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domingo, 28 de dezembro de 2008

Claude Lévi-Strauss

O centenário do antropólogo imortal

Pode bem dizer-se que é o mais velho do immortels (imortais, o nome dado aos membros da Academia Francesa). A 28 de Maio, o fundador da antropologia estruturalista tornou-se o primerio membro centenário da pluricentenária instituição, para onde entrou em 1973. A sua obra mais emblemática, Tristes trópicos (1955), consiste num relato autobiográfico da experiência que viveu junto dos índios do Brasil entre 1935, ano em que foi convidado para professor na Universidade de São Paulo, e 1939, ano em que regressou a França. Embora tenha viajado extensivamente pelo Mato Grosso e Amazónia - ora na carrinha Ford, ora em carros puxados a bois ou, ainda, a pé -, haveria de escrever no prefácio do seu livro mais célebre: «Tenho ódio aos viajantes e aos exploradores».

Regressado do Brasil, Lévi-Strauss foi um dos membros impulsionadores do movimento ecologista. E, antes do regresso definitivo à Europa, passou por Nova Iorque onde se juntou a uma já impressionante concentração de intelectuais europeus fugidos à guerra. Em Paris, tornou-se sub-director do Museu do Homem, o mais importante dedicado à Antropologia, e fundou a Revista L'Homme.

Aplicou a sua análise estruturalista aos estudo das relações familiares e dos mitos, que reduziu à essência cunhando a designação 'mitema'. Comparou, por exemplo, as tatuagens dos chefes das tribos índias brasileiras aos brasões da nobreza europeia.

Este ano de celebração ficou marcado por uma jornada, com afluência recorde, no Museu de Quay de Branly (que possui a colecção de fotografias e objectos recolhidos nas expedições sul-americanas), uma homenagem na Academia Francesa e uma exposição com manuscritos, cadernos de viagens e objectos pertencentes ao antropólogo.

Embora o seu nome reúna consenso (no dia do seu 100º aniversário recebeu, por exemplo, a visita do Presidente Sarkozi), durante a vida esteve envolvido em várias polémicas. Em 1980 foi um dos académicos que se opuseram a que Marguerite Yourcenar (que, como ele, havia nascido na Bélgica) fosse a primeira mulher a ser eleita para a Academia Francesa. A sua própria eleição havia suscitado muitas dúvidas.

Um prémio para as Ciências Humanas com o seu nome, no valor de 100 mil euros, vai ser atribuído pela primeira vez em 2009.

José Cabrita Saraiva
in Revista Tabu (SOL nº 120, 27 de Dezembro 2008)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Lévi-Strauss

"Odeio as viagens e os exploradores. E aqui estou eu disposto a relatar as minhas expedições. Mas quanto tempo para me decidir!" Com esta "frase falhada" começa Tristes Trópicos, um grande e melancólico livro do século XX. O seu autor, enquanto espera por Novembro para fazer cem anos, ouve Wagner, lê Proust, olha os quadros de Poussin e lembra a selva amazónica. Para que esta data seja mais do que uma data, a colecção Pléiade acaba de acolher Claude Lévi-Strauss, publicando num volume sete (sete é um número mágico!) dos seus livros maiores. Entregue à mediocridade agitada do tempo, simbolizada pela estridente dupla aventureiro-cantora que lhe preside, a França, já sem génios nem heróis, atira-se a Lévi-Strauss como um náufrago à sua tábua de salvação. Em frente da noite densa que avança baixa e rasante, o grande antropólogo-escritor é um último clarão crepuscular de grandeza. Aquele que tanto escreveu sobre mitos e mitologias, é, agora que a longevidade o sagrou, um mito, sobre o qual correm rios de tinta, acendem-se ecrãs, desenham-se capas, inventam-se títulos. O "Nouvel Observateur" proclama "O Último dos Gigantes" e defende que a sua obra perturbou a nossa visão do mundo. "Le Point" exclama "Um Génio Francês - O Homem que Revolucionou o Pensamento". O "Magazine Littéraire" chama-lhe "O Pensador do Século".

Tenho um fascínio frequente por Lévi-Strauss. Acho que alguns dos raios que a sua obra emite atravessam o centro do espelho onde nos vemos; e nas suas questões estão os nós da corda que nos ata ao tempo. Sob a influência da geologia e da linguística, mas também na descendência de Marx e de Freud, ele pensa que o visível pode ser explicado pelo oculto. Nestes dias de tributo, tenho passado horas de encantamento a ler sobre ele e a pensar com ele. O estruturalismo e o relativismo, a crise do sujeito, a nova querela dos universais, o anti-humanismo e o regresso a uma visão do homem como ser vivente e não dono da criação, a continuidade do pensamento selvagem e do pensamento científico, a função individual e colectiva do mito, a relação entre o sensível e o inteligível, a reivindicação de Rousseau, a ligação aos pensamentos de Foucault, Barthes e Lacan, mas também de Levinas e Heidegger, a atracção pelo budismo, os efeitos nas ciências sociais e cognitivas - eis alguns dos tópicos suscitados por esta obra una e diversa. Homem independente, inesperado e controverso, grande estilista da língua francesa, nos seus livros tudo converge: antropologia, filosofia, arte, literatura, música, ciências humanas, ciências exactas.

Num ensaio muito pessoal (Lévi-Strauss ou o Novo Festim de Esopo), Octavio Paz descodifica e interroga este pensamento tão pessimista e inquietante, dizendo-o "não uma dissolução da razão no inconsciente mas uma busca da racionalidade do inconsciente: um super-racionalismo". E George Steiner, em A Nostalgia do Absoluto, compõe com Lévi-Strauss, Marx e Freud um triângulo de judeus - "messias seculares" que substituíram as velhas teologias por novas mitologias. E mostra que o pessimismo de Strauss assenta numa outra versão do pecado original: a ruptura entre natureza e cultura, a quebra da aliança do homem com a criação. É esta, aliás, a fonte da força trágica desta obra.

Num arco de cem anos, Lévi-Strauss ergueu com o pensamento um céu que faz dele "um astrónomo das constelações humanas". Ele é aquele que não cessa de nos lembrar que os astros nasceram antes de o homem nascer e morrerão depois de ele morrer...

José Manuel dos Santos

Expresso, 2/06/2008