segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Num país mais do que viável

Díli, Timor-Leste. - Os pessimistas estão sempre em vantagem. Se as coisas correm mal, ganham porque tiveram razão. Se as coisas correm bem, ninguém se lembra que eles erraram; todos sentem que ganharam, e eles ganham também. Os optimistas estão sempre em desvantagem. Se as coisas correm mal, perdem mais ainda por terem tido a imprevidência de ser optimista. Se as coisas correm bem - bem, então nesse caso toda a gente se esquece que eles acertaram, ninguém pensa mais no assunto, toda a gente sente que ganhou - e os optimistas, no máximo, empatam.

Aqui em Timor-Leste, as pessoas dão-se ao luxo de estar optimistas, dos yuppies engravatados das embaixadas aos hippies desgrenhados das ONG, todos me dizem que "Timor-Leste não está nem sequer perto de ser um Estado falhado". Acima de tudo, são os próprios timorenses de todos os tipos, do Governo à oposição e da universidade ao campo, que nos fazem pensar que Timor-Leste esta bastante melhor do que simplesmente não ser um Estado falhado.

A cada momento, contudo, a gente dá por nós a pensar: como é que explico isto em Portugal? É esta a perversidade da relação bipolar que os portugueses têm com Timor; as más notícias são aceites à partida e as boas parece que têm de se provar constantemente. Façamos então todas as reservas - sim, o desemprego é muito alto, principalmente entre os jovens, o que é perigoso; talvez esta calma dominante esconda uma violência latente à espera de uma oportunidade; a estrutura de ensino é voluntariosa mas incipiente, e a precisar de mais ambição - para dizer que há de facto uma calma dominante a partir do momento em que os veteranos da resistência ou as suas viúvas passaram a receber modestas mas justíssimas pensões; que o Orçamento do Estado, de défice zero, aumentou seis vezes nos últimos anos; que a própria economia cresceu doze por cento, claro que a partir de uma base baixíssima; que o Governo e a oposição têm os seus defeitos mas, enfim, que aqui há um governo e uma oposição que desempenham os respectivos papéis. Reparem: já ninguém aqui se pergunta se Timor-Leste é viável; o que as pessoas aqui se perguntam, dando respostas diferentes, é qual é a forma mais interessante de Timor-Leste ser viável.

A sobrecarga informativa que levo de uma semana em Timor-Leste, com viagens de Díli ao enclave de Oecussi-Ambeno, e de Díli a Baucau e ao monte Venilale, é impossível de resumir nas duas crónicas que tenho esta semana. O que se aprende aqui leva tempo a sedimentar, e pede talvez explicações mais longas e narrações mais detalhadas noutro texto.

Mas no culminar desta semana, vejo milhares de pessoas festejar nas ruas. Os timorenses têm um justificado orgulho na sua diversidade cultural, nas suas 36 línguas, nos grupos dos vários distritos que representam os rituais deste país pequeno - mas não tão pequeno quanto se imagina aí em Portugal. Têm também orgulho no que fizeram durante a resistência e, com grande elevação, têm conseguido fechar o ciclo às coisas de que sabem não poder orgulhar-se. Outros tentam fazer o mesmo; até a estrela pop indonésia, que vem abrilhantar a festa, aprendeu a cantar em tétum e português, e dá os parabéns pela libertação com um "Viva Timor-Leste".

A questão é mesmo onde estão os portugueses; souberam angustiar-se e sofrer com Timor-Leste. Mas parece que não sabem o que fazer agora.

Rui Tavares
Historiador. Deputado eleito para o Parlamento Europeu pelo Bloco de Esquerda (http://www.ruitavares.net/)

PÚBLICO - 31 Agosto 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

Décimo Aniversário do Referendo de 30 de Agosto

Os timorenses iletrados do Timor profundo orgulham-se de terem expulso o Exército indonésio com um simples prego e uma folha de papel (alusão ao facto de terem utilizado um prego para furar o quadrado do logotipo do CNRT nos boletins do voto, em 30 de Agosto de 1999, para assinalar a sua opção política).

Referendo à la Mari

Daqui a menos de uma hora comemora-se o décimo aniversário da libertação de Timor, dia em que os timorenses foram chamados a pronunciar-se em Referendo promovido pelas Nações Unidas sobre o seu futuro: independência ou uma autonomia dentro da Indonésia.

Hoje, 29/8, quiça para comemorar (também?!) o décimo aniversário do Referendo libertador da opressão e ocupação indonésia, Mari Alkatiri dá uma entrevista a Francisco Pedro, difundida pelo Sapo Notícias (29/8/2009), em que defende um 'referendo' para auscultar a opinião dos timorenses sobre se querem ou não 'eleições antecipadas'. Cá para mim, ou Alkatiri está tão desesperado, tal qual uma criança que perdeu o seu brinquedo preferido, deixando de ter a noção de razoabilidade política e não sabe o que diz, ou Alkatiri está apenas a entreter os seus fiéis seguidores, a fazer de conta que ainda lidera o seu moribundo grupo maputano, preparando o terreno para as eleições internas da Fretilin que já se avizinham a passos largos em 2010, continuando a enganar os ceguinhos maputanos para ser novamente reeleito com o 'sovaco no ar', empestando o ambiente com o catinga, tornando uma vez mais o ar político irrespirável como há três anos.

Quando o jornalista pretende saber os motivos do porquê da proposta sua das 'eleições antecipadas', Alkatiri responde o seguinte:

«Lancei um repto para um referendo para saber se a maioria das pessoas quer ou não eleições antecipadas. Consultar as pessoas para evitar que se cansem e achem que podem descer às ruas e derrubar o governo. Há um problema de legitimidade: as pessoas que estão no poder são quem esteve por trás da crise de 2006, quem entendeu começar com a violência e dividiu a polícia e as forcas armadas. Foi um golpe semi-constitucional.»

Acham isto lucidez?!

José Ramos-Horta

O Presidente da República de Timor sabe que a Justiça e a História nem sempre caminham lado a lado. Sabe ainda que é perigoso reabrir feridas como a que a ocupação indonésia deixou em Timor. Por isso, Ramos-Horta insurge-se contra os que querem julgar os indonésios. Porque tem a certeza de que a paz é o capital mais precioso para o futuro do seu país.

Público (29 Agosto 2009)

Os timorenses não estão interessados na justiça face à Indonésia, diz Ramos-Horta

Presidente de Timor-Leste afirma que os indonésios é que eventualmente virão a julgar os crimes contra os direitos humanos durante o regime de Suharto.

O Presidente da República, José Ramos-Horta, manifestou-se ontem ressentido com um comunicado da Amnistia Internacional a solicitar que o Conselho de Segurança das Nações Unidas estabeleça um Tribunal Criminal com jurisdição sobre as violações cometidas por altura do referendo em que a população de Timor-Leste optou pela independência.

"Na devida altura, os indonésios, com a sua própria agenda, julgarão eventualmente os que são responsáveis por crimes", disse o chefe de Estado, citado pela Radio Australia. Na linha do que muitas vezes já afirmou, Ramos-Horta declarou não apoiar nenhuma investigação internacional sobre o que se passou no seu país.

"Os indonésios fizeram um tremendo progresso nos últimos dez anos, afastando-se da ditadura e da impunidade, para uma democracia mais robusta", disse ainda o Presidente, citado desta vez por outro órgão australiano, a televisão ABC.

"Se fossem comigo por todo o país, como tenho feito durante tantos, tantos meses, ao encontro das pessoas de pé descalço, milhares delas, nem uma só falou de se julgar os indonésios", insistiu Ramos-Horta.

"Tudo o que me perguntam, a toda a hora, é quando é que vão ter electricidade, quando é que vão ter uma rede telefónica", afirmou o Presidente. Segundo o governante, existe apenas um pequeno número de activistas dos direitos humanos que continua a pedir um tribunal internacional para as atrocidades que foram cometidas.

Dentro do espírito de boa vizinhança entre Jacarta e Díli, o ministro indonésio dos Negócios Estrangeiros, Hassan Wirajuda, é aguardado em Timor-Leste a 30 de Agosto, para as cerimónias do décimo aniversário do Referendo.

PÚBLICO (Sábado 29 Agosto 2009)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O quê? Não ouvi bem.

«Só como cerejas quando a minha empregada tira os caroços por mim. E uvas sem grainhas.»

Carolina Patrocínio,
Mandatária da Juventude do PS
(CM, 15.08.2009)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Visita da delegação do PN a Portugal

Há vícios instalados na embaixada timorense de Lisboa, que persistem mesmo com a mudança de embaixador, que devem urgentemente ser erradicados para melhor servir o país e os timorenses radicados em Portugal.

Mais uma vez os serviços da embaixada mostraram a sua incompetência ao não preparar o terreno para a visita (de 24/07 a 14/08) da delegação parlamentar a Portugal, liderada pelo próprio Vice-Presidente do Parlamento Nacional, Vicente Guterres, para estudar o funcionamento dos municípios portugueses a fim de encontrar o melhor modelo para o poder local a adoptar em Timor. Antes da vinda da delegação, o Parlamento Nacional enviou ao Ministério dos Negócios Estrangeiros um memorando sobre os contactos que os deputados pretendiam efectuar em Portugal: audiência com o Presidente da Assembleia da República, visita de trabalho à Câmara Municipal de Torres Novas e à Presidência do Governo Regional dos Açores, entre outros. Seguindo o protocolo, o MNE deve informar a Embaixada de Lisboa da vinda dos parlamentares e os procedimentos a efectuar. Mas, chegada a delegação nenhum contacto solicitado fora realizado pelos serviços da embaixada, nem dispôs um motorista para os transportar nas suas deslocações. A própria delegação fez os contactos anteriomente solicitados ao MNE e teve de contratar o seu próprio motorista para conduzir a viatura da Embaixada.

Ainda neste período de visita dos parlamentares, um diplomata teve a ousadia de convocar o próprio Vice-Presidente do Parlamento Nacional para a recepção ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, invertendo (por ignorância?) a hierarquia do Estado, porque o Governo é subordinado ao Parlamento Nacional e o Ministro dos Negócios Estrangeiros está hierarquicamente abaixo do Vice-Presidente do PN.

Quando uma embaixada que não serve os interesses dos seus cidadãos imigrantes em Portugal, não recebe condignamente representantes de órgãos de soberania em visita a Portugal, nem consegue contratar um motorista, e os funcionários administrativos mandam nos diplomatas, encerra-se. Ou faz-se uma limpeza à casa.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

PNTL assume maior responsabilidade

Declaração do Porta-voz do IV Governo Constitucional,
Secretário de Estado do Conselho de Ministros

O Porta-voz do IV Governo Constitucional e Secretário de Estado do Conselho de Ministros, Ágio Pereira, anunciou que a PNTL (Polícia Nacional de Timor-Leste) tem vindo a fazer avanços significativos ao nível da capacitação e da profissionalização dos efectivos de polícia, fomentando deste modo a confiança junto das comunidades de Timor-Leste.

Os avanços são evidentes em Lautém, Oecussi-Ambeno e Manatuto, três dos treze distritos de Timor-Leste, nos quais a PNTL retomou da polícia das Nações Unidas as responsabilidades primárias de policiamento. Manatuto é o mais recente distrito em que a PNTL reassume as responsabilidades de policiamento, mais concretamente no passado dia 25 de Julho de 2009.

A transição faz parte de um esforço concentrado entre o Governo de Timor-Leste e a UNMIT com o intuito de transferir gradualmente as responsabilidades de policiamento para a Polícia Nacional de Timor-Leste. Para que tal fosse possível implementou-se uma formação coordenada visando melhorar a capacidade e o profissionalismo dos efectivos da PNTL.

Ágio Pereira afirmou: “Entrámos numa nova era de paz. A estabilização da Nação foi resultado do esforço de colaboração entre o Governo e as forças conjuntas, apoiado pelas reformas bem-sucedidas que o Governo de Xanana Gusmão implementou com vista a reconstruir as nossas forças de segurança. Encaramos as transições em termos de aceitação de responsabilidades primárias de policiamento como um passo muito significativo rumo a tornarmo-nos uma Nação autosustentável. Mais importante ainda, consideramos que estes avanços são um sinal de que a nossa Nação está a sarar as suas feridas e que a população volta a confiar nas nossas Instituições.”

O Governo de Xanana Gusmão fez da segurança nacional uma prioridade em 2008/2009, dando ênfase ao estabelecimento de condições de trabalho justas e equitativas para os agentes de polícia, implementando um sistema nacional de classificações e atribuindo aumentos salariais comensuráveis, condição que os agentes não haviam obtido desde que a Nação conquistou a sua soberania.

Os agentes receberam também formação intensiva em policiamento, com alguns agentes de topo a serem enviados para programas de liderança a nível internacional com a finalidade de aprenderem melhores práticas de policiamento. A despolitização da PNTL foi um factor essencial no sucesso das reformas.

Ágio Pereira terminou afirmando “Estamos orgulhosos dos feitos da PNTL. As nossas comunidades voltaram a confiar na sua polícia e a PNTL atingiu um novo nível de orgulho, sentido de missão e profissionalismo nas suas tarefas, respondendo ao apelo da nossa Nação e do nosso Povo para servir de forma justa e imparcial.” FIM

Díli, 31 de Julho de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Tese australiana da execução de Reinado

A Polícia Federal Australiana (AFP) defende a tese de execução de Alfredo Reinado na residência do Presidente Horta. O relatório da polícia australiana, a quem foi solicitada perícia balística pelo Ministério Público timorense, diz, de acordo com um jornal de Sydney (de maior circulação nesta cidade australiana, segundo Jorge Heitor - http://heitor-omximo.blogspot.com/), que a arma com a qual o soldado Marçal disse ter disparado contra Reinado não é a mesma que o matou, assim como o seu guarda-costa Exposto.

Não entendo esta informação do pseudo-relatório da AFP, se é que existe um relatório com este teor, e não ter sido facultado às autoridades timorenses que solicitaram a peritagem balística para ajudar a encontrar a verdade de tudo o que aconteceu em 11 de Fevereiro de 2008.

Agora, não percebo (e não entendo mesmo) como é que o blogue http://timorlorosaenacao.blogspot.com/ (TLN) - que sempre disse cobras e lagartos dos australianos - vem servir-se de porta-voz da política expansionista da Austrália. Não nos iludamos: Austrália sempre quis e continua a querer transformar Timor no seu quintal das traseiras, como está a fazer em relação à Nova Guiné Papua (independente?), Fiji, Salomão e Vanuatu. Mas, a Austrália sabe também que connosco, com os timorenses, dificilmente conseguirá os seus intentos... Mas vai desestabilizando politicamente Timor a fim de poder explorar sem resistência os nossos recursos petrolíferos do Mar de Timor, com a ajuda de alguns fretilinos maputanos e sua legião estrangeira de escribas, durante os cinquenta anos concedidos de mão-beijada pelo então Primeiro-ministro Mari Alkatiri (2002).

A propósito do artigo de Jorge Heitor, republicado no blogue TLN (2/08/2009), sobre a hipotética execução de Reinado nas instalações da residência do PR Horta, um anónimo deixou um comentário na caixa de comentário.

«Anónimo disse...

As autoridades timorenses pediram a Policia Federal Australiana (AFP) para fazerem um teste de balistica, por falta de recursos e facilidades em Timor, mas nao contentes com o simples pedido, a AFP achou que tinha que oferecer tambem teses especulativas sobre a POSSIBILIDADE de politicos terem feito uma cilada a Reinado.

Ate podiam ter sido extra-terrestes de marte se isso convencesse os timorenses a causarem de novo instabilidade que a AFP ficaria contente.

Esta e' que e' hein!!

Mas quais sao os interesses do governo Australiano em Timor? Eles estao interessados num Timor estavel e prospero? Claro que nao!!

E quando e' que as autoridades Australianas se apercebem que Timor ja nao descamba em instabilidade so porque ales assim o querem?

E desde quando e' que o TLN passou a acreditar nas autoridades Australianas a ponto de agora ate darem relevo e destaque as suas teorias. Teorias sim porque nao passam de teorias e especulacoes. Isso e' que foi uma grande reviravolta de fe por parte do TLN. Ou sera so conveniencia? Hehehehe

Gostaria de saber o que o Dr Haneef pensa sobre a AFP visto que eles ate fabricaram 'evidencias' para tentar incrimina-lo nos actos terroristas em Londres. O que valeu ao Dr Haneef foi que a sociedade civil Australiana nao vai nas suas cantigas nem mesmo da sua Policia Federal e depois de uma investigacao interna a AFP foi forcada a liberta-lo porque as 'provas' que eles tinham contra o homem eram fabricadas.

Deixem os tribunais timorenses fazerem o seu trabalho e chega com as interferencias externas.

Timor ja nao se vai descambar em violencia so para beneficiar os interesses Australianos sobre o petroleo no Mar de Timor.

Ponto Final!!

4 de Agosto de 2009 15:39»
in Caixa de comentário do TLN

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Viriato da Cruz: NAMORO

Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à Avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficámos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"- Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Poema lindíssimo do poeta angolano Viriato da Cruz, musicado e cantado por Sérgio Godinho, 'glosado' no texto de Ferreira Fernandes sobre o NÃO de Joana Amaral Dias ao convite do PS para integrar a lista de deputados nas próximas eleições legislativas de 27 de Setembro.

Campanha com boa música

Joana Amaral Dias nasceu em Luanda, de onde escrevo. Acabo de saber que o PS lhe mandou uma carta em papel perfumado. Com letra bonita, ele disse que ela tinha um sorriso luminoso tão triste e gaiato. Mas a essa carta ela disse que não. O PS tipografou um cartão: Por ti sofre o meu coração. Nos cantos pôs sim e não. E ela o canto do não dobrou. O PS mandou-lhe um recado pela Zefa do Sete, pedindo, rogando. Mas ela disse que não. O PS pediu a Avó Chica, quimbanda de fama, que fizesse um feitiço. E o feitiço falhou. O PS prometeu-lhe um colar, deu doces. E ela disse que não...

Na verdade, eu não sei bem se o pedido e a insistência do PS foram mesmo assim, mas foi assim que Joana Amaral Dias os badalou. Quando o PS, triste, foi ao baile do São Janurio [Januário?], ela lá estava num canto a rir, contando o seu caso às moças mais lindas do Bairro Operário. Não sei, repito, se tudo se passou assim. Mas gosto de uma campanha eleitoral cantada por Sérgio Godinho e, sobreuto, com letra do luandense Viriato da Cruz (O Namoro, também conhecido como Aí, Benjamim). E outra coisa: no fim (noutra campanha?), ela disse que sim.

Ferreira Fernandes
DN - Diário de Notícias, 3 Agosto 2009

Gabo

Os escritores dividem-se (imaginado que aceitem ser assim divididos...) em dois grupos: o mais reduzido, daqueles que foram capazes de rasgar à literatura novos caminhos, o mais numeroso, o dos que vão atrás e se servem desses caminhos para a sua própria viagem. É assim desde o princípio do planeta e a (legítima?) vaidade dos autores nada pode contra as claridades da evidência. Gabriel García Márques usou o seu engenho para abrir e consolidar a estrada do depois mal chamado "realismo mágico" por onde logo avançaram multidões de seguidores e, como sempre acontece, os detractores de turno. O primeiro livro seu que me veio às mãos foi Cem Anos de Solidão e o choque que me causou foi tal que tive de parar de ler ao fim de 50 páginas. Necessitava de pôr alguma ordem na cabeça, alguma disciplina no coração, e, sobretudo, aprender a manejar a bússola com que tinha a esperança de me orientar nas veredas do mundo novo que se apresentava aos meus olhos. Na minha vida de leitor, foram pouquíssimas as ocasiões em que uma experiência como esta se produziu. Se a palavra traumatismo pudesse ter um significado positivo, de bom grado a aplicaria ao caso. Mas, já que foi escrita, aí a deixo ficar. Espero que se entenda.

José Saramago
http://caderno.josesaramago.org

DN-Diário de Notícias, 3 Agosto 2009

domingo, 2 de agosto de 2009

Dando voz aos comentaristas (6)

Não resisto de puxar para a página principal a réplica de um anónimo relativa ao comentário de Malai Azul 2 (30 de Julho, 17:22) sobre à postagem «Dando voz aos comentaristas (5)».

Que tristeza? Grande triste são todas as tentativas de desestabilização, mentiras e calúnias que fazem parte da propaganda fretilinista propalada pelos blogs como o TLN e o Timor Online.

O Malai Azul2 devia era ter vergonha na cara antes de fazer comentários destes.

Mas do sucessor do Malai Azul (1) não podíamos esperar outra coisa. Claro que não!!

Pois continuem com as vossas caboiadas de tentar derrubar o governo da AMP que Timor e os timorenses continuam a olhar para a frente, para um futuro sentido e visivelmente bem mais próspero e estável do que aquilo que se viu do governo da Fretilin (leia-se MAlkatiri).

Nao bastou terem criado/ignorado todos os problemas que resultaram na crise de 2006, e agora ainda andam com palermices de criar mais instabilidade para derrubar o atual governo da AMP.

O vosso azar e' que os timorenses estão cagar-se para vocês e as vossas opiniões e não querem nada com as vossas marchas e sei la mais o que para derrubar Xanana Gusmao ou o seu governo. O povo gosta deste governo e quanto mais vocês atacam mais se enterram na poia.

As eleições de 2012 vão tirar-vos todas as dúvidas. Hoje a Fretilin Maputo tem 29%, uma descida de practicamente metade dos resultados de 67% em 2001, e em 2012 vão descer ainda mais.

Não acreditam? Esperem e logo verão!!!

Mari Alkatiri agora até quer fazer coligações com o CNRT... Hahahahahahahaha

1 de Agosto de 2009 12:33

sábado, 1 de agosto de 2009

O Cheque-Boi

No Brasil, há uma expressão alternativa para cheque careca. Diz-se cheque-boi porque, quando se recebe um desses papelinhos e se desconfia da cobrança pensa-se, qual bovino,"Mmmm", que é como quem diz "aqui há gato". A proposta do PS de oferecer 200 euros a cada recém-nascido não é um cheque-bebé. É um cheque-boi. Espanha, por exemplo, atribui 2500 euros e muitos países europeus superam esse valor. Estes 200 euros, que não dariam nem para fraldas, ficarão no banco até o jovem ter 18 anos (aí receberá 500 euros), como se a preocupação dos pais não fosse no pós-parto mas quando a criança atinge a maioridade. É com este bom senso que o PS prefere esse cheque à melhoria da rede pública de infantários ou um abono de família mensal de nível europeu (150 euros).

Já a banca arrecada 200 euros por cada nascimento. Anualmente, corresponde a 150 milhões. Ao fim de dezoito anos, os zeros da quantia não cabem nesta crónica. O que parecia uma política social é, afinal, um financiamento encapotado à banca. O PS defende que a proposta é um incentivo à poupança. Mas esquece-se de dizer de quem. O amealhar é dos bancos, embora a crise não lhes faça mossa. As quatro maiores instituições bancárias privadas portuguesas ganharam mais 17, 4% neste primeiro semestre do que em 2008. Quatro milhões de euros de lucros por dia. Mmmmm.

JOANA AMARAL DIAS
Correio da Manhã, 1 Agosto 2009