a Europa participar da terrível convulsão que abalou o mundo nestes últimos tempos. O contraste vem de fora e sempre estabelecido na medida em que as transmutações vestem a Europa de novas epidermes. Porquê? Dizíamos. Portugal é o país menos europeu em relação à Europa moderna destituída das suas tradicionais instituições. Mas é ainda nessa qualidade que ele é o país mais europeu da Europa, pois é, dentro daquele continente o último reduto da ética e espírito humanístico que foram apanágio da velha civilização europeia». (fim de citação)

Salazar teria gostado. E eventualmente desejado enfileirar Natália na sua lista de ideólogos (salvo seja!). É de facto estranho que a escritora, tão precoce na sua crítica aos Estados Unidos, mantivesse ainda uma visão assim contrastantemente naïve da História de Portugal. Especialmente tendo em conta que, muito antes de 1950, já um significativo número de intelectuais portugueses se purgara de uma encenação tão beatífica da nossa epopeia dos descobrimentos que, aliás, a simples leitura das crónicas de Zurara desde logo desautoriza.

De qualquer modo, diante daquele microfone ela tinha em mente a «colónia lusíada», como então soía chamar-se, e era preciso dar ânimo a essa comunidade a acumular diariamente complexos no confronto entre a cultura anglo-saxónica dominante e a sua, que a levara à emigração.

Natália, tão jovem ainda, e já a lançar-se na retórica barroca que sempre revestiu a sua prosa, embalada em rasgos arrebatados de palavra empolgante, sua marca com os anos tornada inconfundível. Já aí estava, além disso, igualmente clara a sua alma nietzschiana. Pregava corações ao alto! Porque os portugueses afinal eram europeus e por isso, segundo ela, melhores do que os americanos. E, mesmo na Europa, não eram simplesmente europeus, eram super-homens.

Jornal de Letras (JL) nº 981, de 7 a 20 de Maio de 2008