quinta-feira, 19 de julho de 2007

Web 2.0

O pergaminho do século XXI

Os entusiastas dos livros digitais (vulgo ebooks) afirmam que a actual configuração do livro, tal qual como a conhecemos, irá desaparecer dentro de algumas décadas, sendo substituída pelo chamado livro de suporte digital. Esta "Boa Nova" apregoada por esses novos "apóstolos" da nossa era traz imensas vantagens para os professores "nómadas", que saltitam de escola em escola, o que implica também transportarem a "casa às costas" para a instalarem no seu novo poiso, pois não terão necessidade de arrastar atrás de si todos os seus papiros volumosos e pesadões. Uma outra vantagem é a partir do nosso computador pessoal termos acesso a livros sem entrarmos em nenhuma biblioteca tradicional, poupando assim tempo e dinheiro nas deslocações, bastando apenas descarregar o seu conteúdo digital no nosso computador pessoal. Para os saudosistas do papiro e do pergaminho já existe um utensílio, o Softbook, que simula o livro-papel, podendo folheá-lo página a página, sublinhar ou comentar passagens (com uma canetal digital) e com uma capacidade para "armazenar até 100 mil páginas de texto ou imagens".


Textos de referência:


- Jorge Nascimento Rodrigues, Os Primeiros Livros Digitais



- Jorge Nascimento Rodrigues, O "papel" do futuro ou como Gutemberg ficaria de boca aberta


terça-feira, 17 de julho de 2007

AMP e Fretilin em retiro

Os estados maiores da AMP e Fretilin estão em retiro a fim de remover escolhos no caminho da formação do IV governo constitucional. Afinal sempre vai haver um governo de coligação com a Fretilin! A vantagem é criar a curto prazo um clima de tranquilidade política e social, pois vai de encontro às pretensões de alguns apegados à manjedoura, como dizia Francisco Sousa Tavares. Mas a médio e longo prazo este tipo de arranjinho vai originar uma instabilidade governativa muito grande que transvasará para as ruas de uma forma explosiva, que não haverá tropas de manutenção de paz que chegue para a suster; devido, por um lado, às rivalidades pessoais e políticas muito latentes entre os membros do possível futuro governo, por outro, pela mais que certa injustiça originada pela corrupção e amiguismo resultantes da não fiscalização por parte do Parlamento Nacional, uma vez que este órgão de soberania irá transformar-se em simples porta-voz do governo. «A minha alma está parva!!»

segunda-feira, 9 de julho de 2007

65 lugares no novo Parlamento Nacional

Mandatos atribuídos aos sete partidos e coligações (que ultrapassaram a fasquia dos 3% necessários para aceder ao PN) resultantes das legislativas de 30 de Junho:


Fretilin - 21 deputados
CNRT - 18 deputados
Coligação PSD/ASDT - 11 deputados
PD - 8 deputados
PUN - 3 deputados
AD-KOTA/PPT - 2 deputados
UNDERTIM - 2 deputados
Total: 65 deputados


Confirmou-se a minha previsão publicada no artigo «Um Pouco de Futurologia», de 18 de Maio : assim, os partidos (ainda com assento no actual PN) e que concorreram sem coligações às legislativas de 30 de Junho (PDC, PNT, PST e UDT) não conseguiram eleger nenhum deputado, devido à "lei dos 3%" copiada da Frelimo.

Timor: pós-eleições 3

Mari Alkatiri, secretário-geral da Fretilin

"Não vamos tolerar não ser governo"

São dias quentes em Díli. Correndo sérios riscos de ser afastada do poder por uma aliança maioritária de Xanana com os outros partidos, a Fretilin coloca os pontos nos ii, exibindo uma posição extrema de força. Numa entrevista muito frontal, Mari Alkatiri diz que o seu partido recusa ir para a oposição e exige liderar o governo, mesmo que não esteja coligado com ninguém e fique em minoria. A alternativa é clara e está cada vez mais próxima: a crise em Timor vai agravar-se.

Entrevista de Micael Pereira, enviado especial a Timor-Leste

Já há fumo branco em relação ao governo que vai sair destas eleições?
Não. Da nossa parte sabemos que recebemos um mandato para liderar o governo. Naturalmente, não tendo tido maioria absoluta, temos de saber ir buscar alianças para formar o governo.
Falou-se nos últimos dias de um possível acordo entre a Fretilin e o Partido Democrático (PD) de Fernando Lassama. Esse acordo não existe?
Ainda não há acordo nenhum. Há contactos a vários níveis com esse partido, mas naturalmente que todos sabem que, para formar governo, o CNRT precisa de todos os partidos. Também o CNRT deve andar a fazer uma certa pressão sobre eles. Nós queremos falar de igual para igual com eles e tentar demonstrar as vantagens de uma aliança connosco, enquanto o CNRT usa pressão.
Conversou directamente com Lassama?
Não conversei ainda. O assunto está a ser tratado a nível de membros da comissão política nacional. Ainda não chegou ao secretário-geral e ao presidente dos partidos.
O que é que a Fretilin tem para oferecer ao PD?
Num governo de coligação tem de haver distribuição de pastas. E neste caso, qualquer coligação tem de ter uma incidência parlamentar e outra governamental. É isso que estamos a negociar. Está tudo em aberto.
Veria Lassama como o braço direito de um primeiro-ministro da Fretilin?
A Fretilin deve liderar o governo. O primeiro-ministro tem de ser do partido. Tudo o resto é negociável.
De qualquer forma, mesmo com a ajuda do partido Kota e uma eventual coligação com o PD, isso não é suficiente para garantir a maioria dos lugares no parlamento.
Nós precisamos do PD e mais dos dois partidos pequenos, Kota/PPT e Undertim.
A Undertim, tal como o PD, faz parte de um cenário de aliança com o CNRT.
Não creio. É exactamente o oposto. Estão mais connosco.
Confia numa aliança com Cornélio Gama (Undertim)? Ele tem sido volátil ao longo dos anos.
Vamos confiar no colectivo e não só numa pessoa.
A Undertim tem dois deputados que farão também a diferença no parlamento, sobretudo em dossiês difíceis. Esse partido pode decidir a maioria nas votações.
Sim.
Ramos-Horta disse, em entrevista ao Expresso, que estava a tentar uma solução que satisfaça todas as partes, o que significaria um governo que juntaria CNRT e Fretilin.
Do meu ponto de vista, o CNRT nasceu para fazer oposição à Fretilin. E qualquer democracia precisa de uma oposição forte. Uma eventual coligação que junte CNRT e Fretilin vai trazer essa oposição para dentro do próprio governo. E isso não é saudável. É preferível que o CNRT se afirme como uma oposição forte no parlamento.
Quer dizer que tem a porta fechada para um acordo com o CNRT?
Com o que Xanana fez ao longo da campanha, o que é que ele pretendia ao criar o CNRT? Era a destruição da Fretilin. Não conseguiu. Não conseguiu sequer ser o partido mais votado. Mas continua a ser um partido forte, que pode perfeitamente fazer um bom papel como oposição.
O que é que distingue o CNRT e o PD? Com o PD, não corre o risco de ter oposição interna no governo?
Não, porque o PD, que existe há cinco ou seis anos, nasceu para concorrer a alguns lugares no parlamento. Nunca nasceu com o objectivo de destruir a Fretilin. Nasceu como um partido para enriquecer a democracia. Agora o CNRT, não. Nasceu para destruir a Fretilin.
Quando acha que vai ser possível anunciar uma solução?
É muito cedo. No fundo, só hoje é que obtivemos os resultados mais ou menos finais.
Pode demorar dias?
Talvez semanas.
Como correu hoje a conversa que teve com o presidente da República?
Foi uma conversa a pedido do dr. Ramos Horta para ouvir as nossas opiniões. Nós tornámos claro que a nossa interpretação dos resultados eleitorais é de que a Fretilin tem um mandato para liderar o governo, mas que ao mesmo tempo o povo fez-nos chegar uma mensagem clara de que a Fretilin não vai governar sozinha.
Ramos-Horta insistiu consigo para um compromisso com o CNRT?
A maior preocupação do dr. Ramos-Horta é ter uma estabilidade governativa.
Qualquer que ela seja?
Sim.
Tinha na sua cabeça há muito tempo que ia necessitar de outros partidos para viabilizar o governo?
Mesmo em 2001 e 2002, fizemos um governo de inclusão. Naquela altura fizemos também uma aproximação aos partidos para fazerem parte do governo, apesar de a Fretilin ter uma maioria absoluta. Só que com um princípio: se são do governo, então as bancadas do parlamento também se aliam. Não podiam ser do governo e fazer oposição no parlamento.
Isso aconteceu com Lassama, mas por muito pouco tempo.Foi durante o governo de transição. Quando se passou à restauração da independência, a questão pôs-se claramente: estávamos a discutir ainda a constituição e fazia sentido que todos os partidos a enriquecessem.
A Fretilin foi sendo acusada ao longo dos anos por todos os partidos da oposição de tentar ter uma exposição hegemónica em relação à governação do país e de ter vincado a vontade de governar sozinha. Um governo de coligação da Fretilin será tão eficaz como o que liderou até ao ano passado?
Um governo de coligação é sempre diferente. Hegemonia ou não, as eleições (de 2001) foram livres e democráticas. Houve um partido que venceu com maioria, que governou de forma inclusiva, com independentes, e depois a oposição pretendia que qualquer decisão se fizesse em consenso. O consenso, nesse caso específico, seria antidemocrático. Seriam as minorias a impor as regras sobre a maioria. Imagine a hipótese de todos os outros partidos agora se juntarem e decidirem formar governo. A Fretilin haveria de dizer: «não, tem de haver consenso»? O partido com maior representatividade no parlamento impõe as regras do jogo. Essa é a questão que nunca foi compreendida.
Se a aliança entre o CNRT, o ASDT/PSD e PD for para a frente, a Fretilin considera essa situação como ilegítima?
Não estou a colocar a questão da ilegitimidade. Mas até seria menos legítima, porque nem sequer foram votados como aliança. É verdade que é uma aliança pós-eleitoral…Às vezes as alianças perdem votos (quando se coligam antes das eleições). Uma coligação pós-eleitoral não pode achar-se no direito de ser ela a formar governo.
Independentemente de qualquer aliança, a Fretilin tem de estar no governo?
Sim.
Está a dizer que a Fretilin pode avançar para um governo minoritário? Irá propor isso a Ramos-Horta caso não chegue a acordo com nenhum partido?
Claro. Se não for possível fazer alianças, temos de tomar uma decisão. Para não frustrar a expectativa do eleitorado, devemos avançar, mesmo que seja para um governo minoritário.

Não há o risco de ver chumbado de imediato o programa de governo? Se os outros partidos entenderem chumbá-lo uma primeira e uma segunda vez, os procedimentos são claros: novas eleições. Está disposto a ir para novas eleições?
Eu estou disposto.
De qualquer forma, mediante uma proposta sua para um governo minoritário e uma proposta alternativa feita pela aliança liderada pelo CNRT, o presidente tem nas mãos dele a possibilidade de convidar essa aliança para formar governo.
Não tem, não.
A constituição não diz que sim?
Não diz. A interpretação da constituição é clara. A Fretilin recebeu um mandato para liderar o governo.
Essa é a interpretação que faz?
É preciso convidar o partido mais votado.
Discutiu esse assunto hoje com o presidente?
Já não é para a primeira vez.
E Ramos-Horta está de acordo com a sua interpretação da constituição?
O dr. Ramos-Horta vai pedir a opinião de constitucionalistas e juristas. Está no direito de o fazer.
O facto de partir para um governo minoritário, sabendo à partida que terá o seu programa de governo chumbado, significa que nos próximos dez meses a governação de Timor ficará em suspenso.
Não podemos também exigir sempre sacrifícios da Fretilin. Já foi sacrificada durante um ano. A Fretilin só quer respeitar a vontade expressa pelo povo.
Como é que acha que essa decisão vai mexer com a crise actual em Timor?
É bom que todos pensem nisso.
Mas vai agravar a crise.
Eu espero que não. Mas penso que a Fretilin está no seu direito de dizer que recebeu o seu mandato e quer liderar o governo.
Tem consciência de que a crise não está resolvida? Problemas graves, como a situação dos peticionários, a responsabilidade criminal dos acontecimentos do ano passado e a questão humanitária, para os quais o povo espera uma resposta rápida, continuam em aberto.
Então, os que tiveram menos votos que a Fretilin devem assumir essa responsabilidade. Não deve ser só a Fretilin a assumi-la.
Está a dizer que se propõe a passar essa responsabilidade para o lado deles?
Devem assumi-la porque o povo não lhes conferiu um mandato para governar.
Este é um recado que quer dar aos outros partidos, sobretudo ao Partido Democrático, que está a tentar decidir para que lado se vira?
Não há segunda volta nas eleições parlamentares. Eu julgo que estão a querer fazer um outro tipo de segunda volta.
Como assim?
Coligarem-se todos e dizerem: nós fomos os mais votados. Isso não é nada.
É esse o recado que tem passado ao Partido Democrático, para eles terem consciência do cenário?
Nós não estamos a fazer pressão sobre o Partido Democrático. Eu estou a falar publicamente.
Mas cabe neste momento a Fernando Lassama, provavelmente mais do que a Xanana, decidir se quer estar envolvido num cenário em que a crise se pode arrastar por dez meses. Não quero estar dizer que Fernando Lassama será o maior responsável.
Parece que ele é o eixo da equação.
Mas, de modo algum, quero deixar as culpas a Fernando Lassama. (Deixo-as) a alguém que ambiciona ser primeiro-ministro deste país a todo custo.
Xanana?
Claro.
E ele quer ser primeiro-ministro a todo o custo?
Ou ele ou alguém. Há duas pessoas que estão obsessivas em querer ser primeiro-ministro: Xanana e Mário Carrascalão.
E se o presidente decidir, no fim, que é constitucional convidar a aliança de Xanana Gusmão? Qual será a atitude da Fretilin?
Vamos ter de encontrar um caminho no sentido de mostrar claramente que nós existimos e que não vamos tolerar não ser governo.
Na semana passada, antes das eleições, mostrava-se disponível para ir para a oposição. Hoje a sua atitude é diferente.
Por causa do mandato que recebemos.
Iria para a oposição apenas se fosse o segundo partido mais votado?
Se fosse o segundo partido mais votado, mesmo que tivesse possibilidade de alianças para ter a maioria, eu preferiria estar na oposição. Iria respeitar a vontade do povo. Não iria frustrar a expectativa popular. A aliança que Xanana quer fazer é mesmo para desrespeitar a vontade do povo. Isto é inadmissível em democracia.
Tem recebido telefonemas ou visitas de observadores ou analistas internacionais a aconselhá-lo sobre o que deve fazer?
Têm-me perguntado qual será a posição da Fretilin perante vários cenários. Continuo a dizer que a maior preocupação da Fretilin é respeitar a vontade expressa do povo.
Não recebeu pressão da comunidade internacional?
Que não se atrevam.
Digo isso porque a comunidade internacional está muito atenta ao que se está a passar em Timor.
Sabem perfeitamente que reajo mal às pressões.
Nem da parte da ONU tem recebido pressão?
Eles já me conhecem. Sabem que reajo mal.
Estava preparado para um resultado pior?
Naturalmente que quem avança para uma situação destas está sempre preparado para um resultado pior. Mas tinha também a esperança de ter um resultado um bocadinho melhor.
Sente-se mais vitorioso do que derrotado?
Muito mais vitorioso do que derrotado. Há muitas análises sobre o assunto. Se há um partido que se bateu sozinho contra tudo e todos foi a Fretilin. Mesmo assim, conseguimos ser os mais votados. E com uma representatividade nacional, que nem todos têm. Estas eleições demonstraram que a Fretilin não é só a zona leste. É o país.
Tem ideia de quem poderá vir a ser o primeiro-ministro proposto pela Fretilin?
Não, porque será decidido no sábado.
Pela sua hesitação, desconfio que o nome proposto pode vir a ser o próprio Mari Alkatiri.
Eu já disse várias vezes: estar um ano fora do governo deu-me uma melhor perspectiva de fazer política em Timor-Leste. A política não se faz só estando no governo. Pode-se fazer, se calhar, melhor fora do governo. Sabendo que estando fora do governo posso contribuir melhor para o país, então é preferível estar fora. Vou defender isso na reunião do comité central.
Mas não afasta a possibilidade de vir a ser primeiro-ministro?
No nosso partido há a chamada decisão do colectivo. Eu vou tentar defender a minha posição até à última.
Que outros nomes é que estão em perspectiva?
Nenhum. A haver um nome, estatutariamente é o meu. O estatuto diz claramente que é o secretário-geral. Só na impossibilidade de ser o secretário-geral é que haverá outro.
E não recusa, à partida, essa hipótese?
Eu respeito sempre a decisão colegial. Se essa for a decisão, não vou colocar condições. Vou exigir maior solidariedade.
Por parte dos seus colegas de partido?
Sim.
Acham que eles foram pouco solidários consigo durante a crise?
Eles sabem disso, que eu sou crítico.
Se seguir em frente com um governo minoritário, debaixo do boicote do parlamento, que soluções terá para não agravar a crise social de Timor? Como enfrentará esse problema?
Terá de se fazer um governo mais aberto, em que a sociedade participe mais nas decisões, e criar mecanismos de consulta pública em relação às decisões que serão posteriormente tomadas pelo parlamento. Há-de se encontrar um caminho.
É possível gerir o país sem um programa de governo?
O próprio programa deve ser discutido publicamente antes de se levar ao parlamento.
Acha que isso aumentará a pressão sobre a oposição para o aprovar?
Se a Fretilin recebe um mandato popular para liderar o governo e não consegue cumpri-lo dentro das instituições, deve prestar contas ao público.
Mas não deixará de ter de passar pelo parlamento.
Naturalmente, a questão formal terá de ser cumprida.
A Fretilin terá vantagem em ir novamente a eleições? Parece-lhe que irá ter mais votos?
Aumentar ou diminuir, depende da percepção do povo.
A quem irá atribuir a culpa da crise, nessa altura?
A haver crise, deve ser atribuída aos que não deixam aprovar o programa de governo.
Voltando atrás: falou-me do ponto da situação hoje (quinta-feira, 5 de Julho). Vou insistir: tendo em conta que em Timor não há impossíveis políticos, haverá alguma possibilidade de a Fretilin vir a alinhar no consenso traçado por Ramos-Horta, num governo de unidade nacional com o CNRT?
A questão que se põe é esta: queremos realmente consolidar a democracia ou só queremos fingir que estamos em democracia?
O plano de Ramos-Horta é esse?
Não é essa a sua intenção. A preocupação do dr. Ramos-Horta é estabilizar o país. Mas se pensamos que com todos no governo estabilizamos o país, eu pergunto se não estaremos a criar uma oposição nas ruas. Porque haverá frustração. Todos terão de acordo, todos votarão por unanimidade. A crise no ano passado não aconteceu por haver unanimidade. Teve outra base. Era porque se queria impedir que a Fretilin ganhasse com maioria absoluta este ano.
E não tem medo que a violência volte?
Será que eu devo ser o único a ter medo? Eu já fui vítima durante um ano.

Publicado quinta-feira, 5 de Julho de 2007 23:56 por Expresso Multimedia

Timor: pós-eleições 2

Mário Carrascalão, presidente do PSD em Timor

"A crise será reacendida se a Fretilin for para o poder"
Mário Viegas Carrascalão


Jorge Simão

Numa altura em que o presidente Ramos-Horta tenta um compromisso de consenso entre todas as partes para a formação do novo governo em Timor, o líder do terceiro partido mais votado diz que não deve haver contemplações com a Fretilin.
Entrevista de Micael Pereira, enviado especial a Timor-Leste
Aceitaria participar num governo em que a Fretilin decide quem será o primeiro-ministro?Nós temos acordos assinados dentro da nossa coligação e vamos tentar implementá-los.
Mas sabe que o presidente da República está a tentar um acordo a contento de todas as partes. Teríamos de ter Xanana Gusmão como primeiro-ministro. Gostaria de ver essa solução. Por que é que quando Ramos-Horta era primeiro-ministro ele não arranjou um compromisso com Alkatiri para poder governar? Em vez disso, transformou-se num boneco de Alkatiri durante um ano. Ele próprio reconhece isso. Quem mandava era Alkatiri. Mas nós não somos como Ramos-Horta. Ele tem um título de Prémio Nobel a defender. Nós não. Temos de travar a caminhada para o buraco.
Imagine que é primeiro-ministro uma figura mais independente mas ligada à Fretilin. Não. Um primeiro-ministro tem de ter mão pesada e conhecer os problemas. Tem de ter competência.
Não estão abertos a qualquer tipo de compromisso com a Fretilin?A porta para uma coligação com a Fretilin está fechada. Está fechada para nós e está fechada para o PD (Partido Democrático). Não sei se está aberta para o CNRT. O que está aberto é a possibilidade de todos os timorenses com capacidade poderem colaborar com um governo imposto pela maioria. E criado pela maioria. Não nos vamos sujeitar ao que o dr. Ramos-Horta quer. É um direito dele, mas nós sabemos o que queremos. Não queremos cá paninhos quentes. Em Timor, estamos à beira do abismo. Não queremos continuar nesse caminho devido a indefinições e indecisões. Chegou este período do ano passado até aqui, com Xanana indeciso e indefinido, com receio de tomar decisões. Não vamos por esse caminho. Xanana não é mais o presidente nem o comandante. É o presidente de um partido, como qualquer outro. E Ramos-Horta é presidente da República porque teve o apoio da oposição. Ele sabe disso. Por si só, ficaria pela primeira volta. Não seria presidente da República.
Então, que lugar é que vê para si, com o número de votos que obteve (15,8% ainda sem a contagem estar encerrada)?O meu partido tem um acordo assinado com a ASDT e um outro acordo assinado entre o PSD/ASDT e o PD. Portanto, vamos obedecer aos termos de referência que foram acordados. Nem será uma decisão minha.
O plano é o partido mais votado de entre o vosso acordo decidir o primeiro-ministro e o segundo mais votado decidir o presidente do parlamento?Exactamente. No cenário de Xanana Gusmão ser primeiro-ministro eu não colocarei qualquer obstáculo.
E se houver elementos da Fretilin nesse governo?Não dou hipótese de haver quaisquer elementos da Fretilin no governo.
Ana Pessoa e Estanislau da Silva, por exemplo?Não. Só as pessoas que não são de Timor ou que não saem das tertúlias de Díli pensam que isso é possível. Seríamos enforcados. Se eu fizesse isso teria de pintar a minha cara de preto para as pessoas não me reconhecerem na rua. Este é um período negro da nossa história, que já passou e que não queremos reabrir. E eu não quero dar o mínimo contributo para que essa reabertura se faça. Se há indivíduos da Fretilin que queiram trabalhar para o governo em moldes diferentes, nós estaremos abertos, desde que não sejam indivíduos agarrados aos princípios radicais de Alkatiri e companhia. Alkatiri pode moldar-se à situação hoje, mas terá sempre um objectivo, que é tentar depois fazer mudar as coisas. Timor teve uma experiência muito má nos últimos cincos, que levou a este país a um estatuto de estado quase falhado. Não podemos ter contemplações, sejam eles amigos, irmãos ou pais.
Não acha que há um risco de a base de apoio da Fretilin achar ilegítima uma governação que exclua o partido mais votado?Qual partido mais votado? Um partido mais votado com uma minoria, que ganha com 30 por cento? Toda a gente sabe que mesmo esses 30 por cento são conseguidos através de ameaças e situações de estado quase de emergência que foram criadas em distritos como Viqueque, Baucau e Lautem, onde outros partidos não tiveram possibilidade de fazer campanha. Puderam manipular tudo como quiseram e amedrontar as pessoas. Não são 30 por cento genuínos. Fui a Viqueque ver. Não pudemos fazer campanha porque as pessoas tiveram medo de sair de casa, porque foram ameaçadas pelos 43 polícias que estão em Viqueque e que são activistas da Fretilin. Acha que isso é um resultado normal? A Fretilin deve ir para a oposição, deve ir para o parlamento ajudar a construir o país como oposição. A Fretilin deve ser oposição e ao fim de cinco anos voltar com a lição aprendida e saber como é que os da oposição se sentem quando são reduzidos a um estatuto pior do que cães. Têm de aprender que não é fácil e que ser da oposição não significa ser inimigo do país, como eles pensavam. Eles estavam no caminho certo e todos os outros eram traidores e golpistas. Vão aprender ou então ficam calados e aí passarão a ser carneirinhos. É altura de pôr as coisas nos seus lugares e não há melhor momento do que este. Venha Ramos-Horta, venha quem quiser. Não conseguem levar-nos a uma coligação com a Fretilin. Com alguns elementos que trabalharam para o país sim, nunca com o partido.
Essa postura não pode fazer reacender a crise?É exactamente a situação contrária. A crise será reacendida se a Fretilin for para o poder. Veja-se o caso de Covalima. Estavam taco a taco e a electricidade apaga-se durante mais de uma hora. Quando foi das eleições presidenciais foram relatados 152 casos com chefes de suco, mas o Tribunal de Recurso tomou decisões políticas em vez de decisões judiciais. Nós vamos acabar com isso. Não podemos seguir o que os forasteiros pensam que deve ser feito em Timor. Temos de ser realistas. O que se diz na RTP Internacional tem de cair por terra. Não são os outros que vão endireitar o país, somos nós. Só assim vamos evitar que haja aqui uma guerra civil.

Publicado quinta-feira, 5 de Julho de 2007 8:03 por Expresso Multimedia

Timor: pós-eleições 1

Ramos-Horta, presidente da República de Timor-Leste
"Alkatiri não pôs de lado uma aliança com o CNRT"
Jordão Henrique/AP

Com nenhum partido a ter uma vitória clara nas eleições legislativas em Timor, cabe ao presidente o papel essencial de viabilizar o próximo governo. Uma entrevista longa e surpreendente, em que Ramos-Horta fala dos bastidores das negociações com a Fretilin e em que conta ainda a sua versão sobre a crise de 2006, ilibando Rogério Lobato. E revelando onde se encontra, neste momento, o líder rebelde Reinado: exactamente onde menos se espera
Entrevista de Micael Pereira, enviado espeicial a Timor-Leste

Quem é que sai derrotado destas eleições?
Em primeiro lugar, é óbvio que é a Fretilin (que perde), em termos aritméticos. Em 2001 era o partido dominante, a uma grande distância, com 57 por cento dos votos. Se nas presidenciais se podia desculpar que, pela minha relação com a Fretilin em geral, tive muitos milhares de militantes a votarem em mim, já nas legislativas se esperava – e eu próprio esperava – que a Fretilin poderia subir muito para cima de 30 por cento. Seja como for, a Fretilin tem de fazer as contas à vida, porque um partido que passa de 57 por cento para menos de 30 por cento, de uma eleição para a outra, é um caso para preocupação. Sobretudo tendo em conta que é um partido com mais de 30 anos de história e que não precisa de dar a conhecer o seu nome e a sua bandeira. Veja o exemplo do ANC na África do Sul ou mesmo da Frelimo em Moçambique, que foram ganhando as eleições sempre com larga margem. Com a sua longa história, a Fretilin caiu logo no primeiro teste.

Mas a Fretilin tem mais votos do que o CNRT. Xanana Gusmão não sai também derrotado?
Xanana sobrestimou a sua autoridade e o seu carisma. Mas eu já dizia, muito antes das eleições, que Xanana se distanciou muito do povo ao longo destes cinco anos. Ele raramente ia para os distritos. Eu disse isso aos meus conselheiros e aos conselheiros de Xanana. Ele foi alertado.

Acha que os timorenses demonstraram que já não reconhecem Xanana como pai?
Ele continua ainda a sê-lo, mas há dois factores que feriram o seu estatuto. Primeiro porque se distanciou pela ausência. Como presidente da República e líder que ele era, saído do povo e tendo vivido com o povo ao longo de duas décadas, devia ter continuado a estar com o povo. Ele talvez não se lembre mas eu lembro-me de dizer a vários colaboradores nestes dias antes das eleições sobre uma conversa telefónica em 1999 em que lhe falei: «Irmão, tu deves concentrar-te na política interna do país. É fundamental promoveres a reconciliação, a unidade, a paz e a estabilidade. Deixa para mim a política externa». Mas ao longo de cinco anos, Xanana fez muitas viagens ao exterior e muitas delas totalmente desnecessárias e absurdas. Na altura critiquei-o. Distanciou-se muito.

Parece-lhe que o povo está a castigá-lo por ter sido responsável, em parte, pela crise no ano passado?
O segundo factor é precisamente esse: o papel de Xanana durante a crise. Por várias razões, mas fundamentalmente por questões de saúde, no pior momento da crise esteve barricado em Balibar sem ser visto. Não se via a figura de Xanana na televisão ou nas ruas de Díli. Assim como nenhum outro líder. Eu era a única pessoa que todos os dias estava nos bairros, nos hospitais, nalguns distritos, sobretudo nos distritos críticos da fronteira, e ia a televisão serenar o povo.
Xanana também não se assumiu na altura como comandante supremo das forças armadas. Assumiu-se no final de Maio, quando fez uma declaração. Mas devemos perdoar Xanana, porque ele estava fisicamente incapacitado. Estava doente com dores horríveis. Esteve uma semana sem vir ao gabinete e depois, quando teve de vir, veio apoiado e a gemer de dor. No fim, a Fretilin e Xanana foram ambos penalizados pelo eleitorado.

Recolocando a pergunta inicial: e quem sai vitorioso com estes resultados? O PSD/ASDT e o PD.
Comparo com as últimas eleições de 2001: o PD subiu e, juntamente com o PSD/ASDT, ultrapassam os votos da Fretilin. E estamos a falar de partidos sem grandes recursos. A coligação PSD/ASDT não tinha dinheiro. Estavam bastante deficitários nas duas campanhas, presidenciais e legislativas. Estes três partidos são os vencedores, apesar de não se poder minimizar a prestação do CNRT. Pese embora a figura de Xanana, o partido enquanto tal tinha dois meses de organização. Uma coisa é a figura de Xanana, outra coisa é a necessidade de organização das bases. Em dois meses, terem conseguido mais de 20 por cento com uma organização inexistente não é mau.

Com a pulverização dos votos por vários partidos, o futuro do país vai estar agora nas suas mãos. Já começou a reunir com os líderes políticos?
Recebi um SMS anónimo que diz mais ou menos: «Nesta jogada política, o irmão foi o único que soube estar acima de tudo e venceu. Parabéns, parabéns, parabéns. E agora precisamos mais do que nunca de si».

O futuro, portanto, está nas suas mãos.
Em parte. Vou tentar negociar com os partidos. Comecei ontem com o ASDT/PSD, amanhã (quinta-feira, 5 de Julho) vou estar com a liderança da Fretilin e na sexta-feira vou estar com os outros partidos. Não vou minimizar os partidos pequenos. Vamos ver se encontramos uma solução ideal.

E qual é a solução ideal?
Ainda não sei. Mas tem de ser uma solução que una o país, que o leste e o oeste se sintam representados e não defraudados. Tenho de ver o resultado final para analisar os votos em cada distrito e ter uma interpretação do significado de todos esses votos. Não vai ser fácil fazer a ponte entre a Fretilin e os outros partidos.

Está a dizer que vai tentar um governo que inclua a Fretilin.
Sim. A Fretilin parece ser o partido mais votado, mas não significa que reúna a maioria parlamentar necessária para uma acção governativa estável. E a constituição impõe-me a obrigação de ajudar a criar condições para uma governação estável, que tem de ter a confiança dos deputados eleitos. Se se sabe, logo à partida, que o partido mais votado não consegue reunir uma maioria parlamentar para fazer passar o programa de governo, pergunto se vale a pena sequer tentar ou se é preferível encontrar uma forma em que esse partido e outros se coliguem ou encontrem uma solução de compromisso em termos de programa e distribuição de pastas. E a distribuição de pastas não tem de ser apenas ao nível de governo, pode ser feita ao nível de autoridades regionais e distritais e de algumas outras iniciativas não previstas que podem encaixar outros elementos. Por exemplo, a minha iniciativa para uma task force de luta contra a pobreza. Alguns elementos que não vão para o governo podem ir para esses lugares.

Estaria disposto a chamar elementos da Fretilin para esses lugares?
Exacto. Quero, por exemplo, criar um novo órgão, uma alta autoridade para a luta contra a corrupção, que tem de ter alguém com o estatuto de ministro. Tem de ser um órgão com um estatuto independente, para coordenar as actividades dos outros órgãos que lidam com a corrupção – parlamento, provedoria de justiça e direitos humanos, Procuradoria-Geral da República, etc. Haverá uma espécie de super-ministro a coordenar o trabalho. Chamar-se-á Alta-Autoridade para a Boa Governação. Terei ainda outras iniciativas deste género. Com tudo isto, em conjunto com o governo e o parlamento, podemos encaixar todos com a legitimidade dada pelas eleições.

A Fretilin tem sempre tomado uma atitude de querer governar sozinha. Não tem estado muito aberta a coligações, apesar de se falar na última semana de uma eventual aproximação ao Partido Democrático (PD). Não lhe parece que a Fretilin pode optar por avançar para um governo minoritário e passar a batata quente para as suas mãos? Nesse cenário, os apoiantes do partido mais votado poderiam considerar ilegítima uma decisão sua que o afastasse do poder.
A constituição é clara. Não há ambiguidade quando diz que o primeiro-ministro é proposto pelo partido mais votado ou pela aliança com maioria parlamentar. E deixa ao presidente da República a decisão de qual destas soluções melhor serve os interesses do país. Vou aceitar a proposta de um primeiro-ministro pelo partido mais votado ou vou convidar a aliança – se ela existir – com maioria parlamentar? Ou tento unir as duas coisas?

É possível unir as duas coisas quando a relação política e pessoal entre Alkatiri e Xanana se tornou tão azeda no último ano? Poderá haver tolerância de ambas as partes para um governo de unidade nacional?
Tem de haver, porque o interesse nacional, a paz, a estabilidade o exigem. Já falei ao telefone com o dr. Alkatiri.

E que conclusões tirou desse telefonema com Alkatiri?
Confrontada com a realidade dos resultados eleitorais, a Fretilin está na disposição de dialogar com os outros partidos para uma coligação.

Uma coligação que inclua o CNRT?
O dr. Alkatiri não pôs de lado uma aliança com o CNRT. Ele tem estado disposto a contemplar essa possibilidade. E isso não é de agora, já é de algum tempo.

Ele diz isso nos bastidores?
Sim. Temos falado disso. E Xanana tem uma grande qualidade humana: não guarda rancor. Ele disse-me: «Se perder, vou para a oposição. Porque o país precisa de oposições fortes». Não será o primeiro herói nacional a fazê-lo.

Ainda há a hipótese de o CNRT passar para a oposição?
Sim.

Num cenário em que Xanana aceitasse ir para a oposição, qual seria a composição do governo? Quem seria o primeiro-ministro?
À partida, o primeiro-ministro seria indigitado pela Fretilin. Quem, não sei.

Que aliados teria a Fretilin?
Seria responsabilidade da Fretilin fazer as concessões necessárias para ter apoio no parlamento. Concessões aos outros partidos.

Mário Carrascalão disse-lhe ontem que estaria disponível para uma situação dessas?
Neste momento, os outros partidos estão apenas a contemplar a possibilidade prevista na constituição de a aliança com maioria parlamentar ir para o governo. Não estão dispostos ainda, nesta altura, a ir para a oposição. A interpretação que fazem é que eles podem passar a governar.

Mas sem a Fretilin.
Sim. Com a Fretilin na oposição.

Portanto, uma coligação liderada pela Fretilin parece estar afastada.
Sim. Agora, o outro cenário é que os outros quatro grandes partidos (CNRT, ASDT, PSD e PD) se coliguem para obter a maioria parlamentar.

Está disposto, então, a viabilizar esse governo de aliança sem a Fretilin?
Qualquer decisão que tomar agora vai ter implicações no futuro de Timor. Não quero contemplar o pior cenário, que seria dissolver o parlamento e convocar novas eleições. Creio que é possível reunir as várias forças políticas e encontrar uma solução de compromisso que beneficie todos eles e sobretudo proteja muito melhor os interesses do país. Não vou poupar esforços nestes dias para criar o clima (de diálogo) e também para explorar ideias. Temos de ter criatividade. O país está a atravessar um teste de liderança. Eu já dizia ontem ao PSD/ASDT que num cenário em que os quatro partidos (com CNRT e PD) formem governo, devem ter consciência que não pode ser uma aliança de uma semana, como acontece muitas vezes em Timor. Têm de entender que é uma aliança para cinco anos. Têm de conviver 24 horas por dia durante 365 dias e multiplicar isso por cinco anos.

O PSD/ASDT e o PD têm uma pedra no sapato com algumas figuras da Fretilin Mudança que se juntaram ao CNRT. Também isso será difícil de resolver. Um governo liderado por Xanana Gusmão será viável? Terá capacidade de execução?
Eu creio que Xanana é suficientemente pragmático. Já não é o Xanana que ganhou as eleições presidenciais de 2002 com mais de 80 por cento dos votos, com o boicote da Fretilin. Xanana obteve menos de 30 por cento dos votos. Se for liderar o governo, ele tem consciência de que vai ter de fazer uso não da autoridade do passado, do mato e da guerrilha, mas do seu charme para manter a unidade do governo. E ele tem condições de o fazer.

Estas eleições, que criam uma situação de impasse, são capazes de aliviar a crise social do país e a onda de violência que começou no ano passado?
A situação tem estado calma ao longo dos últimos meses, com apenas alguns incidentes.

Mas é uma paz frágil.
Sim, mas a paz foi sempre frágil. Em 2001, 2002, 2003, no parlamento, nos jornais, fui dizendo: «A paz que vivemos hoje é real, mas frágil. Porque frágeis são as instituições e as feridas estão frescas. Sejamos prudentes nos nossos discursos e nas nossas acções».
Volto à questão: não haverá o risco, caso a Fretilin se recuse a ter uma participação subalterna num governo do CNRT, de haver um sentimento de ilegitimidade por parte dos militantes pelo facto de o seu partido ficar afastado do poder, apesar de ser mais o mais votado?
Fazendo as contas, as bases entenderão que a soma dos votos no país que não são da Fretilin são esmagadoramente superiores aos do seu partido. Essa é a realidade. Têm o dobro dos votos. Se a Fretilin, suponhamos, recebeu 100 mil votos e a oposição recebeu 300 mil, quem é que deve governar?

Como é que vê uma atitude em que Mari Alkatiri insista em formar governo, mesmo ficando em minoria no parlamento?
Eu estou a aguardar a opinião técnica de juristas e constitucionalistas sobre o que diz a constituição e todas as suas implicações. Com base nessas opiniões e com o imperativo de respeitar a opinião da maioria expressa nos votos registados, tomarei uma decisão. Se um grupo de partidos se aliar, tiver a maioria parlamentar e garantir a estabilidade para Timor, tem legitimidade para governar. Se por outro lado, a Fretilin consegue garantir que um ou mais partidos, embora não querendo fazer parte do governo, lhe vão dar o benefício da dúvida e votar o programa de governo, também é uma possibilidade. Mas cabe à Fretilin mostrar capacidade de liderança em negociar com os irmãos dos outros partidos.
Quais são as medidas mais urgentes que o novo governo deve tomar?
Até ao fim do ano podemos viver apenas com os duodécimos do orçamento anterior. Entretanto, vai ser preciso preparar o orçamento de 2008, alterando o calendário orçamental, que em vez de ir de Julho a Junho passará a ir de Janeiro a Dezembro. Do meu ponto de vista, vai ter de incluir uma vertente grande de luta contra a pobreza. Toda a gente está de acordo que temos de lutar contra a problema, embora possamos não estar de acordo em como fazê-lo.
Foi muito criticada a sua ideia de dar dinheiro aos pobres.
Os que a criticam vêm de uma escola clássica já desacreditada. O próprio Banco Mundial e o FMI, onde estão alguns dos melhores economistas do mundo e a quem eu recorro a pedir opinião, estão completamente de acordo comigo. Uma das medidas é transferência directa de dinheiro. É uma questão não só justa e humana, mas também uma questão económica: se transfiro 50 milhões de dólares para a população, eu estou a injectar 50 milhões de dólares na economia local. Os pobres não usam o dinheiro para comprar batons e perfumes ou para ir de férias a Bali. Vão gastar o dinheiro na aldeia, a comprar legumes, ovos, frangos ou roupa para as crianças irem à escola. E assim o dinheiro circula no país.
Foram feitas muitas promessas durante a campanha. Por si também, na campanha das eleições presidenciais. A expectativa do povo é alta. Disseram-me que foi executado menos de metade do orçamento para 2006/2007.
Se falar com Estanislau da Silva (actual primeiro-ministro) verá que ele lhe dará números completamente diferentes. Segundo ele, com as reformas que o segundo governo constitucional introduziu, a execução orçamental até Maio já estava acima do ano anterior, com mais de 70 por cento.
O episódio que deu origem à crise, com a expulsão dos peticionários das forças armadas, está ainda por resolver. Já passou mais de um ano. Não há uma intransigência do brigadeiro Matan Ruak em reintegrá-los nas fileiras das F-FDTL? Como é que se vai resolver o problema?
Ao longo dos últimos meses, devotei alguma atenção à questão dos peticionários e testei algumas ideias com o comando das F-FDTL e com os peticionários. Aguardo o resultado das eleições para confrontar os partidos políticos e o novo governo com essas ideias. O comando das F-FDTL endossou as minhas recomendações. Os peticionários serão tratados caso a caso. Não são um exército alternativo nem um grupo organizado. Estão espalhados pelos distritos, alguns deles estão a trabalhar. Quem quiser regressar às forças armadas tem de meter os papéis e requerer o reingresso com base na nova lei de recrutamento que foi aprovada no parlamento. Não havia lei de recrutamento nem regulamento disciplinar no exército. Durante o meu mandato (como primeiro-ministro), fiz aprovar cinco peças de legislação que não existiam e que são vitais para normalizar a vida nas F-FDTL. Os que não quiserem regressar terão um pacote de incentivos equivalente a três anos de vencimento. Muitos peticionários estão interessados nisso. O tenente Gastão Salsinha ainda afirma que é comandante dos peticionários, mas a maioria já não liga ao que diz. Ele continua a exigir o reingresso de todos, mas isso não vai acontecer. A maioria não quer regressar. Muitos deles não gostaram da vida no exército. Têm de acordar às quatro da manhã, trabalham ao fim-de-semana e não ganham tão bem quanto isso. Ao mesmo tempo, vamos avançar com a reforma das forças armadas. O comando da F-FDTL é o primeiro a reconhecer essa necessidade.
Disse, em entrevista à Visão, que não vai promulgar a lei da amnistia tal como ela foi aprovada no parlamento mas está disponível para aprová-la com alterações. Pergunto-lhe se isso é correcto depois de um relatório da ONU ter recomendado que as pessoas que foram responsáveis pela crise no ano passado sejam criminalmente acusadas e condenadas. Uma amnistia não irá alimentar um sentimento de impunidade?
Enviei hoje a lei da amnistia para o Tribunal de Recurso, solicitando um parecer em relação a algumas dúvidas que tenho e sobre a sua constitucionalidade. Está mal feita e tem muitas lacunas. Não estou contra uma lei da amnistia, mas tem de ser muito mais abrangente no tempo. Por que é que não vai para trás, até 1974 e 1975? A lei deve ter conta a nossa história recente, destes últimos 30 anos. E deve ter em conta a realidade que vivemos em Timor-Leste hoje, em que há muitas feridas ainda por sarar que vêm do passado, novas feridas abertas e uma fragilidade das instituições. O país consegue aguentar emocional e politicamente com toda um conjunto de julgamentos e prisões das mais variadas pessoas, que directa ou indirectamente estiveram implicadas na crise do ano passado? O Rogério Lobato está na prisão de Bécora não porque matou alguém, mas porque ordenou a distribuição de armas. Pelas mesmas razões que Rogério Lobato está preso, podiam estar também outras pessoas na prisão que ordenaram ou fecharam os olhos à distribuição de armas. Eu disse em tribunal – ofereci-me para depor e isso custou-me votos – que não acreditava, e não acredito, que quer Mari Alkatiri (supondo que ele soubesse) quer Rogério Lobato o fizessem especificamente para assassinar opositores da Fretilin, como se alega. Acredito sim que houve a inclusão da polícia na manifestação do dia 28 de Abril e nos dias a seguir. Díli ficou desguarnecida e Rogério Lobato teria armado veteranos leais à Fretilin para assegurar a defesa da cidade e dar apoio às F-FDTL. As F-FDTL, solicitadas a fazer a defesa da cidade, substituindo a polícia, ficaram demasiado dispersas e decidiram também chamar voluntários ex-combatentes, uns 200, a quem distribuiu armas. Constitui isso um crime ou é uma reacção instintiva de pessoas patrióticas que, tendo feito uma análise da situação, decidiram que o estado tem de ser defendido?
Nessa lógica, a responsabilidade de Rogério Lobato é igual à do brigadeiro Matan Ruak?
É igual à de Ruak e à do dr. Alkatiri, que não deixava de ser o primeiro-ministro e foi quem ordenou a vinda das forças armadas. Pergunto: serei eu, José Ramos-Horta, cidadão deste país, retirando o estatuto de presidente da República, a contribuir directa ou indirectamente para que um patriota herói deste país, com 24 anos de luta nos ombros dele, vá para a prisão de Bécora por ter distribuído armas a ex-combatentes?
Está a falar do brigadeiro Matan Ruak. Sim, estou a falar de Ruak. Eu não serei essa pessoa. Quando falamos de justiça, a justiça não pode estar dissociada da realidade social e política, do contexto em que as coisas decorreram. A justiça não é tão cega quanto isso. Ela tem de analisar os eventos que levaram alguém a tomar determinadas decisões. Foi o que fez Mandela na África do Sul. Por que é que optaram por uma comissão de verdade e reconciliação em vez de estabelecerem um tribunal para julgar todos os implicados nas décadas de regime do Apartheid? Por que é que os chilenos, no período pós-Pinochet, não levaram todos para a prisão? Porque, quer na África do Sul quer no Chile, recearam a fragilidade da nova democracia e das novas instituições e preferiram acalmar o país.
O major Reinado também cai nesse saco?
O caso Reinado é simplesmente uma consequência desta situação. Ele é uma pequena peça na crise.
Há evidências claras que levam a acreditar que houve o início de uma guerra civil entre o dia 23 e 25 de Maio de 2006. E o major Reinado seria o líder de um ataque a Díli e às posições das F-FDTL.
Eu lidei com o major Alfredo Reinado. Nunca ele ou outros militares tiveram intenção ou capacidade, no plano operacional e muito menos no plano político, para desencadear uma guerra contra as F-FDTL. Não há nenhuma outra razão que explique, até agora, o ataque de peticionários armados e o ataque do major Reinado em simultâneo a várias posições das F-FDTL em Díli. Quem esteve em Tacitolu (quartel-general das F-FDTL) foram alguns elementos da polícia e os elementos do Rai-Los. Rai-Los diz que estava a tentar controlar esses elementos da polícia. É o tal problema de as pessoas tomarem medidas e fazerem coisas com base em rumores e histórias que se contam. Enquanto alguns idiotas davam ordens a outros idiotas para se armarem e entrincheirarem nas montanhas, para travar uma possível invasão de Díli pelos peticionários, eu estava em Gleno, com os peticionários, que não tinham armas. Estavam descansados e tranquilos, apenas aflitos por não terem comida, enquanto em Díli algumas pessoas diziam: «Os peticionários vêm aí».
Foi uma coincidência os ataques em simultâneo?
O ataque do major Alfredo Reinado a Fatuhai foi acidental. Ele veio a Fatuhai para ver a situação, contra o acordo que fez comigo. Eu estava em vaivém. Tinha estado horas antes com o Reinado, com o major Tara, com o major Marcos Tilman, todos eles, para promover um grande diálogo em Dare, no antigo seminário. Fui a Ailéu, acompanhado de dois majores americanos da embaixada dos EUA, e Reinado garantiu-me que estava interessado no diálogo e que não ia sair dali. Vim a Díli e no dia seguinte fui a Gleno, onde falei com o tenente Salsinha, com o Tara e o Marcos, para ultimar os preparativos do encontro em Dare. Quando me ia sentar, veio o telefonema de Díli a dizer que havia tiroteio em Fatuhai. Liguei imediatamente ao Reinado, que atendeu no meio do tiroteio. Perguntei-lhe: «O que é que você está a fazer aí?» Ele respondeu-me: «Vim ver a minha gente». Disse-lhe: «Que gente? O que é que você me prometeu ontem?» O idiota tinha decidido sair de Ailéu. Entretanto, um grupo das F-FDTL tinha directivas para vir estabelecer um posto de observação conjunto com a PNTL (polícia), para evitar acusações mútuas. Paulo Martins (comandante-geral da polícia) tinha ficado de aparecer e não apareceu. No lugar dele apareceu o major Reinado.
E o ataque, também nessa altura, à casa do brigadeiro Matan Ruak?
O Paulo Martins jura-me que não teve nada a ver com esse assunto. Eu acredito, ele não estava na zona. E o ataque não foi contra a casa de Matan Ruak, porque depois fui lá. Havia poucas balas e achei estranho. Foi também um acidente. Os militares que guardavam a casa viram um movimento suspeito lá em cima (nas colinas) e começaram a disparar. Se queriam atacar Ruak não o fariam em pleno dia. Houve muitas coisas que aconteceram de forma desorganizada. Uma estupidez. O mais caricato foi essa história do Rai-los ter ido a Tacitolu porque tinha ouvido o boato sobre os peticionários, quando eu fui informando Alkatiri de todos os movimentos destes grupos, porque estava em diálogo com eles. Não tinham comida sequer. Só veio meia dúzia deles, os mais malandros. Esses meteram-se em problemas. Fui serenamente para Gleno, antes de estarem cá os australianos, num carro com um motorista e um segurança, enquanto em Díli diziam que os peticionários iam atacar, mas eu não vi nada disso.
Mas em Díli há muita gente que continua a ter medo do major Reinado. Ele não se tornou mais forte como herói depois de ter escapado ao cerco dos australianos e pelo facto de ainda continuar a monte?
Se o Reinado tivesse o apoio que as pessoas pensam que ele tem, quando se deu o assalto a Same (onde ele estava) teria acontecido uma insurreição em Same, em Ainaro, em Ermera, em todo o lado. E não houve uma única reacção nesses distritos. Houve apenas alguns distúrbios em Díli, em Banana Road.
A polícia diz que houve caos por toda a cidade. Barricaram a Banana Road e a Estrada de Comoro.
O apoio dele não é assim tanto. O tipo é muito esperto a falar mas não tem substância nenhuma. E com as eleições presidenciais e legislativas, perdeu ainda mais suporte. O bispo Basílio do Nascimento, com quem falei, não está nada satisfeito com a postura dele. Os homens que o acompanhavam já não estão com ele. Apenas três ou quatro. Falei há duas semanas com os verdadeiros combatentes, que aceitam vir a Díli para um diálogo.
Considera o caso Reinado resolvido, portanto?
Ele não vai causar problemas. Como presidente, não quero que nenhum timorense tenha de estar a viver em esconderijos. O Reinado sabe e eu sei onde muitas vezes ele pernoita. Não é assim tão difícil. Xanana, em 1992, foi capturado pelas forças indonésias precisamente porque vinha demasiadas vezes a Díli. Uma vez, quando finalmente se quis [ir] embora não tinha motorista nem ninguém para o levar e foi apanhado. O L-7 e o Matan Ruak nunca vieram a Díli. Por isso nunca foram apanhados.
Reinado costuma vir a Díli?
O Alfredo gosta de estar na cidade. Não consegue estar nas montanhas. É um bon-vivant (risos). Eu sei de sítios onde ele passou noites. Há duas semanas, eu sabia onde ele estava. Os miúdos do bairro que dantes o apoiavam alertaram-me. Disseram-me: «Mande as forças que ele está aqui». E eu disse: «Não, deixem lá. Estamos num processo de diálogo, não quero violência. Não quero nenhum timorense ferido ou morto». Eu disse a Reinado: «Circulem à vontade, mas sem armas. Se andarem com armas, serão apanhados». Desde que ele não cause problemas a ninguém e não desafie o estado, porquê tanta pressa? Vamos continuar este processo com paciência chinesa.
E sabe onde é que ele está agora?
Está em Díli. Só espero que não vá a festas.

Publicado quarta-feira, 4 de Julho de 2007 15:20 por Expresso Multimedia

O lápis azul

Balbino mete medo

O Sol acabara de nascer, em Alcobaça, quando dois polícias à paisana entraram bruscamente na casa de aldeia do professor Balbino e lhe apreenderam o computador com todo o trabalho académico gravado no disco.
Os dois filhos pequenos assistiram perturbados com a cena digna de filme americano. Aconteceu há dois anos ( não foi no Farwest!), com o pretexto de acusar António Balbino, 40 anos, o professor de marketing no Instituto Politécnico da cidade, por ter divulgado no seu blogue Do Portugal Profundo um documento que estava em segredo de justiça no âmbito do processo Casa Pia.
O professor acabou por ser ilibado em tribunal de qualquer acusação, mas o trauma, o transtorno e a humilhação por que passou, disso nunca mais será compensado. Nem ele, nem os petizes, nem a mulher, uma professora respeitada do ensino secundário. Os meus amigos revolucionários antes do 25 de Abril eram acordados pela PIDE na hora do lobo, quando a noite ainda vive e o Sol desperta. À surpresa, na calada do silêncio. Era um dos tiques da bófia política. Parece que não foi só o cinzentismo que herdámos desses tempos, foi também o "mal de vivre" com a liberdade de expressão e, no caso dos blogues, com a insuportável frescura e acutilância da livre opinião dos cidadãos. Quem é afinal António Balbino o homem que parece atormentar Sócrates, ao ponto de ser investigado, incomodado e pressionado, como voltou a acontecer na passada sexta-feira,15, com mais duas convocatórias para responder como arguido e testemunha, no chamado caso da licenciatura de Sócrates?
Alguém que com ele conviveu profissionalmente durante quatro anos, dizia-me há dias :" o professor Balbino é uma pessoa sóbria, que não gosta que falem dele, mas é também uma pessoa muito humana com um grande sentido de justiça". Não se conhecem fotografias suas ( nem no Google ) e o seu blogue é de uma economia de expressão evidente.
"Quando algum aluno precisa dele, responde de imediato. Só não aparece se não poder e se estamos num jantar e lhe telefonamos para nos fazer companhia acaba sempre por vir e de conviver com os alunos, que ele considera amigos".
É um professor respeitado e de uma competência à prova de bala. Não é um populista e sabe ocupar o seu lugar mesmo quando está como amigo junto dos alunos. " Nunca cumprimenta com um beijo. Ele acha que esse cumprimento não está de acordo com o seu papel de professor. Na verdade é uma pessoa conservadora, incorruptível e recusa-se a aceitar a mais pequena dádiva".
Não estamos perante uma personalidade oportunista que use o seu papel de influente junto de um grupo de gente jovem e esclarecida, não é um cobarde que se esconde atrás do anonimato num blogue perdido na blogosfera. Estamos perante alguém que insiste em que deve exercer o seu direito e a sua capacidade cívica de intervenção na sociedade. Fá-lo às claras, com nome, com IP, com lealdade. Não utiliza palavrões, calúnias, trocadilhos gratuitos. Basta ver-se o seu Portugal Profundo, onde tudo o que faz é apresentar factos e ligá-los muitas vezes através de links e de contradições factuais.
Há dois anos que ele vinha publicando vários documentos que demonstravam que a forma como o primeiro-ministro tinha tirado o seu curso de engenharia era, no mínimo, estranha. Documentos, datas e outros factos, foram comentados até à exaustão na internet, mas foi preciso os jornais Público e Expresso terem decidido investigar mais e confirmarem muito do que ali se publicava para que o escândalo fizesse verdadeira mossa a Sócrates.Já todos sabemos que o curso de engenharia do primeiro-ministro nem sequer é de obras feitas, e que se tivesse saído num concurso da Farinha Amparo dos anos sessenta ( num gozo aos azelhas que não sabendo conduzir só se entendia que a carta lhes tivesse saído grátis) tanto aquecia como arrefecia. Sócrates pode ser o melhor governante do Mundo mas há uma verdade incontornável: quis ter um estatuto académico para o qual não estudou, não trabalhou, não se aplicou. Faz-me lembrar uns decoradores de interiores que gostam de se intitular arquitectos, caindo no ridículo, no pires, na mentirola.
A hora do ajuste de contas parece ter batido à porta: António Balbino ao ser constituído arguido é a demonstração de que em Portugal as pessoas podem ser penalizadas por delito de opinião, contrariando a vã promessa do primeiro-ministro, num recente discurso no Parlamento.
Ficamos todos avisados que, a partir de agora, quem criticar, incomodar o Poder, poderá ser acordado de madrugada, a sua casa invadida, os filhos ameaçados na paz familiar, o nome manchado. Se for funcionário público poderá ser castigado, se o não for poderá sofrer represálias profissionais.
O governo achou gira a internet, porque era fresca, "nouveau et interessant" como aquele estilo pós-moderno de Sócrates vestir. Mas quando percebeu que era um novo Poder, começou a assustar-se. António Costa decidiu juntar-se a ela para não se sentir derrotado. O seu blogue enquanto ministro era bem a prova em como o Poder encontrou na internet um novo canal para a propaganda.
António Ferro rejubilaria! Estes ataques à liberdade de expressão na net não estão dissociados, bem pelo contrário, desse pacote para a imprensa e televisão, policiado por essa nova figura tutelar que é a Autoridade Reguladora. Passará a ter poder para interferir nas decisões editoriais das televisões ( mesmo das privadas) e poderá mesmo cortar a luz aos canais que venham a incomodar.
Hoje sem lápis azul, mas com tecnologias e meios mais "simplex", mas sempre com o credo na boca do cidadão, o controle será cada vez mais apertado.
Nos meios tradicionais de expressão a coisa começava a estar controlada, apesar dos protestos de alguns operadores de televisão que sentem, e muito bem, cada vez mais o garrote nas exigências comerciais e editoriais e a folga cada vez maior para a televisão pública.
Faltava a internet, esse meio maldito, democrático, incontrolável.
O ataque à liberdade de expressão na internet é, contudo, uma batalha sem regresso. Um tique nervoso de ditadores falhados e burocratas impotentes.
Até os chineses tombaram nesta batalha.
Quem quiser sair ganhador desta afronta à liberdade de expressão talvez o seja num futuro virtual, muito virtual mesmo, para não dizer mortal, numa manhã de nevoeiro.

Luiz Carvalho, Coordenador-geral de fotografia do Expresso
Publicado terça-feira, 19 de Junho de 2007 23:28 por Luiz Carvalho