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sábado, 3 de maio de 2008

A justiça do Timor do antanho

Timor-Leste: confraternização de captores e cativos

À uma primeira leitura parece aos nossos olhos ocidentais como bizarro uns cativos serem recebidos pelos seus captores com braços abertos, como se de um filho pródigo se se tratasse e não de alguém que andava fugido à justiça por um crime que colocou em risco a soberania do seu país. Gesto que suscitou acesas e compreensíveis críticas por parte dos não timorenses, por um lado, por desconhecer a alma timorense, por outro, porque semelhante gesto de magnanimidade não ser usual nos países ditos desenvolvidos.

Estou a referir-me às recepções dadas no Palácio do Governo aos homens de Alfredo Reinado e Gastão Salsinha, autores dos atentados de 11 de Fevereiro contra o presidente timorense José Ramos Horta e o primeiro-ministro Xanana Gusmão, nas suas sucessivas rendições de dois, três ou quatro rebeldes de cada vez, que culminou com a rendição do próprio Salsinha a 25 de Abril.

O cúmulo desse gesto magnânimo dos vencedores das forças de defesa e polícia timorenses é a festa rija de confraternização regada à cerveja e com muita música e karaoke (e que só faltaram umas meninas para que o ramalhete fosse mais bem composto) com Salsinha e catorze dos seus últimos homens, na terça-feira passada à noite, no Bairro de Farol, Díli, a duzentos metros da residência do antigo primeiro-ministro Mari Alkatiri, que se queixou na manhã seguinte do barulho da música aos jornalistas.

Eu próprio estranhei muito este gesto de receber os inimigos de ontem, rendidos e desarmados, de braços abertos, nas montanhas e em Díli, no Palácio do Governo, por parte de soldados que antes os perseguiam. A minha curiosidade foi tanta que inquiri alguns timorenses sobre este facto e arranquei esta simples explicação: é o funcionamento da justiça timorense nativa do tempo dos seus avós.

Antes de a administração colonial portuguesa se estender por todo o território timorense, que só ocorreu nos princípios do século vinte, não havia cadeia nem prisões para quem cometesse algum crime, desde os mais hediondos até o mais pequeno delito. Assim, em caso de assassínio o criminoso depois de julgado pelos anciãos do clã ou é sentenciado com a pena capital (e passado a fio de espada) ou adoptado pela família do assassinado (ficando a trabalhar até à morte para esta família como indemnização). E relativamente aos crimes menores a pena era quase invariavelmente um pagamento de indemnização em búfalos, cavalos, cabritos, porcos, espadas, panos ou colares à família ofendida. E em caso de guerra os guerreiros vencidos cativos eram reduzidos a escravatura e ficavam a trabalhar para o clã vencedor toda a vida, sendo essa condição escrava estender-se para todo o sempre a todos os seus descendentes.

Por isso, os gestos acima referidos tão criticados pelos não timorenses, que se orientam pela noção de justiça mais moderna, têm a sua explicação na justiça nativa original timorense. É uma reminiscência da administração da justiça do passado longínquo timorense.


quinta-feira, 1 de maio de 2008

Festa conjunta no Comando Conjunto

Timor-Leste: Cerveja e "karaoke" para Salsinha no comando conjunto

Díli, 01 Mai (Lusa) - A rendição de Gastão Salsinha foi celebrada terça-feira à noite, no comando conjunto em Díli, Timor-Leste, com uma festa que juntou os captores e os capturados da operação "Halibur" em torno de muita cerveja e muita música.

O ex-tenente Gastão Salsinha, principal arguido no processo em curso sobre os ataques ao Presidente da República e ao primeiro-ministro, jantou terça-feira no comando conjunto, no Bairro do Farol, numa mesa de oficiais da operação "Halibur".

Salsinha e os seus homens estiveram na festa até cerca das 22:30 (hora local), afirmaram à agência Lusa vários participantes do convívio.

"Houve muita cerveja, muita música e karaoke", afirmou um elemento das forças que, durante quase três meses, perseguiram os fugitivos do 11 de Fevereiro pelos distritos ocidentais do país.

"Divertiram-se todos", resumiu à Lusa o comandante da "Halibur", tenente-coronel Filomeno Paixão.

Durante o jantar com oficiais do comando conjunto, militares e polícias timorenses confraternizaram e abraçaram os 13 fugitivos.

No exterior do salão de conferências onde funciona o comando da "Halibur", houve música até tarde, com elementos das forças de segurança cantando em "karaoke" e dançando.

"A festa podia ouvir-se em minha casa", afirmou à Lusa o ex-primeiro-ministro Mari Alkatiri, secretário-geral da Fretilin.

Mari Alkatiri vive a cerca de duzentos metros do comando conjunto da "Halibur".

Gastão Salsinha foi entregue às autoridades judiciais no dia seguinte, quarta-feira, para o primeiro interrogatório no âmbito do processo relativo aos ataques de 11 de Fevereiro.

Salsinha e cinco elementos do seu grupo estão desde hoje em prisão preventiva.

PRM

RTP Online, 1-05-2008

terça-feira, 29 de abril de 2008

Rendição 'protocolar' de Gastão Salsinha

Gastão Salsinha e grupo rebelde que atacou Ramos-Horta rendem-se em Díli

O tenente Gastão Salsinha entregou-se com outros 11 rebeldes no Palácio do Governo de Timor-Leste, colocando um ponto final ao processo de rendição. O Presidente Ramos-Horta, alvo de um ataque deste grupo, perdoou os revoltosos mas disse-lhes que agora terão de enfrentar a justiça.

O tenente Salsinha e 11 homens por si liderados chegaram ao Palácio vestidos com uniforme militar e rodeados de apertadas medidas de segurança. A rendição do grupo, que entregou as armas às autoridades, realizou-se na presença do Presidente José Ramos-Horta, do presidente do Parlamento Fernando Lasama de Araújo e do representante das Nações Unidas Atul Khare.

Gastão Salsinha, tenente irradiado do Exército timorense, era um dos homens mais procurados no país desde o duplo atentado de 11 de Fevereiro contra o Presidente Ramos-Horta e o primeiro-ministro Xanana Gusmão. A rendição foi negociada no seu bastião de Ermera no final da semana passada.

O Presidente timorense fez hoje questão de falar directamente com o grupo dos revoltosos para dizer a Gastão Salsinha e Marcelo Caetano - o homem que afirma ter sido autor dos disparos que o feriram com gravidade no ataque de Fevereiro - que lhes perdoa "como cristão" e que a partir de agora ficarão nas mãos da justiça.

"Em relação até à pessoa que tentou assassinar-me, perdoo como cristão, como ser humano. Como chefe de Estado (disse-lhe que) ele tem que enfrentar a justiça", afirmou o Presidente Ramos-Horta numa breve comunicação ao jornalistas ainda no Palácio do Governo.

"Eu disse apenas que a justiça tem que ser feita e têm que ser eles próprios a ir a tribunal e explicar o porquê da sua acção no 11 de Fevereiro, mas também quem lhes deu as armas, uniformes, dinheiro, meios de comunicação, telefones, ao longo desses meses todos", explicou José Ramos-Horta.

O grupo de Gastão Salsinha chegou a Díli numa coluna de dezena e meia de viaturas militares das Forças de Defesa e da Polícia Nacional de Timor-Leste, unidades especiais da Polícia Nacional, o procurador-geral da República e a sua segurança pessoal, a GNR e as Força Internacional de Estabilização (ISF). Durante o decorrer da cerimónia de rendição, a ISF manteve frente ao Palácio do Governo um helicóptero Blackhawk.

Paulo Alexandre Amaral, RTP
Rádio TSF Online, 2008-04-29 09:28:50

sábado, 26 de abril de 2008

Salsinha continua em Ermera

Timor-Leste: Salsinha continua em Ermera, nada mudou desde sexta-feira

Díli, 26 Abr (Lusa) - O ex-tenente timorense Gastão Salsinha, que na sexta-feira aceitou render-se às autoridades, permanence em Ermera, na região ocidental de Timor-Leste, numa casa sob controlo das Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste (F-FDTL).

"A situação não mudou desde sexta-feira. Demos mais um par de dias para a entrega das armas e do resto do grupo", afirmou à Agência Lusa uma fonte que acompanha as negociações.

O ex-líder dos peticionários das Forças Armadas aceitou render-se após reuniões que envolveram a Presidência da República, elementos das forças de segurança timorenses, da Igreja Católica e líderes locais.

"Salsinha não tem as armas mas não as entregou (às autoridades). Não está preso mas concordou em não abandonar a casa onde está instalado", disse hoje uma fonte internacional à Lusa.

Não foi feita nenhuma declaração oficial sobre a situação de Gastão Salsinha nem sobre a data prevista para a concretização do acordo atingido na sexta-feira numa aldeia de Ermera.

Salsinha, líder do grupo rebelde que a 11 de Fevereiro atentou contra a vida do Presidente Ramos-Horta e do primeiro-ministro Xanana Gusmão, concordou "em não deixar a casa onde se encontra, até que o resto dos seus homens se juntem a ele", disse na sexta-feira à Lusa uma fonte oficial da ONU em Timor-Leste .

"A situação é muito parecida com o que aconteceu quando Gastão Salsinha concordou em entregar-se ao Procurador-Geral da República" há cerca de dois meses, comentou aquela fonte, que salientou o papel relevante da Igreja Católica, de políticos locais e da Procuradoria-Geral da República nas negociações com o chefe rebelde.

Até quinta-feira, estavam em prisão preventiva dez elementos do grupo de Gastão Salsinha e do major Alfredo Reinado, arguidos no processo do 11 de Fevereiro.

Angelita Pires, ex-assessora legal e namorada de Alfredo Reinado, está indiciada no mesmo processo, aguardando julgamento em liberdade mas com interdição de se ausentar do país.

Continuavam a monte 13 suspeitos com mandado de captura emitido, incluindo Gastão Salsinha, que lidera o grupo de fugitivos depois da morte do major Reinado no ataque à casa do Presidente José Ramos-Horta.

A operação Halibur de captura do grupo de Salsinha tem estado concentrada no distrito de Ermera.

No seu regresso a Timor-Leste, no passado dia 17, o Presidente da República, José Ramos-Horta, tinha ordenado ao ex-tenente Gastão Salsinha para se entregar e acabar com a sua "aventura".

"Deixe-se de aventuras. A vossa aventura e irresponsabilidade ao longo de meses já custou vidas", afirmou José Ramos-Horta na conferência de imprensa que deu no aeroporto internacional Nicolau Lobato, em Díli, dirigindo-se ao líder dos fugitivos ligados aos ataques de 11 de Fevereiro.

O Presidente fez, na ocasião, uma intervenção emocionada mas dura contra Gastão Salsinha e o major Alfredo Reinado, responsáveis pelos ataques contra José Ramos-Horta e o primeiro-ministro Xanana Gusmão.

José Ramos-Horta ficou gravemente ferido, o major Reinado morreu no ataque e o ex-tenente Salsinha fugiu com um grupo que agora está reduzido a cerca de 15 homens.

PRM.
Lusa/Expresso Online, 26-04-2008

Felícia Cabrita atrasou-se!

Há 39 minutos

Timor-Leste

Gastão Salsinha entregou-se há 2 dias

Por Felícia Cabrita

O homem que, supostamente em conivência com o major Alfredo Reinado, terá preparado o duplo atentado contra o Presidente da República e o primeiro-ministro de Timor-Leste, entregou-se anteontem às forças conjuntas. Com ele renderam-se mais três elementos: Valente (um dos elementos que terá estado na casa do PM no dia 11 de Fevereiro), José e André.

Tenente Gastão Salsinha, que desde 11 de Fevereiro terá andado a monte, vai ficar durante uma semana com a família na sua casa, a 15 quilómetros de Ermera.

Liquiceira, o homem mais poderoso de Ermera, que mediou o diálogo entre os revoltosos e o governo timorense, adianta ainda ao SOL que «ele vai precisar de descansar uma semana, para pensar naquilo que vai dizer à justiça».

Só se entregará depois, mas isto é ainda secreto.

Enquanto o tenente rebelde descansa, na sua agenda de hoje consta já a visita do presidente do parlamento, Fernando Lassama.

Como tem vindo a ser hábito, todos os homens envolvidos no atentado entegam-se primeiro ao primeiro-ministro, ou a outras figuras políticas, e só depois se apresentam aos magistrados do Ministério Público e ao juiz internacional Ivo Rosa.

Uma fonte ligada à investagação disse ao SOL que se trata de «mais um atropelamento a um orgão de soberania do Estado timorense, a Justiça».

«Este tipo de actuação permite que os arguidos pensem e concertem versões», afirmou.

SOL, 26/04/2008

felicia.cabrita@sol.pt

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Rendição de mais dois rebeldes do grupo de Salsinha

Renderam-se, hoje, 24/4, mais dois rebeldes do grupo de Gastão Salsinha, o ex-tenente expulso das Forças de Defesa timorenses na sequência da deserção em massa de cerca de seiscentos soldados em Abril de 2006, alegando discriminação étnica.

Recorde-se que Gastão Salsinha comandou o grupo de rebeldes que atacou a coluna de viaturas do Primeiro-ministro timorense Xanana Gusmão, do qual Xanana saiu ileso apesar de a viatura em que seguia tenha sido atingida por vários tiros.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Continua a vigorar o estado de sítio em Ermera

O estado de excepção foi levantado em todo o país, excepto em Ermera, distrito onde se tem refugiado nas sua montanhas Salsinha e os seus perto de uma dúzia homens.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Timor: Eleições antecipadas em 2009?

"Regresso fisicamente preparado a 90 por cento"

17.04.2008, Adelino Gomes

Ramos-Horta regressa a Timor com uma prioridade: retomar o diálogo com os partidos sobre eleições antecipadas em 2009

Numa entrevista por telefone, horas antes da partida de Darwin para Díli, Ramos-Horta disse querer retomar o diálogo com os partidos no ponto em que se encontrava antes do atentado de 11 de Fevereiro - na exigência de eleições antecipadas, feita pela Fretilin.

Chega a Díli dentro de poucas horas. O que pensa dizer ao povo e aos deputados?

Primeiro vou felicitar o Presidente interino [Fernando "Lasama" de Araújo] pela serenidade com que assumiu as rédeas do país. Felicitarei também os deputados e partidos que têm sabido manter-se unidos, e em particular o povo timorense. Não houve incidentes desde a tentativa de assassinato. O povo mostrou maturidade. À medida que a investigação progride, começa a fazer sentido: liquidando Ramos-Horta e Xanana Gusmão, o país podia entrar em caos e isso servia certos interesses [Reinado e a sua amiga Angelita Pires tinham uma conta de um milhão de dólares na Austrália e elementos do Kopassus, forças especiais indonésias, estariam ligados aos atentados, disse Horta à Lusa, pouco antes].

Vai chamar Gastão Salsinha, para que se entregue?

Se ele não tiver sido apanhado ou não se tiver entregado, darei um prazo para que o faça. Não tem que o fazer a mim; pode entregar--se a um padre, aos bispos. Será transportado para a Presidência e dali o procurador-geral da República, o tribunal toma conta.

E quanto à lentidão da investigação [dos atentados]?

Não as acho tão lentas. Recebi informações do procurador-geral da República e da comissão de investigação. Dizem que o mais tardar em Julho têm o dossier completo. Estas informações tranquilizam-me. É necessário agir com prudência. Tem que se ir ao fundo e apurar todos os envolvidos directa ou indirectamente, quer internos quer externos.

Disse que queria convocar eleições antecipadas em 2009.

Nunca dei tal informação. O que disse foi que, se os partidos com assento no Parlamento concordassem com eleições antecipadas, uma exigência da Fretilin, obviamente eu não ia opor-me. Não se dissolve o Parlamento por dá cá aquela palha.

Qual é a sua medida prioritária para que o país entre na via da segurança e da prosperidade?

Vou continuar o diálogo, ouvindo as lideranças da Fretilin e da AMP [Aliança para a Maioria Parlamentar, no poder]. Pela primeira vez pus todos sentados à minha volta. A Fretilin queria um mecanismo que a envolvesse na resolução do caso de Alfredo Reinado - está resolvido; no caso dos peticionários - está em curso; no processo dos deslocados; na reforma judicial, da defesa e segurança. O único ponto controverso é a exigência de eleições antecipadas. Chegaremos a consenso.

Diz que vai retomar de imediato as funções. Sente-se física e psicologicamente preparado?

Fisicamente estou preparado, eu diria, a 80/90 por cento. Ainda tenho dores, resultado dos nervos que foram afectados e que levam tempo a sarar. Emocionalmente, só posso dizer depois de regressar.

PÚBLICO, 17/04/2008

Eleições antecipadas "podem trazer vantagens"

Ramos-Horta chegou a Timor-Leste

A realização de eleições antecipadas em Timor-Leste "pode ter vantagens para todas as partes", declarou o Presidente da República timorense, José Ramos-Horta, à agência Lusa e à RTP em Díli.

"Eu sempre disse que não tenho objecções a eleições antecipadas desde que resulte de um consenso do Parlamento, de todos os partidos",
afirmou José Ramos-Horta na sua residência em Díli, onde regressou hoje depois de ter estado em tratamento na Austrália, na sequência do atentado de 11 de Fevereiro.

"A Fretilin quer as eleições antecipadas talvez no Verão de 2009. O Governo diz que sim, diz que não, ainda não se pronunciou",
disse Ramos-Horta, na entrevista conjunta à Lusa e RTP. Para o Presidente timorense, as eleições antecipadas "podem trazer vantagens para todas as partes".

"Se o Governo fizer um bom trabalho este ano de 2008, as eleições novas resultam numa vitória do Governo e a Fretilin perde",
disse.

"Mas se o Governo faz um trabalho miserável, não consegue cumprir as promessas e fazer a execução orçamental, até eu prefiro ter eleições antecipadas porque não temos que os ter durante mais de três anos",
sublinhou o chefe de Estado timorense.

"Portanto, o ano de 2008 é um grande teste para o Governo. Se fizer um bom trabalho, a Fretilin estará em desvantagem. Se fizer um trabalho medíocre, o povo quererá eleições antecipadas",
acrescentou.

O chefe de Estado reconheceu que olha para si próprio, hoje, como o factor de união da sociedade timorense.

"Parece que sim. É o que revela a explosão popular em me acolher. É o que revela que os partidos todos tenham estado no aeroporto"
hoje de manhã, frisou Ramos-Horta, eleito Presidente da República em 2007.

É com esse apoio que José Ramos-Horta diz "insistir no diálogo" político iniciado no regresso da visita oficial ao Brasil, em Janeiro deste ano, incluindo a reunião entre a aliança partidária no Governo e oposição, poucos dias antes dos ataques de 11 de Fevereiro, em que foi ferido a tiro com gravidade.

"Tivemos dois diálogos e correram de forma muito salutar e com propostas construtivas. O único ponto que (ficou) por discutir era a exigência de eleições antecipadas. Mas aí podemos chegar a uma solução de compromisso em que ninguém perde a face",
afirmou José Ramos-Horta.

"Se houver eleições legislativas antecipadas, eu quero também eleições presidenciais antecipadas",
declarou José Ramos-Horta, acrescentando que, nesse caso, não seria candidato, conforme a Constituição timorense.

"Não sou melhor que os outros. Os outros não são melhores que eu. Vamos testar com o povo",
explicou ainda o Presidente da República.

"Disse também, na altura (Julho de 2006), que a minha preferência não era ser primeiro-ministro. Fui empurrado, sobretudo por Xanana Gusmão. E paguei um preço muito grande como primeiro-ministro porque assumi a responsabilidade numa situação muito difícil",
considerou o actual chefe de Estado.

"Aceitei, tentei ser leal à Fretilin, respeitando a sensibilidade do partido nessa altura. Depois fui empurrado para eleições presidenciais e não me senti bem tendo como adversário o Francisco Guterres 'Lu Olo' (presidente da Fretilin)",
referiu.

"Hoje, chego à conclusão que Fernando 'La Sama' (de Araújo, presidente do Parlamento), por exemplo, seria um bom Presidente, pela forma como agiu nestes dois meses",
em que ocupou interinamente a chefia do Estado, acrescentou.

Sobre a estratégia em relação ao ex-tenente Gastão Salsinha, José Ramos-Horta assegurou que não irá seguir a mesma linha de diálogo que manteve com o major Alfredo Reinado.

"Não. Tiveram oportunidade durante ano e meio",
explicou o Presidente da República sobre o grupo de Gastão Salsinha, que até 11 de Fevereiro liderava os chamados peticionários das Forças Armadas.

"Apresentei uma proposta há mais de um ano ao comando das Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste (F-FDTL). Na altura, a posição do comando era muito inflexível. Não queriam ouvir falar dos peticionários. Sentiam-se traídos",
recordou José Ramos-Horta.

"No entanto, com muita paciência minha e humildade do comando das F-FDTL, ouviram-me, tiveram reuniões e aceitaram a minha proposta: todos os peticionários que quisessem voltar, podiam voltar através de um processo de novo recrutamento".

"Aos que não quisessem voltar, o governo dava um subsídio equivalente a três anos de vencimento para poderem retomar as suas vidas",
lembrou o Presidente na entrevista.

"Primeiro, a organização não-governamental MUNJ disse-me que Salsinha e Reinado concordavam. Daí que eu decidi receber os dois em Maubisse. Mas quando cheguei lá, Reinado disse que não, que eles nunca disseram que concordavam com a proposta",
contou José Ramos-Horta à Lusa e RTP.

"Isto é, não lidam com a questão com seriedade",
acusou o Presidente.

"Entretanto, Salsinha deixou de ser uma pessoa sobre quem não pesa um mandado de captura. Envolveu-se directamente num ataque ao chefe de Estado e ao primeiro-ministro e tem que se apresentar à justiça",
frisou o chefe de Estado timorense.

"Não foi necessário até hoje que algum timorense tivesse morrido. Já mais de metade dos elementos (fugitivos) se entregou com as suas armas. Só faltam talvez 12 pessoas com menos de 12 armas",
acrescentou.

José Ramos-Horta repetiu, na entrevista, o caminho que apontou ao ex-tenente Salsinha à chegada a Díli: "Entregue-se".

SIC/Lusa, 17/04/2008

Ramos Horta em Díli

Ramos Horta terminou há poucos minutos o seu discurso, de improviso, em português, tétum e inglês, e dirige-se neste preciso momento à multidão que o aguarda há umas horas no exterior das instalações do aeroporto.

Do discurso do Presidente ressaltam duas ideias-chave: Gastão Salsinha deve entregar-se sem demora; e Salsinha não pode voltar a causar a morte a nenhum timorense.

sábado, 12 de abril de 2008

Atentado de 11/2: A reportagem de Felícia Cabrita

O DIA EM QUE TIMOR VOLTOU A SANGRAR

Histórias de mal-entendidos, traições e mulheres “fatais”, que reabriu as feridas em Timor mesmo à beira de um acordo.

A reunião convocada por Ramos-Horta com todos os partidos políticos de Timor-Leste e com o primeiro-ministro, Xanana Gusmão, está na base do atentado que quase vitimou o Presidente. Um dos assuntos prioritários do encontro era descobrir uma solução para a situação dos 'peticionários'.

Em 2006, cinco centenas de militantes, liderados pelo tenente Gastão Salsinha, tinham saído dos quartéis em protesto contra a discriminação existente entre os militares oriundos da zona da resistência e os que foram submetidos à influência indonésia durante a ocupação.

Em entrevista ao SOL em Março, Ramos-Horta admitiu que esta era uma questão urgente: “Estávamos a tratar de uma amnistia que seria promulgada em Maio e que permitiria integrar os 'peticionários' de novo no exército ou, caso não quisessem voltar aos seus postos, saírem com um subsídio para reconstituir as suas vidas”.

Mas o problema mais delicado levantado na reunião – e que não reunia o consenso – dizia respeito ao major Alfredo Reinado que, ao contrário de Salsinha, era acusado de vários homicídios. Mari Alkatiri, secretário-geral da Fretilin, garantiu ao SOL que a Lei da Amnistia tinha de ser muito bem pensada. “Nunca votarei numa lei em que as pessoas que praticaram crimes de sangue possam ter um perdão e voltar a integrar as forças armadas ou a polícia sem serem submetidas a julgamento”.

Segundo Ramos-Horta, o chefe do Estado-Maior das F-FDTL (Forças de Defesa de Timor-Leste), brigadeiro-general Matan Ruak, tinha uma posição ainda mais dura e avisou-o de que Reinado e Salsinha “nunca poderiam regressar às Forças Armadas”.

Solução para Reinado

Mas Ramos-Horta encontrara uma solução conciliatória: “O major Reinado tinha um contrato por quatro anos com as F-FDTL que estava a terminar. Ele voltaria, resignava e depois saía elegantemente com uma compensação monetária. Mas penso que alguém deturpou o que se passou na reunião para os envenenar”.

Outro dos temas discutidos deixou amargos de boca a alguns dos intervenientes. Mari Alkatiri explicou ao SOL: “O meu partido sempre disse que este Governo era inconstitucional. Apesar de Xanana ter tido apenas 24% dos votos e nós 29, fez uma aliança com três partidos para formar Governo. Eu não me sentiria com legitimidade democrática para governar.” Alkatiri não fica por aqui faz a ligação ao atentado: O Presidente andava em negociações com eles e tudo parecia bem encaminhado. O Reinado não tinha razões para matar Ramos-Horta. Na reunião este assunto estava praticamente decidido e as eleições seriam em 2009. Quem tinha mais a perder?”

O resultado desta reunião, na íntegra ou deturpado, espalhou-se rapidamente nas montanhas onde se abrigavam os homens de Salsinha e de Reinado. O SOL teve acesso a todas as listagens telefónicas, que foram encontradas em dois papéis na posse de Reinado e de Leopoldino Exposto, o seu braço direito.

Feito o cruzamento das chamadas, pode concluir-se que Reinado foi traído em várias frentes e por aqueles que lhe eram mais próximos.

Um deles, Gastão Salsinha. Desde o dia da reunião no Palácio das Cinzas que o volume de chamadas feita por ele triplicou. A notícia da reunião chegara às montanhas e Salsinha – em relação a quem não havia suspeitas de crimes de sangue, ao contrário do que acontecia com Reinado -, ao saber que não iria ser integrado nas forças armadas, virou-se contra Reinado.

Preparação do golpe

Em entrevista ao SOL, Salsinha separa as águas: “Os 'peticionários' não podem ser envolvidos nas coisas de Reinado, eu nem sei qual era o plano dele quando foi a casa do Presidente”.

Nessa noite, mal dorme. Desfaz-se em contactos para a Austrália e Indonésia, mas a maioria das chamadas é para o interior do país. Várias delas para Assanku, que integraria o grupo que foi com Reinado à residência de Ramos-Horta no dia do atentado. Contactado pelo SOL, Assanku negou: “Não tenho nada a ver com isso. Trabalho numa rmpresa de segurança e não conheço ninguém ligado ao Salsinha ou ao Reinado.”

No dia 9 de Fevereiro, Assanku contacta Albino Assis, um dos militares que presta segurança na residência de Ramos-Horta. A armadilha estava montada. No dia seguinte, Assanku encontra-se com Leopoldino, braço direito de Reinado, que está na capital, e alugam dois jipes.

Na noite de 10 de Fevereiro, Reinado passa pela casa de Vítor Alves, membro do Conselho de Estado e seu pai adoptivo. Este revela: “Reinado disse-me que tinha uma reunião com Ramos-Horta e que no dia 14 haveria uma grande festa em Ermera”. O que cola com o discurso de Horta: “Na reunião antes do atentado eu estava de partida para o Brasil. Mas como estávamos quase a chegar a um acordo em relação ao Reinado, os líderes dos partidos pediram-me para vir mais cedo e anunciar o acordo antes de dia 14. E em Abril anunciaria a Lei da Amnistia que os contemplava, porque não se tratava de crimes de delito mas de uma situação política”.

Amante faz jogo duplo

Nesse dia, Ângela Pires, ex-assessora do Procurador-geral da República, regressa com Reinado a Ermera. Faz-se passar por sua assessora jurídica, mas a história amorosa entre eles é pública. Durante os dois dias que esteve com Reinado, a mulher mantém-se em ligação com Salsinha. Nos últimos dias, levantara da sua conta uma razoável quantia de dinheiro. Ramos Horta considera-a, a “grande responsável” pelo que aconteceu. “A Ângela foi sempre um travão nas negociações com Reinado. Deve ter muita gente na sua retaguarda”.

Enquanto Reinado preparava o arranque para Díli, Ameta, uma mulher com quem vivia, tenta em vão falar com ele. Por fim, deixa-lhe uma mensagem alertando-o, aparentemente, para uma cilada: “Tenha cuidado mor [amor] não é preciso ires a este seminário [reunião] se não te sentires bem. Não te esqueças de seguir o ritual daquilo que acreditamos. Amo-te sempre”. Contactada pelo SOL, a mulher (que tem uma filha de Reinado ainda bebé) garante não ter conhecimento do que se passou: “Eu era a sua mulher, era normal falarmos ao telefone ou mandar-lhe mensagens, mas nunca participei em nada. Estava em casa, cozinhava, limpava e cuidava da nossa filha”.

Nessa madrugada, pelas três da manhã, Reinado e Leopoldino, mais nove homens, rumam a Díli em jipes diferentes. A leitura das listagens telefónicas mostra que a partir desse momento estão dois chefes, mas que é Salsinha quem gere os acontecimentos. Seriam 6H17 quando Reinado entrou na casa do Presidente. Sem as cautelas próprias de quem prepara um atentado, o grupo estaciona os jipes em frente à residência. Mal saem dos carros, a sentinela aponta-lhes a arma mas é desarmado.

Sete homens de Reinado ficam na estrada, entre eles Assanku, que sempre fez a ponte com o segurança de Ramos Horta, Albino Assis.

Reinado pergunta à sentinela pelo Presidente, ao que ele responde que tinha ido “para a ginástica”.

Reinado e Leopoldino entram, com dois homens atrás. Três minutos depois ouvem-se tiros, seguidos de rajadas. A partir deste momento as versões deixam de coincidir.

O autor das mortes

Francisco Marçal, militar das F-FDTL, diz que foi o único a disparar contra Reinado e Leopoldino.

Eram 6H30 quando foi acordado por Tadeus Gabriel, um miúdo de 14 anos. Este, com grande precisão, relatou ao SOL, que se deparou com “nove homens de máscaras no rosto”. Acrescenta que só reconheceu Reinado por vê-lo na televisão.

Aí aproximou-se da tenda onde dormiam os militares Francisco Marçal e Albino Assis. Ao ouvir o grito do garoto – “Está aqui o major Reinado” -, Francisco esgueirou-se pelas traseiras. Durante 15 minutos seguiu os passos de Reinado e Leopoldino.

Depois preparou a metralhadora: “Não fiz rajada, foi tiro a tiro. Disparei um na cabeça de Leopoldino e outro na cara de Reinado”. A esta hora os telemóveis de Salsinha continuam em uso e a informação da morte de Reinado passa a circular. E a informação da morte de Reinado passa a circular. Ramos Horta, apesar de ter ouvido os tiros, dirige-se para casa. Eram quase sete da manhã quando um homem escondido entre os arbustos se ergue e o atinge por duas vezes. Os militares da sua segurança mantiveram-se no quintal. As forças internacionais não se mexem, e se não fosse a GNR e o enfermeiro do INEM que chegaram ao local uns vinte minutos depois, Ramos Horta estaria morto.

Enquanto o Presidente segue para o hospital, Assanku recolhe informações com Assis. Uma hora depois, será a vez de o carro de Xanana ser baleado a 500 metros de casa.

Mistério envolve Xanana

Também aqui as coisas correm de forma insólita. Salsinha garante que estava lá “só para lhe pregar um susto, porque a situação dos 'peticionários' nunca mais se resolvia”. Enquanto os seus homens se vão entregando, Salsinha ainda não decidiu o seu futuro: “Os meus homens agora estão divididos em quatro grupos e eu não sei se me entregue ou se lute até morrer”.

Mas foi após a morte de Reinado que os traidores se revelaram com mais desfaçatez. O telemóvel dele esteve a funcionar até ao dia 28. E Ângela e Salsinha, entre outros, mantiveram-se em conversações com os militares que o mataram.

Felícia Cabrita, em Díli

SOL, 12/04/2008
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O meu comentário sobre a cronologia da sequência dos acontecimentos está na postagem anterior.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Mais rendições de rebeldes em Timor

Ontem, 10 de Abril, renderam-se mais três rebeldes com duas armas ao Comando da Operação Halibur.

O grupo de Gastão Salsinha está reduzido a dezasseis homens com doze espingardas automáticas.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Mais duas rendições em Timor

Renderam-se, com uma arma automática HK33, uma cartucheira e cerca de sessenta munições, esta quinta-feira, em Bobonaro, mais dois soldados do grupo rebelde de Gastão Salsinha.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Atentado 11/2: Rendição de mais quatro rebeldes

Timor-Leste "recebe" mais fugitivos do grupo de Gastão Salsinha

Mais quatro elementos do grupo do ex-tenente Gastão Salsinha entregaram-se às autoridades timorenses nas últimas 48 horas. Os últimos a entregar-se foram o guarda-costas de Gastão Salsinha e o homem que deu armas a Alfredo Reinado em Fevereiro de 2007.


A operação “Halibur” continua a provocar baixas entre o grupo de Gastão Salsinha e mais quatro elementos ligados ao ex-tenente das forças armadas timorenses entregaram-se nas últimas 48 horas.

O guarda-costas de Gastão Salsinha, Januário Babo, e Quintino Espírito Santo, o homem que deu armas a Alfredo Reinado em Fevereiro de 2007, renderam-se às autoridades timorenses segundo anunciou o comando conjunto da operação "Halibur" em Timor-Leste.

O inspector Mateus Fernandes da Polícia Nacional de Timor-Leste, segundo comandante da operação "Halibur", anunciou ainda que três dos homens que se renderam foram apresentados no quartel-general do comando conjunto, em Díli, estando o quarto elemento a caminho da capital timorense.

À parte destas rendições a operação "Halibur" entrou agora numa fase de perseguição directa a Gastão Salsinha, com autorização para disparar se necessário e com o início de buscas sistemáticas a residências particulares nas áreas montanhosas onde os fugitivos se movimentam.

Recorde-se que Gastão Salsinha é acusado de ter participado no ataque contra o primeiro-ministro, Xanana Gusmão, a 11 de Fevereiro último, pouco depois de o major Alfredo Reinado ter atacado a residência do Presidente da República, José Ramos-Horta.

Januário Babo e Quintino Espírito Santo renderam-se na passada segunda-feira, no distrito de Ermera, "com a ajuda preciosa do pároco da paróquia de Letefoho", esclareceu Mateus Fernandes.

Recorde-se que o próprio Gastão Salsinha já prometeu por várias vezes às autoridades timorenses entregar-se, tendo mesmo avançado com locais e dias, mas até ao momento nunca nenhuma dessas promessas foi concretizada. Foi mesmo essa atitude de Gastão Salsinha que levou a que fosse dada ordem para disparar, caso necessário, na fase de perseguição directa a Salsinha que se iniciou com o início de buscas sistemáticas a residências particulares nas áreas montanhosas onde os fugitivos se movimentam.

António Dasiparu, EPA
RTP2, 08-04-09 11:40:36

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Fim de linha de Gastão Salsinha

Gastão Salsinha dispõe de apenas 22 horas para se render com os seus homens ou "expor-se a combate".

Não convém à justiça e à política doméstica timorense a segunda opção, porque parte da verdade dos atentados de 11/2 pode correr o risco de nunca ser conhecida.

A ser este o desfecho, então irá continuar a pairar uma sombra de dúvida sobre a identidade dos mentores do atentado contra o Presidente da República e o Primeiro-ministro timorenses.

Por isso, Salsinha vivo é muito mais útil para o partido da oposição Fretilin e (sobretudo) para os partidos que suportam o Governo e o próprio Governo chefiado por Xanana Gusmão.

sábado, 5 de abril de 2008

11/2: Abriu a "caça" a Salsinha

PM diz que «chegou a hora» de capturar Salsinha

Os líderes timorenses decidiram que «chegou a hora» de capturar o líder dos militares peticionários Gastão Salsinha, afirmou hoje o primeiro-ministro Xanana Gusmão à agência Lusa

«Decidimos que já chegou a hora e a partir do dia 09 as forças conjuntas vão começar a operação», declarou hoje Xanana Gusmão à Lusa, na primeira entrevista após os ataques de 11 de Fevereiro.

«Não vai haver mais aquela tolerância. Tem de se dizer à população que já acabou a brincadeira. O Salsinha tem de se render ou expor-se a combate», afirmou o governante.

«Agora já há ordem para disparar», acrescentou Xanana Gusmão ao falar sobre as regras aprovadas sexta-feira numa reunião entre as chefias das forças de segurança, o Governo e o Presidente da República interino.

O ex-tenente Gastão Salsinha liderou uma emboscada à coluna onde seguia o primeiro-ministro, na manhã de 11 de Fevereiro, pouco depois de um grupo chefiado pelo major Alfredo Reinado atacar a residência do Presidente da República.

Com a morte de Alfredo Reinado nesse ataque, Salsinha passou a liderar o grupo de fugitivos que, há quase dois meses, se tem movimentado nas áreas montanhosas de Ermera e Bobonaro (oeste).

«Vamos pôr de sobreaviso a população da área, que não deve sair de casa nos dias da operação. Se saírem e forem vistos a fugir das forças, vão ser alvejados», declarou Xanana Gusmão à Lusa.

Hoje mesmo, os comandantes da operação «Halibur» de captura de Salsinha deslocaram-se a Maubisse (oeste), para participar numa cerimónia religiosa e aproveitar a ocasião «para explicar aos muitos jovens presentes a estratégia das autoridades», afirmou à Lusa uma fonte do Comando Conjunto.

Objectivo semelhante norteou o presidente interino, Fernando «La Sama» de Araújo, num périplo de dois dias pelo distrito de Bobonaro, quarta e quinta-feira, de helicóptero, contactando populações nas áreas de refúgio do grupo de Salsinha.

Na entrevista de hoje, Xanana Gusmão explicou que a operação «Halibur» teve três objectivos, o primeiro dos quais era «criar um sentimento de dever comum colectivo das duas instituições perante o Estado», referindo-se à Polícia Nacional e às Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste.

«Devo dizer que conseguimos. Nunca se pensou que as duas forças, que se andaram a matar uma à outra (em 2006), pudessem depois trabalhar em conjunto dessa maneira», salientou o primeiro-ministro.

Outro objectivo cumprido pela «Halibur» foi «reganhar contacto com a população, que com dois anos de influência do Reinado e do seu grupo, estava um bocado distanciada das nossas forças».

O terceiro objectivo «é preciso exercer pressão sobre o grupo do Salsinha, o que permitiu que alguns elementos se rendessem», acrescentou Xanana Gusmão.

Sexta-feira, um juiz internacional do Tribunal de Distrito de Díli impôs a medida de prisão preventiva a mais dois elementos do grupo de Gastão Salsinha.

Os dois homens, Alexandre Araújo (Alex), da Polícia Nacional, e Bernardo da Costa (Cris), das Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste, foram formalmente detidos no acantonamento de peticionários de Aitarak Laran, em Díli, depois de decidirem entregar-se ao Comando Conjunto.

Até agora, sete dos oito arguidos no processo relativo ao 11 de Fevereiro estão em prisão preventiva. Apenas Angelita Pires, ex-assessora legal de Alfredo Reinado, aguarda julgamento em liberdade, com termo de identidade e residência.

Domingo, o chefe de Governo tem um encontro com os comandantes da operação «Halibur» no terreno.

Gastão Salsinha foi o líder dos peticionários das Forças Armadas em 2006 e juntou-se a Alfredo Reinado em Novembro de 2007, numa parada militar em Gleno.

«O 11 de Fevereiro foi um desfecho trágico, em termos do Estado, dos problemas de 2006, que não são (iniciados) a 28 de Abril. Tudo tem de ser compreendido para trás», explicou Xanana Gusmão sobre as raízes dos «atentados» contra o topo do Estado.

«Andámos um bocado a brincar», acrescentou Xanana Gusmão, que entende o 11 de Fevereiro como «um falhanço de liderança em muitos aspectos».

Xanana Gusmão recusou, no entanto, qualquer comentário sobre as investigações, «que competem às autoridades judiciais».

«Muita gente fala dos mistérios, dos mistérios. Que se desvendem esses mistérios. Eu apenas repito o que as outras pessoas dizem», declarou apenas o primeiro-ministro.

Lusa/SOL Online, 5/04/2008


segunda-feira, 31 de março de 2008

La Sama: 11/2 foi golpe de Estado falhado

O Presidente timorense interino, Fernando La Sama, afirma que o atentado de 11 de Fevereiro foi pensado e planeado antecipadamente, não sendo por isso uma atitude impulsiva de momento dos seus autores, e executado militarmente pelo grupo de Alfredo Reinado.

A confirmar-se esta hipótese, todos os envolvidos, incluindo os supostos mentores políticos do golpe, serão também investigados. Fala-se de boca pequena nos meios políticos de Díli que alguns proeminentes dirigentes da Fertilin estão por detrás do golpe.

La Sama afirma também que a partir de amanhã, 1/4, será considerado crime todo o apoio logístico ao restante minúsculo grupo de Alfredo Reinado comandado agora por Gastão de Salsinha.

Timor-Leste: ajudar fugitivo Salsinha vai ser crime

O Presidente interino de Timor-Leste anunciou que, a partir de amanhã, dia 1 de Abril, passará a ser considerado crime qualquer tentativa de ajudar ou esconder o único dos autores dos atentados contra Ramos-Horta e Xanana Gusmão ainda em liberdade, o revoltoso Gastão Salsinha.

Em declarações à Rádio Renascença, Fernando Lassama Araújo assegurou que «a partir de amanhã, as pessoas que tentem dar apoio ou esconder o Salsinha e o seu grupo vão ser consideradas como criminosas»

Entrevistado, esta manhã de segunda-feira, em Díli, o Presidente interino de Timor acrescentou ainda que a população vai ser informada em breve da nova realidade.

«Há muitas informações de que ele [Gastão Salsinha] está na parte Oeste de Timor, Ermera e Bobonaro, mas estou certo de que ainda está escondido nas áreas de Ermera», afirma Lassama Araújo

Líder dos peticionários das Forças Armadas que abandonaram os quartéis em Fevereiro de 2006, Gastão Salsinha lidera actualmente o grupo de fugitivos que atacou a residência do Presidente da República, José Ramos-Horta, e a coluna de viaturas do primeiro-ministro, Xanana Gusmão, no dia 11 de Fevereiro.

Diário Digital
31-03-2008 10:17:40

domingo, 30 de março de 2008

Ramos-Horta: entrevista ao PÚBLICO

Ramos-Horta: Nenhum governo vizinho esteve envolvido no atentado de 11 de Fevereiro

O presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta, pensa regressar em finais de Abril a Díli e diz que se concluir que não tem condições para continuar, renunciará. Acha que há dinheiro estrangeiro, por detrás de tudo. Mas não aceita a ideia de que a Austrália ou a Indonésia estejam envolvidas na conspiração. Entrevista ao PÚBLICO, por correio electrónico, a partir de Darwin, onde convalesce.

Com os dados de que já dispõe, pode caracterizar o que se passou [em 11 de Fevereiro, no assalto à residência de Horta, por um comando liderado pelo ex-major Alfredo Reinado]: uma tentativa de golpe de Estado?

Não, não foi uma tentativa de golpe pois as F-FDTL [Falintil-Forças de Defesa de Timor-Leste] são-me muito leais, assim como a PNTL [Polícia Nacional]. Ninguém no país conseguiria ter a adesão das duas forças contra a minha pessoa. E golpe para quê? Quanto a mim, quando sentisse que já não sou desejado pelo povo, muito serenamente e com alívio apresentaria a minha resignação.

Um atentado contra o presidente e o primeiro-ministro?

Foi um acto de loucura por parte do Sr. Alfredo Reinado e do Sr. Gastão Salsinha. Conheci os dois ao longo de ano e meio que lidei com eles, tentando compreendê-los, ouvindo-os, porque nem sempre a razão está toda num lado.Mas ao lidar com eles eu tinha que ter sempre em conta as sensibilidades nas F-FDTL e, portanto, não daria algum passo sem consultar, conversar, com o Brig.-Gen. Taur Matan Ruak, assim como com o então PR Xanana Gusmão. O Sr. Reinado era uma pessoa extremamente instável, facilmente influenciado, hoje diz uma coisa, amanhã já diz outra. Tinha um ego enorme, gostava muito de publicidade que mais inflaccionava a sua vaidade.

Uma tentativa de Reinado para o fazer refém?

Julgo que sim. E se seu resistisse seria abatido.

Uma tentativa de Reinado para chegar à fala consigo e que correu mal?

Não. Ele não vinha para falar comigo. Sempre que ele queria falar comigo ou eu quisesse falar com ele, marcávamos encontro fora de Díli, em Gleno, Aileu, Maubisse, etc. Não se vem falar com alguém logo desarmando os guardas, pontapeando as portas da casa, etc. Foi isto que levou um elemento das F-FDTL a disparar. Invadir a casa do Chefe de Estado, tirar as armas aos guardas, em qualquer lado do mundo teria resposta adequada. Foi o que aconteceu.

Outra situação? Qual? Porquê?

As informações apontam para o álcool, droga, a sua enorme irritação com o PM (primeiro-ministro) Xanana Gusmão por avançar rapidamente com a resolução do caso dos peticionários e pensando que afinal eu estava em sintonia com o PM para o isolar dos peticionários. Influenciado por uma tarada (em todos os sentidos) de nome Angie Pires com a qual ele estava amantizado, decidiu agir contra a minha pessoa.

Pensa que houve envolvimento de interesses ou personalidades estrangeiras nessa acção?

Acredito que sim, com dinheiro; nenhum governo vizinho ou embaixada em TL [Timor-Leste] está envolvido. Havia sim elementos privados em TL e fora que lhe davam dinheiro, fardamento, telefones, transporte, etc. As investigações continuam e aguardamos o resultado.

Já criticou a facilidade com que o grupo armado entrou em Díli, se deslocou até à sua residência e posteriormente até à residência do PM, se envolveu em tiroteio e abandonou a capital. Na situação concreta, quem devia ter interceptado o grupo? O comando australiano e a UNMIT deram-lhe já alguma explicação convincente para esse falhanço?

Nenhuma das duas instituições me deu ainda explicações. Sabem que falharam. Não as quero criticar mas é preciso que eles revejam todo o sistema. Façam mea culpa pois falharam redondamente. Apesar de que a UNPOL e as ISF tinham directivas do Estado timorense para evitar qualquer operação de força para fazer executar o mandato de captura, tinham também directivas para fazerem sentir a pressão, não perdê-lo de vista, etc.

À luz destes acontecimentos, o que teria feito de diferente na crise dos ex-peticionários e em particular no caso Reinado, se pudesse voltar atrás?

Faria exactamente o mesmo, pois não havia outra opção que não fosse o diálogo se queríamos evitar mais sangue (lembro que em Março de 2007 as forças australianas fizeram um cerco ao Sr. Reinado e seus elementos e houve um embate que resultou em mortos). Eu, enquanto Chefe de Estado, prefiro sempre uma resolução pacífica, leve o tempo que levar.

Já confirmou que Gastão Salsinha lhe escreveu dizendo que só se entregaria a si. Que resposta lhe deu?

Deposito total confiança no Presidente interino Fernando La Sama Araújo que desde a primeira hora, em parceria com o PM, está a gerir a situação com muita prudência e serenidade. Endossei para os dois a carta do Sr. Salsinha. Mas já respondi publicamente dizendo ao Sr. Salsinha que deve entregar-se com as armas às autoridades. Não há mais diálogo. Ele deve enfrentar a justiça e que faça diálogo com o PGR e os juízes.

Mesmo que recupere fisicamente considera que vai estar em condições psicológicas para retomar as funções de chefe do Estado num país que tem vivido em crises cíclicas internas desde a independência?

Regresso brevemente. Se eu concluir que não tenho condições para continuar, darei conta disso ao Parlamento e ao Povo. Mas farei tudo para continuar a servir o povo e merecer a sua confiança. Quando fui baleado e na eminência de morrer a minha única preocupação era o que iria acontecer a este povo inocente, bom. Ia ser vítima de uma onda de violência?Felizmente, graças a Deus, sobrevivi. Alguma nota positiva a registar: as instituições do Estado continuaram a funcionar; não houve pânico; não houve violência.

Adelino Gomes
PÚBLICO, 29/03/2008
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O meu comentário a esta entrevista do Presidente timorense, José Ramos-Horta
Esta entrevista vem responder a algumas das questões e dúvidas levantadas pela jornalista do semanário SOL, Felícia Cabrita, no seu artigo publicado no seu último número, Sábado, 29/03/2008, o qual transcrevi (e fiz a sua 'dissecação') na postagem imediatamente antes desta.